quarta-feira, 8 de julho de 2026

HOMEM NÃO TRABALHA


Quem acorda de manhã cedo pra ir trabalhar sabe: o ponto de ônibus mais parece um banheiro de mulheres.
Só tem mulher.
Novas, velhas, garotas colegiais, magras, gordas ou feias.
Mas, no fim, só mulheres.

E você entra num escritório qualquer ou mesmo uma loja – só mulheres trabalhando. Muito raramente, um ou outro homem é avistado à distância, fazendo um serviço subalterno qualquer, perdido dos olhares alheios. 

Quando me dei conta disso, cocei a cabeça e pensei: onde diabos estão os homens do Brasil?

Os achei voltando pra minha casa, caminhando pelas calçadas.
Um grupo sentado no meio-fio, uma garrafa de cerveja no chão, e conversando fiado. Rindo muito, todos eles.

Mais à frente um outro grupo. Talvez mais deprimidos.
Sentados no chão, encostados no muro, cabisbaixos e calados, apenas olhavam as pessoas passarem. 

Na esquina, um botequim com mesas de plástico na calçada.
E mais homens, barrigudos, rindo muito e falando alto. Futebol, bundas e outros assuntos dos quais juram ser especialistas.
Em cada mesa, uma pequena coleção de garrafas de cerveja.
E riam. Riam muito.

Os poucos homens trabalhando que encontrei dirigiam caminhão, eram camelôs ou subiam em postes pra consertar a rede elétrica.
Ou trabalhavam em obras.

Todos pobres. 
Mas riem. 
Riem muito.

Quando um homem tem vergonha de estudar e acha que isso é coisa de mulherzinha, acabou de decretar sua miséria.
Acham o máximo serem ignorantes. 
Barrigudos de bermudas e sandálias havaianas.
Ogros.

E se passam na porta de uma faculdade e veem as moças saindo de lá, eles riem.
Riem muito.

É só o que fazem.



Walter Biancardine


TALANAFILA

 


em minha imaginação meu livro
venderia e seriam milhões
de espermatozóides
a fecundar cabeças

mas desses milhões na verdade
apenas um entra no óvulo
e o fecunda
ou não

um exemplar
apenas um único
e mísero exemplar
e não entrou no óvulo

e pensar que eu ria
de candidatos a vereador
que conseguiam apenas
um único voto

sequer pai e mãe
ou irmãos
votaram nele

sou um vereador 
das letras
mereço uma placa
na parede da editora

“apenas um e único”
longe de ser elogio
mas vergonha

ao menos o editor
não me processou

aliás
nem ligou




Walter Biancardine




É A VIDA

 


vi uma foto
de um homem que faz frete
recolhe entulho e roça quintais
com fé em Deus

o rosto diz tudo
cara talhada na faca
em pedra e madeira
a vida esculpiu

vi a foto nas redes
e vi mais coisas
também

todo mundo guarda
um universo inteiro
dentro de si

a cara talhada na faca
diz muito mais
sobre essa vida de merda
que a gente nem nota

e esconde o universo
que poderia dar tanto

me pergunto
quantas crianças
poderiam ter sido

um Mozart?




Walter Biancardine



PERDEU A HORA

 


sujeito orgulhoso é convidado
para uma grande festa
tira do armário
um antigo terno lindo e caro
que chamava atenção de todos

descobriu horrorizado
o terno caríssimo estava puído
comido por traças e manchado
amarrotado e com mofo
imprestável e feio

o tempo passou e o sujeito
que era orgulhoso
não viu

não viu nem mesmo que ele
depois de tantos anos
ficou igual ao seu terno
amarrotado de rugas
imprestável pela artrite
e feio de velhice

quando pensava em si
era como um homem de trinta
e poucos anos e ativo

mas só até olhar o espelho

a maldita cabeça é jovem
não acompanhou o corpo
fez de um homem sério
o tio do churrasco

e só seu terno
podre de velho
conseguiu mostrar
a verdade




Walter Biancardine




ARQUIVO MORTO


um amigo disse
que o papel é um depósito
cemitério de versos
funeral quase vazio

otimista,
não quis piorar

o papel também
sepulta dores
sonhos
amores
desejos
amarguras
solidões
vidas

não leem sequer
manual de instruções

morreremos inéditos
abraçados
a pilhas de papel
imundo



Walter Biancardine



PRIORIDADES


o que me preocupa de verdade
é o que vou comer amanhã
ou se vão me mandar 
sair de onde moro

não sei se é um nirvana
dos subúrbios da Leopoldina
mas se nada tenho
nada posso
nada quero
então não há nada
com que me preocupar

só um teto
e um prato e
se der

uma cerveja



Walter Biancardine



terça-feira, 7 de julho de 2026

LÁ PRAS NEGAS DELE

 


Fico besta de ver
quanta gente se acha importante
vão pras redes e escrevem
frases lapidares
verdades absolutas
conselhos e sabedorias
tentando transpirar
alguma macheza e rudeza
esculpida pela vida dura
que nunca tiveram

são os cripto-coaches
com vergonha de vender cursos
se refugiam na falsa amargura
dos heróis frios dos filmes
e disparam rajadas
de opiniões não pedidas

fingem ser escritores
aconselhando estagiários de escritores
e dizem que o que inspira
é o trabalho duro
num emprego qualquer

eles acham o trabalho
o pior castigo do mundo
e impõem aos outros
como punição e amadurecimento

isso mostra que são uns frouxos
cuja pior coisa que imaginam
é trabalhar

o pinto nem saiu do ovo
e já quer ensinar
a ciscar



Walter Biancardine



MÉDIA


É preciso se juntar 
a um grupo de gente 
que se acha artista
para que você
não se sinta
tão mal

ouvindo o absurdo
o impensável
a estupidez
mediocridade
ou puro mau-gosto
travestido de
parecer à frente
de seu tempo

só assim
seu olhar será
mais benevolente
consigo mesmo

talvez até
descubra um talento
promissor
em sua cabeça

a média humana
é medíocre




Walter Biancardine


RETÓRICA

 


Tentamos explicar e não conseguimos
buscamos alguém e ela não está
pedem nossa opinião e não ouvem
corremos atrás e não alcançamos

argumentamos
discutimos
demonstramos

nada

felizmente existe a violência




Walter Biancardine



FIMOSE

 


quando conhecemos cada rachadura
e buraco das calçadas mas
nunca reparamos nas lojas

ou avaliamos o sacrifício
desumano que será
ir à padaria comprar pão

a postura nos faz gêmeos
de um pau mole
curvos e flácidos
com a gola da camisa
como fimose

o olhar não é um charme
é fotofobia mesmo
após tanto tempo no quarto

às vezes uma camisa do avesso
ou blusa amassada
as mesmas por um mês

a vida cobra alegria
é obrigatória
a quietude afasta 
acham contagioso
no país da malemolência

por isso prefiro
uma vez mole
ficar na cueca




Walter Biancardine



ANDO EM BOA COMPANHIA

 


Vi um cavalo ser espancado e enlouqueci
acordei nas ruas com roupas de outro
e nunca soube explicar

bebo litros de um café de trinta anos
na caverna de meu quarto
forrada de cortiça

tentei escrever em pé e contar palavras
mas a página venceu

andei quilômetros com Dickens
dormi com uma colher Dalí
da cozinha
pra comer as maçãs podres
de Schiller

sou demasiadamente humano
e busquei o tempo perdido
que Proust não achou

sou um velho e amo o mar
mas não explodi minha cabeça
com um tiro

e preciso de minhas duas orelhas
para segurar os óculos
e imaginar girassóis




Walter Biancardine




RESSACA

 


bebedeira custa caro
em todos os sentidos

a fuga tem um preço
esquecer custa dinheiro
saúde e até dignidade

nossos rastros no banheiro
lembram mais um aterro
sanitário

mas ainda são mais limpos
que os rastros
da noite anterior

sempre dói lembrar
algumas coisas que nos
escaparam
entre a boca e o copo

sincericídios
gafes
lágrimas

não se bebe pra esquecer
mas pra entender
o problema vem depois

a dor de cabeça
e o fígado em revolta
doem menos
que as lembranças

por isso
tenho bebido
sozinho




Walter Biancardine




VERDADE ON THE ROCKS

 


O melhor do bar
é beber e calar
olhar
confirmar

o frígido chora
o honesto confessa
o macho senta
gostoso

beber
olhar
confirmar

sem nada falar




Walter Biancardine



COMPLEXO DE X

existe gente que arruma briga
até em missa
discute na fila
resmunga no elevador

são os mesmos que empestam
redes sociais xingando
reclamando de tudo
de todos e das redes

nenhuma rede pediu
que entrasse
ou fizesse perfil

seus xingamentos
ou opiniões
raivosas

enfie no cu




Walter Biancardine



ELES SAEM DE CASA

  


Não sei por que essa gente sai de casa.
Cara amarrada. 
A boca mais parece um esfíncter.
Não saem por obrigação.
Saem pra ir a um restaurante ou bar ou loja, tanto faz – a cara de cu é a mesma.

Não fala com funcionários. 
Não fala com a ralé. 
Não fala com ninguém que não esteja à sua altura – nem mesmo Deus. 
Ele é só na missa.

Mas antes falava. Só que ninguém lembra.
E falava muito.
Sorria. 
Agradecia até o não feito.
Abocanhava o saco do chefe e engolia as duas bolas.
E acha que ninguém notou.

Essa gente não vale sequer as bolas que lambeu.
Mas pra reclamar são bons.

Basta alguém feliz por perto.




Walter Biancardine



ANTES DO PRIMEIRO CIGARRO


não existe coisa pior

recém-acordado
ofuscado pelo dia
e gritos perfuram 
rapidez assusta

o imbecil chega

falando alto
cheio de pressa
cobrando coisas
que nunca pediu

fala com um e outro

e eu mal saído
da cama e olhos
franzidos

ouvidos sensíveis
do silêncio do sono
vendo aquilo

cada gesto, um susto
cada grito, um ódio

eu o mataria
em legítima defesa

e voltaria pra cama




Walter Biancardine




NÃO ERA UÍSQUE

 


acordei de ressaca
não por bebedeira
mas ressaca boa
de perfume

o cheiro me cobriu
a noite inteira

era ela ao lado
acordei acompanhado

mas só



Walter Biancardine




segunda-feira, 6 de julho de 2026

PROFUMO DELLA DONNA


Ganhei um presente
um perfume
ela me deu

o perfume é pra homem
mas o cheiro que sinto
é dela

é ela

que pensa em mim
e lá de longe
me envolve

sensação estranha
ninguém percebe
a mulher amada
me veste

existe uma diferença
entre estar sozinho
e ser sozinho

eu era só
agora estou
e é menos mal

um perfume
cheiro de mar
acalmou meu coração

ela agora
o embala
em seu colo





Walter Biancardine







ALUGA-SE PARA TEMPORADA


Sujeito vigia o calendário pra saber do próximo feriadão numa quinta ou terça-feira, pra enforcar e ir pra praia.

Praia é de graça. Leva um cooler de cerveja e uma caixa de som JBL pra berrar o pancadão. E fica lá o dia todo sem gastar um tostão, postando foto no Instagram com o mar de fundo.

Pobre tem complexo de mar.
Não pode ver uma praia que acha que é coisa de rico.
Rico mesmo se isola. Pobre quer muvuca.
Mas o infeliz continua.

Olha de novo o calendário pra ver os jogos de futebol.
Discute e sai até no soco por causa de um cara que nem o conhece. 
O infeliz vai pra casa deprimido porque seu time perdeu. 
O jogador, por quem ele levou socos na cara defendendo, vai embora em sua Lamborghini.
E ele gastou o dinheiro da conta de luz pra ver o jogo.
Amanhã é breu ou gato.

E tome calendário, dessa vez pra saber quando é o carnaval.
Aluga uma casinha de sala e dois quartos na praia junto com mais cinquenta e duas pessoas. E dezoito crianças catarrentas.
Vão em ônibus de excursão. 
Levam isopor com comida e bebida, não deixam um centavo na cidade. 
Dormem em turnos. 
Enchem a cara e um ou outro morre afogado, bêbado.
Mais fotos pro Instagram.

O importante é se divertir.
Tirar onda de rico.



Walter Biancardine




domingo, 5 de julho de 2026

BENEFÍCIOS -

 


terminei o dia
no restaurante
e me desafiaram
desafio da cachaça

cerveja e cachaça
um e depois outro
até cair

devo ter ainda
uma cara fofinha

não me conhecem
três caíram
eu ainda escrevo

mal sabem
que a bebida
não me derruba

eu já caí
faz muito tempo

e o que faço agora
entre a cachaça 
e a cerveja
é rir deles

que ainda tentam
ficar de pé

acreditam em algo
ainda

coitados 




Walter Biancardine




Om


Os Vedas e Tomás de Aquino
alugaram minha cabeça
desde bem menino

e a filosofia
só agora vi
é prima-irmã da poesia



Walter Biancardine



sábado, 4 de julho de 2026

PESADO DEMAIS


quando levantar pro café
é um esforço brutal
ir ao banheiro é viagem
vestir uma roupa
impensável

mas o café vence
acendo um cigarro
e penso comigo
quem diz “gratiluz”
é um merda 

não “dou o meu melhor”
não funciono por frases
de redes sociais dementes

estou ocupado demais
com o esforço de respirar
manter os olhos abertos
interagir
fingir de vivo
sorrir
dar bom dia

ninguém imagina
a carga que isso é
a dor física
desse buraco em mim

chegar até a porta
é ganhar a batalha
abri-la
é ganhar a guerra

muitos dias são assim
nos outros eu saio
e bebo




Walter Biancardine





PRAZER EM CONHECER -

 


Digo “bom dia”
sem nenhuma vontade,
peço “com licença”
mas passaria por cima.

Perguntam como vamos.
Mentimos “tudo bem”.
Oferecem um café.
Mentimos “não precisa”.

Perguntam se estamos ocupados.
Seja sim ou não.
Mentimos.

O trânsito estava horrível.
Trouxe o atestado.
Tive um compromisso.
Não pude vir.

Tanta mentira traz desconfianças
dizemos “eu te amo” e ela 
responde “eu também”.
 
Jovens, mentimos doença.
Velhos, mentimos saúde.
Mentimos a merda da vida toda.




Walter Biancardine




VOU BEM, OBRIGADO

 


SEGUNDO TEMPO

 


Olhar o pôr do sol e o céu, variando entre o amarelo de raiva e o vermelho incandescente, me traz à lembrança meu pai. 
Nos últimos raios de sol embarcávamos no carro, férias e fins de semana na casa de praia. 
Vejo um sol morrendo, lembro felicidades mortas.

No lusco-fusco da tardinha, no nublado antes da noite onde nada mais tem cor e as sombras desaparecem, lembro de minha mãe. 
Era a hora do café, pontualmente às cinco da tarde.
Era hora de ir à padaria.
Pão e cigarro.
Até hoje farejar café no fim da tarde lembra minha mãe.
O café acabou.
Ela se foi.

Em algum instante deixei de esperar. 
Comecei a recordar.
Sem reparar.

Quando foi meu zênite?
Quando a ampulheta virou?

Não sei.
Mas ela virou.

Quem pensa que isso é natural, coisas da vida, é um bruto ou uma besta. Ou os dois.

Não é preciso ser jovem para morrer no zênite. Já conheci velhos assim. Parecem outra raça, outra cabeça, olhos que enxergam a vida como ciência exata, não humana.

Me lembrei da juventude. Diziam: “faça um vestibular para qualquer coisa da área de humanas, é mais fácil!”

Mais fácil é o cu deles.

Nunca sentiram a ampulheta virar.




Walter Biancardine



ANTES ELES DO QUE EU


não menosprezo a dor de ninguém
algumas nunca conseguiremos
dizer ou mesmo chorar
bem sei disso
agora

mas pular da ponte é ceder
dar aos outros o gosto
de nossa desistência
não me conhecem
ainda

pilotei aviões e motocicletas
seria bem fácil pra mim
mas esse prazer não dou
que me engulam
ainda

prefiro sorrir de prazer
vendo cada um deles
dos filhos da puta
me verem vivo
ainda

que morram primeiro
só então posso ir
rindo por último
e melhor
agora



Walter Biancardine