Nunca vou me entender com a velha senhora.
A desgraçada não pára, bisbilhota sem descanso a vida de todos e leva sempre consigo aqueles que farão falta.
É uma filha da puta, e esse ano tem trabalhado fazendo hora extra.
Duas baixas em menos de um mês.
Uma, desarvorou quem amo. Outra, quebrou a mim mesmo.
Era um amigo há mais de 40 anos.
E pior: ambos a chamaram.
Saíram por conta própria.
É dose.
Esse meu amigo tinha uma frase que virou bordão:
" - Tô cansado de ser enganado!"
Dizia isso e ria.
Até o dia em que não riu mais.
Chamou a velhota do alto de uma árvore, e ela o buscou.
Pediu pra sair.
Os anos me ensinaram a ter uma cara de aço inox.
Mas de nada me adianta se o interior é de folha de flandres e tá todo corroído pela maresia da vida.
E pelo álcool.
E pelo cigarro.
Sempre aparece alguém pra dizer que eu devia largar isso.
Pois digo - prometo - que largarei.
Assim que a vida parar de me sacanear.
E sacanear os outros, fazendo com que decidam por essas merdas.
Fico ainda aqui.
Esperando o dia em que essa velha senhora safada vier me buscar.
Vou esperar com um soco inglês na mão.
E um porrete na outra.
Ela vai me levar.
Mas vai ficar toda dolorida.
Walter Biancardine

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