preciso arrumar um emprego.
preciso vender as melhores horas do meu dia pra comprar o direito de sobreviver às piores.
assim, o despertador vai tocar pra eu ir trabalhar.
a alma então pede demissão.
o corpo, covarde, levanta.
e chego no escritório me dando conta que lá é um lugar onde adultos fingem que obedecer ordens os torna importantes.
a solução é ir beber depois do trabalho.
a garrafa nunca perguntou se eu estava bem. talvez por isso nossa relação tenha durado tanto.
e volto pra casa.
em casa, a solidão me recebe. ela é uma péssima companhia, mas pelo menos não pede explicações.
e escrevo.
é uma maneira de continuar discutindo com pessoas que já foram embora.
por fim, descubro que o texto está perfeito e o publico.
nele não há nada que eu tivesse coragem de dizer pessoalmente.
Walter Biancardine
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