Começo a me sentir melhor.
As drogas já estão me abandonando, e não posso evitar de pensar que até minha depressão é misógina: a química me deixava um zumbi, nada de mal sentia - nem nada de bom.
Aliás, nem nada de nada. E zumbis não costumam escrever.
A anestesia está acabando. Olho o Substack e parece que reencontro um amigo. Não um velho amigo, mas um amigo novo; eu ainda o acho meio chato, não engulo muitas de suas “vibes”, e por vezes o acho uma mistura de Enzo com atores do teatrinho da escola - todos no papel de escritores malditos. E eu já os havia batizado de “Rimbaud do condomínio”. Um caso típico de “o cara é chato mas é legal”.
Já o Facebook mais parece um culto do suicida Jim Jones: o mesmo e eterno fanatismo - pouco importa se pela direita ou esquerda - e a sede insaciável de sangue mirando todos os que não compartilham de suas adorações. Afinal, são os únicos adereços que ainda encontram pra postar e mostrar como são inteligentes e resolvidos.
E então me dei conta de que mesmo eu, tão prevenido, cético e cínico, não escapei de dar às redes sociais uma importância que elas nunca tiveram: a responsabilidade de formar uma pessoa, uma opinião, e moldar meu dia.
Pensando assim, fui tomar um café me achando um gênio; me imaginei mesmo um ser superior até que me dei conta que sou completamente dependente delas: aqui posto o que escrevo, aqui tento ser conhecido e aqui oro pelo milagre que algum extraterrestre compre meus livros.
E voltei a me achar uma besta.
Santa montanha-russa que, em boa hora, me mostrou que nessa bipolaridade de sensações, aos poucos me vejo voltando ao normal.
Ao velho, intragável e insuportável normal.
Talvez, um dia, eu me torne uma lenda.
Póstuma, é claro.
Walter Biancardine

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