quarta-feira, 30 de setembro de 2026

PURA PODRIDÃO


Se quisermos ver as pessoas em seu estado mais puro de sordidez, sem disfarce, basta irmos aonde se concentre um público a ser atendido.

Da triagem dos hospitais, passando por filas no açougue do supermercado - que muitos consideram "menos importantes" que a fila do caixa e, por isso, furam - até chegar na maneira como tratam garçons ou vendedores das Casas Bahia, são nesses lugares que a verdadeira natureza das pessoas se revela.

Talvez sejamos programados geneticamente pra entrar em fila. 
Vemos uma, entramos. 
E, uma vez nela, buscamos meios de enganar o cara da frente e roubar o lugar dele. 
Queremos "passar um caô" no atendente e fazer com que ele nos preste favores que não faria pra mais ninguém. 
Queremos que o vendedor nos dê descontos impossíveis e que o motorista pare o ônibus fora do ponto.
E votamos no vereador que vai nos dar um emprego na repartição ou as telhas pra fechar o telhado.

Depois, reclamamos que tudo tem fila.
Que sempre tem um esperto querendo furar.
Que o atendente é um grosso que não presta pra nada e nem quis saber do absurdo que pedimos.
Que a loja e o vendedor são safados e metidos, porque não dão descontos dizendo que o preço tá no código de barras.
Xingamos o imprestável do motorista do ônibus, que não quis dar uma meia-trava só pra gente descer logo e não ter de andar aquilo tudo.
E chamamos os políticos de ladrões safados se não nos derem as telhas. E, se derem um cargo, os adoraremos até o final do mandato.

Talvez nosso ideal seja aquilo que o pior das pessoas acha ser o mais esperto a se fazer.
Babar por uma bunda na rua e, assim que essa bunda se torna sua namorada, a proibir de exibir-se.
Dizer que o serviço público é uma porcaria porque é gratuito, e nem lembrar que largou um terço de seu salário pagando isso.
Que agir da maneira correta é só pros outros.
Ele?
Sempre se dá um jeitinho.

Somos milhões, milhões de espertos enganando uns aos outros.
Diariamente.

Alguém ganha, nisso tudo.




Walter Biancardine



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