meio-fio é boletim de ocorrência
ou diário da desgraça de todos
papel de salgados comidos na fuga
embalagens de doces mais doces
que a vida de alguém
a raiva de meio cigarro fumado
folhas secas da árvore solitária
um bilhete de loteria amassado
e a dor de um anel jogado fora
tudo eram sonhos
acostamento de estrada é igual
piorado pela tensão ou vergonha
lá fica tudo aquilo que nunca
levaríamos pra mostrar em casa
cemitério de segredos
e nos becos e ruas sem saída
a cidade também esconde vexames
meios-fios, acostamentos, becos
lá ficam planos, vícios, amores
e lixo
cada vida é uma casa
que guarda tudo de bom e ruim
e quando recebemos visitas
varremos a sujeira pra baixo
do tapete
nunca saí bem nas fotos dos outros
não por crimes mas pelo pecado
de nunca ter sido bom e igual
nas margens de rio, margem de erro,
margem da vida
sempre estive à margem
é o melhor que aconteceu
talvez
em minha vida
Walter Biancardine

Nenhum comentário:
Postar um comentário