quinta-feira, 15 de outubro de 2026

À MARGEM DA SOCIEDADE


meio-fio é boletim de ocorrência
ou diário da desgraça de todos
papel de salgados comidos na fuga
embalagens de doces mais doces 
que a vida de alguém

a raiva de meio cigarro fumado
folhas secas da árvore solitária
um bilhete de loteria amassado
e a dor de um anel jogado fora
tudo eram sonhos

acostamento de estrada é igual
piorado pela tensão ou vergonha
lá fica tudo aquilo que nunca
levaríamos pra mostrar em casa
cemitério de segredos

e nos becos e ruas sem saída
a cidade também esconde vexames
meios-fios, acostamentos, becos
lá ficam planos, vícios, amores
e lixo

cada vida é uma casa
que guarda tudo de bom e ruim
e quando recebemos visitas
varremos a sujeira pra baixo
do tapete

nunca saí bem nas fotos dos outros
não por crimes mas pelo pecado
de nunca ter sido bom e igual
nas margens de rio, margem de erro, 
margem da vida

sempre estive à margem
é o melhor que aconteceu
talvez

em minha vida




Walter Biancardine





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