Sempre tive o dom de atrair gente estranha.
Um deles construiu um veleiro na Europa, atravessou o oceano sozinho e deu com os costados aqui no Brasil, mais exatamente em Cabo Frio/RJ.
E nos tornamos amigos.
Um dia resolvemos fazer uma expedição de pesca submarina, com o nobre objetivo de liquidar parte da fauna subaquática local e, para isso, fundeamos na costa da Ilha dos Papagaios, aqui em frente.
O objetivo era ambicioso: badejos, garoupas ou até um mero bem pamonha - se tudo desse errado.
Seu barco era um veleiro, por isso aventuras à la Hemingway, fisgando olhos-de boi no anzol ou passar uma rede de arrasto pra enchermos a barriga com anchovas, estavam fora de questão.
O caso é que descobri uma turma de badejos brancos, daqueles pesados, que me encantou. Eles se reuniam lá embaixo, bem uns vinte e poucos metros de profundidade, e eram incrivelmente bobos.
Não é preciso dizer que gastei todo o dia - da manhã à noite - arpoando os brutos. Descia, arpoava e subia. Repetidas vezes.
O caso é que vinte metros de profundidade já são três atmosferas e é preciso saber o que se faz. Devo ter cometido alguma besteira e acabei por estourar os seios da face, enchendo minha máscara de sangue e me presenteando com uma glamurosa dor de cabeça, que só passou graças ao uísque com aspirina.
Essa recordação me voltou à cabeça recentemente, ao ler várias pessoas no Substack reivindicando o direito de serem profundas ao escrever artigos obesos de metáforas, analogias e termos filosóficos. Sim, abyssus abyssum invocat - um abismo chama o outro (ou, segundo os filósofos substaquianos, "ao olhar pro abismo ele nos olha de volta") - e me pus a pensar.
O abismo em questão eu chamo de "texto profundo".
Nada contra, muito pelo contrário. Eu mesmo gastei décadas de minha vida escrevendo análises políticas, ensaios filosóficos ou teológicos, onde cada palavra deve ser usada em sua justa medida e calibre - ou dá merda. E isso deixava meus trabalhos vestidos como um mordomo, enfarpelado em seu uniforme de gala, pomposo e erudito, mas pouco palatável.
É claro que o objetivo dos artigos me obrigava a escrever daquele modo. Não era "literatura", era pancadaria política e ideológica o tempo inteiro.
Mas hoje estou alforriado.
Persona non grata na mídia, posso agora me dedicar ao que sempre fiz desde moleque escrevinhador de redações, e deixar minha cabeça correr livre pelas palavras sem freios das poesias ou nos períodos desnorteados de minhas crônicas.
Os mares me ensinaram que a profundidade em excesso pode ser prejudicial, e só deve ser usada com uma justa causa.
E, lembrando agora o título deste, os aviões me ensinaram outra coisa: simplicidade não significa ser raso. Talvez o certo seja simplificar. "KIS" - Keep It Simple - era o nome de um aviãozinho que voei, e que me maravilhou por sua simplicidade de operações e eficiência. Nada a dever aos bons e velhos Paulistinhas.
Aliás, ouso dizer que os superava. Era sentar e voar. Apenas.
Penso que o ideal é isso: fugir de pretensiosas erudições profundas e manter tudo simples, inteligível.
Acho que milhares de leitores agradecerão.
Afinal, um barotrauma dói pra cacete.
Walter Biancardine
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