Já ouvi muita gente tentar me dar esporro.
Diziam que eu precisava ser como eles. Levantar às 5 da manhã e ir trabalhar e só chegar de volta às 7 da noite. E trabalhar sábado. E domingo inventar um monte de obrigações na rua.
Eram trabalhadores. Bons maridos. Não tinham descanso, coitados.
Tudo pela família.
Sim.
O que alguns não diziam é que odiavam suas mulheres.
Boa parte não sabia viver com elas e a rua era melhor. Ou tinham amantes.
Ou a amante era a cachaça.
O que muitos escondiam é que achavam os filhos uns parasitas. Só pediam.
Na cabeça deles, com uns seis ou sete anos já deveriam varrer casa ou ir às compras.
E trabalhavam, sim. Descontado o tempo gasto com amantes ou fugindo de mulher e filhos, trabalhavam demais.
Porque queriam ter mais que os amigos. Mais do que a família. Calar a boca de pais, irmãos e primos e tios e avôs e avós.
Queriam mostrar que eram melhores. O pinto deles era maior.
Venceram.
Envelheceram. Filhos sumiram. E a mulher virou colega de apartamento.
Na melhor das hipóteses.
Conheci gente assim. A vida deles era um inferno.
Travestiam fuga como responsabilidade, disciplina e amor ao trabalho.
Bons chefes de família.
Sempre fui um fracasso.
Um irresponsável.
Vagabundo.
Graças a Deus.
Walter Biancardine