domingo, 9 de fevereiro de 2025

A ABOLIÇÃO DA BELEZA: UM ENSAIO FILOSÓFICO SOBRE A DEGRADAÇÃO ESTÉTICA NA CULTURA CONTEMPORÂNEA -

 


A beleza, historicamente considerada um reflexo da ordem e harmonia de Deus, tem sido sistematicamente demolida pela cultura contemporânea. Desde a arquitetura brutalista e desconstrutivista até o design de automóveis e vestuário, que degradam a elegância, observamos uma tendência à feiura, ao grotesco e ao niilismo estético. Este fenômeno não ocorre ao acaso, mas é fruto de uma revolução ideológica, comuno-globalista, que busca destruir os padrões tradicionais de beleza e substituí-los pelo ideológico, efêmero, pelo vulgar e pelo caótico – sentimentos e sensações que pretendem difundir no cotidiano das pessoas.

Tendo tais aspectos em mente me propus investigar as causas profundas desse processo, cabendo lembrar que a destruição da beleza não é um fenômeno isolado, mas parte de um projeto ideológico que visa desconstruir a civilização ocidental – Escola de Frankfurt – a partir de suas bases simbólicas.

* A beleza como fundamento da civilização -

Historicamente, a beleza sempre foi vista como uma ponte entre o homem e o sagrado. Platão a entendia como reflexo do mundo das ideias, enquanto Aristóteles a vinculava à harmonia e proporção. Santo Tomás de Aquino a associava ao bem e à verdade, enfatizando sua dimensão transcendente. Edmund Burke diferenciou a beleza do sublime, e Kant defendeu a experiência estética como uma forma de conhecimento desinteressado.

Com o advento da modernidade – iluminismo – no entanto, essa perspectiva foi progressivamente abandonada. Nietzsche denunciou a morte dos valores tradicionais, enquanto Adorno e a Escola de Frankfurt prepararam o terreno para a desconstrução da arte clássica e da cultura elevada. Scruton argumenta que a perda da beleza na arte reflete uma crise moral e espiritual profunda, resultado do relativismo e do niilismo contemporâneos, provocados por intelectuais ditos “progressistas”.

* A arquitetura como expressão do declínio -

A arquitetura moderna, com sua rejeição à ornamentação e sua obsessão pela funcionalidade, reflete a corrosão dos princípios tradicionais da beleza. O brutalismo, com seu concreto exposto e linhas agressivas, contrasta com a harmonia das catedrais góticas ou a proporção áurea das construções clássicas.

Oscar Niemeyer, um arquiteto declaradamente comunista, criou monumentos que sacrificam a humanização do espaço em prol de abstrações formalistas. A cidade de Brasília, embora inovadora, tornou-se um exemplo de alienação urbana, onde o indivíduo se sente pequeno diante de edifícios impessoais – verdadeira ode à força do Estado-pai, sempre maior e mais poderoso que o indivíduo, sensação esta reforçada pelas enormidades de concreto armado e os vastos espaços vazios, onde jamais conseguiriam acumular multidões em protestos – as mesmas sempre pareceriam pequenas.

Além de Niemeyer, outros arquitetos tornaram-se símbolos do declínio estético. Le Corbusier, um dos precursores do modernismo, defendia cidades organizadas com edifícios uniformes e desumanizados, resultando em projetos como a Unité d'Habitation, que mais se assemelham a blocos monolíticos sem alma. Frank Gehry, expoente do desconstrutivismo, projeta edifícios deliberadamente caóticos e assimétricos, como o Museu Guggenheim de Bilbao, cuja aparência disforme rompe qualquer ligação com a ordem e proporção clássicas.

Filósofos esquerdistas e críticos da beleza tradicional, como Theodor Adorno e Walter Benjamin, ajudaram a legitimar essa transformação. Adorno, ao criticar a arte burguesa, via na rejeição da beleza um meio de contestação política, enquanto Benjamin, ao defender a estetização da política, abriu espaço para que a arte fosse instrumentalizada ideologicamente – largamente aproveitada por Adolf Hitler e prontamente imitada por todo o bloco soviético. Já Jacques Derrida, com sua filosofia da desconstrução, forneceu as bases teóricas para uma arquitetura que rejeita qualquer sentido de coesão ou continuidade histórica: é o homem solto, perdido em uma selva de concreto.

Roger Scruton denuncia essa tendência como uma forma de "arquitetura do desespero", na qual o feio e o inóspito se tornam normas. A rejeição da tradição arquitetônica ocidental é uma manifestação do desprezo pelo passado e pelo senso de comunidade. Em sua obra "The Aesthetics of Architecture", Scruton argumenta que a arquitetura deveria servir ao bem comum e inspirar as pessoas, ao invés de reduzi-las a meros consumidores de formas arbitrárias e alienantes.

Exemplos grotescos abundam: a Torre Montparnasse em Paris, um arranha-céu brutalista que destrói a harmonia da cidade; o Ryugyong Hotel na Coreia do Norte, um monólito piramidal inacabado e desprovido de qualquer charme; e até mesmo o prédio do Ministério da Saúde em Londres, que parece ter sido projetado para intimidar, em vez de acolher. Todas essas construções exemplificam a tendência de substituir a beleza pelo impacto visual agressivo, refletindo uma sociedade que perdeu seu senso de proporção e transcendência, subordinados a ideologias.

* Design de produtos, vestuário e a infantilização do estilo -

Os automóveis contemporâneos perderam a elegância e a sobriedade que caracterizavam modelos clássicos como o Rolls-Royce Silver Cloud, os antigos Cadillacs _ agora reduzidos a meros SUV’s – ou o Jaguar E-Type. Em seu lugar, surgiram veículos emasculados, assépticos e completamente alheios ao condutor, posto que completamente automatizados e eletrificados. Suas linhas infantis e caricaturais, formas desproporcionais e cores monótonas – os eternos preto, prata e branco, os fazem parecer brinquedos “Lego” gigantes e hoje, pilotar um automóvel não mais denota “masculinidade” – conceito abolido pelos globalistas.

Como destacou Baudrillard, o consumo passou a ser dominado por símbolos e simulacros, onde a superficialidade e semelhanças com a ficção ideológica imposta se sobrepõe à essência, beleza e harmonia transmitida pelo símbolo – a figura, em si, do automóvel. Os anúncios dos mesmos mais parecem vender telefones celulares, tablets ou computadores, pois enfocam somente as facilidades digitais embarcadas, esquecendo por completo do básico automotivo: potência, consumo, capacidade de carga, conforto e facilidade de manutenção.

A moda segue a mesma lógica: a sobriedade e a distinção cederam lugar ao grotesco e ao vulgar. A moda "streetwear", dominada por roupas largas, rasgadas e desproporcionais, reflete uma cultura que celebra a rebeldia vazia (contra o quê?) e a marginalidade. Essa estetização da vestimenta não ocorre ao acaso: é uma valorização ideológica do lumpemproletariado, como descrito por Marx e Engels, mas reinterpretada pelas correntes identitárias contemporâneas: quanto mais chocante, agressivo e feio, melhor – “não imponha seus padrões sobre mim”, dizem os adeptos do disforme.

Mais que isso, tal estética condena o homem atual, desde sua infância, à eterna adolescência. Um garoto de quinze anos veste-se exatamente igual a um senhor de cinquenta, e isso nivela e rebaixa quaisquer espécies de aspirações. Do mesmo jeito que um jovem enxerga a idade adulta apenas como um problema – fim de sua inimputabilidade legal – ele, igualmente, rejeita a maturidade como um passaporte para realizações, pois já as desfruta desde sempre, favorecido por pais permissivos e medrosos.

Já os maduros apegam-se às aparências de juventude, inerentes às vestimentas e mesmo gírias e hábitos. Com a mais primária vaidade masculina afagada, esticam a adolescência até o ponto em que o uso de bengalas seja inevitável, resultando que tal imposição cultural não apenas criou o conceito de “adolescência” como, igualmente a ampliou, abrangendo hoje dos dez aos sessenta anos de idade.

* A estética do vulgar e o controle cultural pela mídia -

A televisão, o cinema e a publicidade têm promovido uma estética deliberadamente vulgar, onde o clima apocalíptico, o grotesco e o chocante substituem a beleza clássica. Esse fenômeno não se limita à arte visual, mas também se reflete na música, na literatura e até mesmo no jornalismo, onde o sensacionalismo, a superficialidade e as doutrinações ideológicas dominam o espaço, antes ocupado por formas mais refinadas e elevadas – decentes e dignas – de expressão.

A mídia, dominada por uma agenda ideológica, utiliza a estética vulgar como ferramenta de controle cultural, promovendo comportamentos anti-sociais e desconstruindo referências tradicionais. Scruton adverte que essa degradação estética resulta da imposição de uma visão materialista e relativista do mundo, na qual a transcendência e a busca pelo belo são descartadas em favor do hedonismo imediato.

A estética do vulgar é um reflexo de uma estratégia cultural deliberada, impulsionada por forças ideológicas que buscam subverter as referências tradicionais da arte e da civilização. No contexto atual, onde a mídia – especialmente a televisão, o cinema e a publicidade – promove uma estética apocalíptica, grotesca e chocante, há uma substituição explícita da beleza clássica por formas de expressão que apelam ao sensacionalismo e ao imediatismo, rejeitando valores atemporais em favor de uma estética rasa e destrutiva.

Há um impacto corrosivo dessa tendência na experiência humana de significado e transcendência: a beleza não é um mero ornamento, mas sim uma porta para a elevação espiritual e moral do ser humano. O atual apogeu do vulgar e do grotesco na mídia é uma forma de "redução" da arte e da cultura a uma mera manifestação do desejo imediato e da gratificação instantânea. A estética vulgar, ao se contrapor à beleza clássica, rejeita a harmonia, a ordem e a profundidade que tornam a arte um reflexo das dimensões mais elevadas da vida. O clima apocalíptico e o foco no grotesco são indicativos de uma visão materialista e relativista do mundo, que descarta qualquer noção de transcendência e se limita ao que é terrivelmente mundano e efêmero. Essa "degradação estética", conforme Scruton já analisara, contribui diretamente para a perda de um senso de propósito e direção na vida, levando a um vazio cultural que mina as bases de uma sociedade civilizada.

Por outro lado, Olavo de Carvalho ampliaria essa análise ao observar que essa "estética vulgar" não é apenas um produto do mercado ou da cultura de massa, mas uma ferramenta conscientemente manipulada para a formação de uma agenda ideológica. A vulgarização da arte é um mecanismo de controle cultural, projetado para destruir as referências tradicionais e substituir a busca pela verdade, pela ordem e pelo belo por uma ideologia relativista e destrutiva.

A mídia, dominada por uma agenda esquerdista e progressista, utiliza a estética do vulgar para incutir comportamentos anti-sociais e subverter os valores morais e culturais que sustentam a civilização ocidental. O sensacionalismo e a superficialidade não são acidentes, mas partes de um projeto deliberado que visa desestabilizar as fundações da tradição, desvirtuando a cultura para favorecer uma visão ideológica que busca, entre outras coisas, a desintegração da autoridade, da moralidade e da hierarquia.

Tanto Scruton quanto Olavo – ambos são referências para mim – identificam nessa degradação estética uma consequência do materialismo e do relativismo que dominam a visão de mundo contemporânea. Para ambos, a busca pela beleza e pela transcendência não é apenas uma questão de gosto, mas de princípio. A ausência de beleza clássica nos meios de comunicação, ao ser substituída pelo vulgar, enfraquece a capacidade da sociedade de buscar algo maior do que o hedonismo imediato, promovendo uma visão de mundo onde os valores mais elevados – como o amor pela verdade, pela ordem e pela justiça – são relegados ao esquecimento. A arte e a cultura, nesse cenário, deixam de ser formas de expressão do belo e se transformam em instrumentos de manipulação que, em última análise, enfraquecem o espírito humano e a capacidade de resistir às forças que buscam subverter a civilização ocidental.

Essa crítica, tanto de Scruton quanto de Olavo, revela que a estética não é apenas uma questão de arte, mas uma questão profundamente moral e filosófica. Ao resgatar a beleza clássica, rejeitando a vulgaridade e o caos, a sociedade não apenas preserva uma forma de expressão artística, mas também resgata a capacidade de viver de forma mais elevada, buscando o bem, a verdade e a harmonia.

* A filosofia da feiura: ideologias e pseudociência contra a beleza -

Não há como deixar de citar como o marxismo cultural, o pós-modernismo e teorias como o construtivismo social influenciaram a destruição da estética. A noção de que a beleza é um conceito burguês e opressor tem sido usada para justificar a substituição do belo pelo disforme e caótico.

A filosofia da feiura revela-se como uma consequência direta de movimentos ideológicos que, ao longo das últimas décadas, tomaram de assalto a esfera cultural e intelectual. O marxismo cultural, o pós-modernismo e teorias como o construtivismo social, ao invés de celebraram a beleza como uma expressão autêntica da realidade, têm procurado subverter seus princípios em nome de uma agenda política disfarçada de liberdade estética.

Para o marxismo cultural (vide Pe. Paulo Ricardo, canal no YouTube), a beleza, uma vez considerada uma manifestação sublime da arte e da natureza, foi rebaixada a um conceito burguês, elitista, e portanto, "opressor"; uma construção ideológica que deveria ser desmantelada para dar espaço a uma nova concepção de arte e estética, mais alinhada com a "luta de classes".

Esta subversão é uma tentativa deliberada de desintegração do gosto estético clássico, que é um reflexo da busca humana por ordem, harmonia e transcendência. A beleza não é um luxo, mas uma necessidade para a experiência humana, uma expressão de valores que conectam o indivíduo ao transcendente, à tradição e à comunidade. As forças pós-modernas, ao promoverem o feio, o disforme e o caótico, negam ao ser humano a possibilidade de uma vida rica em significado, transformando a arte em uma ferramenta de subversão ideológica.

É possível ampliar essa crítica – de Scruton – se associarmos tal destruição estética à destruição moral e cultural mais ampla que caracteriza a modernidade. Para Olavo de Carvalho, o abandono do belo não é um simples erro ou uma mudança de gosto, mas uma tentativa consciente de corroer os alicerces da tradição ocidental. A beleza, para ele, é intrínseca ao bem e à verdade; sua destruição é, portanto, uma forma de minar os valores que sustentam a civilização. O ataque à beleza não é apenas estético, mas essencialmente moral e filosófico. Ele vê, no desdém pela beleza tradicional, uma estratégia de desconstrução que visa substituir a ordem natural e humana por um caos ideológico, onde o feio é celebrado e o belo é visto como um símbolo de opressão.

A substituição do belo pelo disforme, proposta por essas ideologias, não é uma mera inversão estética, mas uma reconfiguração do entendimento humano de ordem, beleza e virtude. Nesse contexto, a beleza torna-se não só um reflexo da perfeição, mas uma resistência à tirania do feio, da mediocridade e do caos que essas ideologias procuram instaurar.

O verdadeiro papel da estética, sob a ótica tanto de Scruton quanto de Olavo, é restaurar a dignidade humana, colocando a beleza como um princípio que eleva o espírito e que se opõe ao utilitarismo cultural que desumaniza e submete os indivíduos a uma visão reducionista da existência.

* A redenção da beleza: caminhos para a restauração cultural -

A restauração da beleza exige um resgate dos valores estéticos clássicos e uma rejeição da mediocridade imposta pela cultura dominante. A sociedade precisa revalorizar a arte elevada, a arquitetura harmoniosa e os padrões estéticos que refletem ordem e transcendência.

Se analisarmos o tema sob o pensamento de Roger Scruton e Olavo de Carvalho, o mesmo revela-se como um imperativo cultural e moral de suma importância para a preservação da dignidade humana e da tradição civilizacional. A restauração da beleza, conforme ambos os pensadores propõem, não é um movimento superficial ou nostálgico, mas sim um esforço profundo de recuperação daquilo que é essencial à experiência humana: a busca pela harmonia, pelo sublime e pelo transcendental.

Roger Scruton, em suas investigações sobre estética, argumentaria que a beleza é inseparável da experiência humana de ordem e propósito. Para ele, a arte elevada, a arquitetura harmoniosa e os padrões estéticos que evocam transcendência são manifestações concretas da busca por uma realidade mais profunda, além das limitações do mundo físico. Scruton vê a arte clássica, com sua busca pela perfeição formal e pela harmonia, como um reflexo de valores universais que transcendem o caos e a decadência da modernidade. Ao ressaltar a importância da beleza como um guia para a elevação espiritual, Scruton considera que a restauração desses valores estéticos não é apenas desejável, mas essencial para a preservação da saúde cultural e moral da sociedade.

Olavo de Carvalho, por sua vez, iria além ao abordar a restauração da beleza como parte de um movimento mais amplo de recuperação da tradição e dos valores que fundamentam a civilização ocidental. Para Olavo, o conceito de beleza não se dissocia do bem e da verdade. A arte elevada, longe de ser uma mera expressão de gosto, é uma expressão moral e filosófica que reflete a ordem natural do mundo. Ele vê a mediocridade da cultura dominante como um reflexo de uma crise profunda, não apenas estética, mas também espiritual e filosófica. A cultura contemporânea, ao se afastar dos valores clássicos e da busca pela transcendência, sucumbiu ao relativismo, ao niilismo e à desconstrução do sentido.

A restauração da beleza, para Olavo, não é apenas um retorno ao passado, mas uma necessidade urgente de restaurar a dignidade e a clareza do pensamento, a fim de reestabelecer uma cultura que, de fato, reflita a verdade e o bem.

Em conjunto, tanto Scruton quanto Olavo concordariam que a revalorização da arte elevada, da arquitetura harmoniosa e dos padrões estéticos que transmitem ordem e transcendência é um caminho necessário para a regeneração cultural. A sociedade, ao resgatar esses valores estéticos clássicos, não está apenas preservando a forma, mas restaurando a substância moral e filosófica que fundamenta a vida civilizada.

A beleza, entendida como algo que transcende o meramente utilitário, torna-se, assim, um farol que orienta o homem para uma vida mais plena, mais integrada à sua natureza e à sua herança cultural, e mais distante dos desvarios do caos e da mediocridade que a cultura dominante tenta impor.

Conclusão -

É urgente que as pessoas voltem a exigir a beleza e a harmonia, resistindo à degradação ideológica que reduz a arte a um instrumento de desconstrução. O futuro da civilização, da nossa civilização, depende da restauração de uma estética que celebre a verdade, o bem e o belo.

E se o leitor discorda que a beleza nos conduz a Deus, busque contemplar uma catedral gótica.



Walter Biancardine





NASCER BOM OU ESCOLHER A BONDADE?

 


A bondade é sempre algo desejável por todos, um predicado unanimemente elogiado mas que, muitas vezes, é usado como o paroxismo da falsa modéstia: “tal coisa aconteceu comigo porque sou muito bom, muito inocente e não vi maldade…

Colocando-se à parte todo o cinismo e hipocrisia contidos em tais lamentos, o ponto central resume-se ao mérito. Haverá algum mérito em nascer bom – ser uma pessoa de boa índole, que jamais conseguiria fazer algo mal – ou optar por ser bom, mesmo tendo escolhas outras, aparentemente mais vantajosas?

Com base nestes pensamentos, ofereço pequeno ensaio filosófico sobre o tema:

Sou bom ou estou bom?

A bondade, enquanto predicado humano, não pode ser reduzida e avaliada somente como mera disposição natural ou a uma qualidade inata. Tal redução causará a dissolução do mérito moral, transformando a bondade em um fenômeno automático, sem qualquer esforço volitivo. 

Já dialogando com outras tradições filosóficas, suponho que a bondade só adquire algum e verdadeiro valor moral quando é fruto da escolha consciente, realizada sob circunstâncias onde há alternativas reais e, muitas vezes, mais vantajosas no plano imediato (“Yo soy yo, y mis circunstáncias” – Ortega y Gasset).

A Bondade Inata e o Determinismo Moral -

Platão, em "A República", diferencia aqueles que praticam a justiça por hábito e aqueles que o fazem por decisão racional e consciente. Se a bondade é uma qualidade fixa do caráter, como a cor dos olhos, não há mérito em ser bom, pois não haveria escolha. A bondade inata não é um ato moral, mas uma característica. 

Kant, ao definir o conceito de imperativo categórico, reforça a necessidade da escolha moral consciente: uma ação só tem valor ético quando é realizada por dever e não por mera inclinação natural – e eu acrescentaria “por dever e escolha”. Dessa forma, ser "naturalmente bom" equivale a ser moralmente neutro, pois o verdadeiro valor moral advém do livre-arbítrio.

O Mérito da Escolha Moral -

Aristóteles, em "Ética a Nicômaco", enfatiza que a virtude está no hábito, mas sobretudo na escolha deliberada, tal como afirmei acima. Ele distingue entre atos praticados por mera conformidade e aqueles que nascem de alguma decisão consciente do indivíduo. 

Meu professor Olavo de Carvalho, ao refletir sobre a moralidade na tradição ocidental, argumenta que a virtude só tem real valor quando há “resistência ao erro e superação de tendências negativas”. A bondade que decorre da necessidade, ou da ausência de alternativas, não pode ser considerada virtuosa, pois não exige esforço, consciência ou renúncia.

A escolha moral verdadeira implica discernimento e sacrifício -

O furioso Nietzsche, ao criticar a moral cristã em "Genealogia da Moral", aponta que muitos adotam uma bondade passiva, fruto da fraqueza, e não de uma escolha genuína. Já Santo Tomás de Aquino, ao integrar o pensamento aristotélico à teologia cristã em sua Suma Teológica, sustenta que o mérito da virtude está na livre adesão ao bem, não na simples incapacidade de fazer o mal.

O Livre-Arbítrio como Fundamento da Virtude -

A verdadeira bondade não pode ser confundida com a passividade ou com a ausência de malícia natural. O mérito está na capacidade de escolha, pois apenas diante da possibilidade real do erro é que a decisão pelo bem se torna virtuosa. A consciência, conforme apontado por Santo Agostinho, é o elemento central do ato moral: aquele que, podendo pecar, escolhe o bem, age por mérito próprio e salva sua alma.

Impossível evitar de citar novamente meu professor, Olavo de Carvalho, destacando que a modernidade corrompeu a noção de virtude ao substituí-la por sentimentalismo ou automatismo psicológico. O verdadeiro exercício da bondade exige consciência crítica, esforço e, muitas vezes, um alto preço a pagar. A bondade, quando escolhida deliberadamente contra as facilidades do mundo, torna-se um ato heroico, digno de reconhecimento e mérito.

Conclusão -

A bondade inata pode ser admirável, mas não é meritória. A verdadeira virtude reside na decisão consciente pelo bem, especialmente quando há alternativas mais cômodas ou vantajosas. Esse conceito, sustentado por Aristóteles, Tomás de Aquino e aprofundado pelo professor Olavo de Carvalho, reforça a necessidade do livre-arbítrio na constituição da moralidade.

A bondade não é um destino, mas uma conquista.



Walter Biancardine



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

DESVALORIZAÇÃO ACADÊMICA


As políticas educacionais teratológicas impostas ao ensino brasileiro vem de longa data, ainda dos governos militares e seu conceito positivista de "difundir as escolas de ensino superior" (faculdades em quantidade, não qualidade) e que, pela profusão desordenada, provocou inevitável rebaixamento dos padrões acadêmicos - tanto para o ingresso nas mesmas quanto para a conclusão do bacharelado.

O "emburrecimento" deliberado, imposto pelos governos esquerdistas que sucederam os generais no poder apenas executam, ainda nos dias atuais, o golpe de misericórdia - lento, sádico, embotador e entrevante - na academia e, não à toa, toda e qualquer produção intelectual significativa do país cessou, ainda nos anos 80.

Não há - repito, não há - nenhuma publicação brasileira, sequer citada como referência, nas revistas científicas internacionais, ainda que as mesmas estejam, já, impregnadas de vieses ideológicos. E isto é um péssimo indicativo, que denota o apavorante quadro de símios infantis e tarados, verdadeiros analfabetos funcionais que esforçam-se, nos rudimentos da escrita e das ideias, para expor idiossincrasias, por tais elementos consideradas "teses" - segundo estas mesmas criaturas, "se cumpro as normas ABNT, então está tudo bem".

Sem desmerecer ninguém - pelo contrário - posso citar o trabalho de orientação e acessoria que presto à gentil jovem com quem tenho convivido: a mesma é Doutora, e apenas escapou da mediocridade geral por conta dos mesmos méritos que também possuo, os quais foram a iniciativa de estudar, aprender, pesquisar e compreender em separado, longe de mestres e salas de aula. Ela por instinto de sobrevivência de sua inteligência e eu por total descrédito do meio acadêmico.

Ora, uma Doutora - se viajar para a Europa ou USA, por exemplo - será apresentada como "PhD", ou seja, uma "Philosophy Doctor", o qual, como símbolo do paradoxo verde-amarelo, é muito mais respeitado no Brasil que o título de "Doutor" - ainda que sejam, ambos, exatamente a mesma coisa.

Pois esta estimada "Philosophy Doctor" - uma Doutora em Filosofia da especialidade que escolheu - à parte seu brilhantismo e vasta cultura, adquirida fora do campus, ainda escorrega e desorienta-se ao abordar o sentido filosófico das questões, jamais administrado por aqueles que formaram "Doutores em Filosofia" de alguma cadeira.

Tive o privilégio de ter sido aluno do professor Olavo de Carvalho e, mais que isso, desfrutei da grande oportunidade de testemunhar um filósofo filosofando, ao vivo e defronte a mim. Tais ensinamentos - mais que a memorização de nomes e conceitos - impregnou-me do verdadeiro sentido da filosofia, a qual é quase um "estilo de vida", nas palavras do saudoso Véio da Virgínia. E isso abriu as portas de minha inteligência, me transformando interiormente e estimulando o aprofundamento - cada vez maior, quase um sacerdócio - na busca incessante da verdade filosófica.

Apenas que nada disso acontece hoje, nos meios acadêmicos brasileiros. Resumem-se à mais vil memorização de conceitos, datas, nomes e, quando confrontados ao desenvolvimento de ideias, valem-se da estratégia de "papagaios de pirata", apenas repetindo - e piorando - ideias de um Foucault, Sartre ou mesmo Leandr Karnal e Cortellas da vida. Ideologia e doutrinação puras, as quais substituíram o saber acadêmico.

Para tais mestres, pouco importa o estado deplorável em que seus alunos chegam - semi analfabetos, iletrados, toscos de pensamento e incapazes de ler ou formular textos maiores que um Twitter. Para tais delinquentes, o que interessa é angariar adeptos, hipnotizar (tal qual um José Américo Mota Peçanha e seu Epicurismo) e, ao fim, presenteá-los com um diploma, o qual apenas inflará seus egos e os fará crer serem "superiores" aos demais mortais.

Jamais dei autoridade para que um imbecil destes seja o fiador de minha competência ou saber.

Entretanto, tal como os demais brasileiros submetidos à "jurisfação" da vida, tento à duras penas sublimar as barbaridades ouvidas, lidas e presenciadas na academia: busco, como único motivo, honrar a memória de minha mãe e presenteá-la - ainda que post-morten - com um bendito canudo, o qual algum idiota considerou-me apto.

Apto sim; superior à ele, jamais.


Walter Biancardine 



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

NEM O CHAT GPT ME CONTRATARIA - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU ESPERTEZA NATURAL?


Perguntei à plataforma de Inteligência Artificial "Chat GPT" quais as deficiências que um Departamento de Recursos Humanos encontraria em um profissional com as qualificações abaixo:

QUEM SOU EU - TRABALHO E FORMAÇÃO - MEUS CANAIS:

Jornalista, escrevo desde desde 1979, com passagem por diversos jornais, revistas, rádios e canais de TV, tenho atualmente seis livros escritos e publicados, com outros três em produção;

Aluno do Seminário de Filosofia de Olavo de Carvalho (COF);

Licenciatura em Filosofia, Universidade Estácio de Sá, RJ;

Direito na Faculdade Cândido Mendes - Centro, RJ;

Arquitetura e Direito nas Faculdades Integradas Bennett, RJ;

Corpo Diplomático, OEA - Organização dos Estados Americanos, CICOM - Centro Interamericano de Comercialização, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e Consulado Geral da Argentina;

Assessoria de Imprensa, Secretaria de Comunicação Prefeitura Municipal de Cabo Frio;

Editor Revista da Cultura, Secretaria de Cultura de Cabo Frio;

Colunista/editorialista Lagos Jornal, Diário Cabofriense;

Jornalista TV Lagos, Rádio Ondas FM;

Colunista Carta de Notícias, ContraCultura (Portugal)

Página própria em www.walterbiancardine.blogspot.com;

Editorialista Jornal Opinião;

Ex-piloto aviação executiva, RJ, MS, PR

Ex-piloto testes aviação, RJ;

Formação em programação de computadores grande porte (Burroughs);

LIVROS PUBLICADOS:

* Pretérito Perfeito (romance);

* Gislaine dos Três Verões (contos);

* Mais Olavo, Menos Oliva (análise política);

* Os Macaquinhos Brasileiros Vol. 01 (análise política, ensaio filosófico, sociologia, teologia);

* Os Macaquinhos Brasileiros Vol. 02 (análise política, ensaio filosófico, sociologia, teologia);

* Os Macaquinhos Brasileiros Vol. 03 (análise política, ensaio filosófico, sociologia, teologia);

LIVROS EM PRODUÇÃO:

* Estilo e Ideologia (análise política, ideologias, arquitetura e design);

* Solidão e Transcendência (filosofia, auto-análise, teologia, comportamento);

* Livre Arbítrio e Determinismo Behaviorista (filosofia, auto-análise, teologia);

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A resposta da Inteligência Artificial:

"Com base no seu perfil, um departamento de Recursos Humanos poderia identificar as seguintes possíveis deficiências, dependendo da vaga e da empresa:

Falta de especialização técnica para cargos específicos – Sua formação e experiência são amplas e diversificadas, mas, para funções que exigem expertise técnica específica e certificações atualizadas, pode haver um descompasso.

Ausência de experiência corporativa tradicional – Grande parte da sua experiência é em jornalismo, filosofia e análises políticas, o que pode não ser visto como alinhado a ambientes corporativos formais ou setores que valorizam uma trajetória empresarial convencional.

Perfil independente e não convencional – Você tem um histórico de colunismo, publicações autorais e atuação independente, o que pode levar empresas a considerarem que você pode não se adaptar a uma estrutura hierárquica rígida ou a um ambiente com burocracias internas.

Ausência de foco em uma única área – Seu perfil mostra uma trajetória multifacetada (jornalismo, filosofia, direito, arquitetura, aviação, tecnologia). Algumas empresas podem interpretar isso como falta de especialização aprofundada em um único campo.

Possível resistência a culturas empresariais progressistas – Seu viés político e filosófico pode ser um diferencial em ambientes que compartilham desses valores, mas pode gerar resistência em organizações com culturas corporativas mais alinhadas ao politicamente correto ou a pautas progressistas.

Experiência acadêmica fragmentada – Você tem formação em várias áreas, mas não há menção a especializações, pós-graduações ou certificações recentes. Para cargos acadêmicos ou técnicos, isso pode ser visto como uma lacuna.

Uso de canais próprios como principal meio de comunicação – O fato de você priorizar sua própria plataforma pode fazer com que empresas questionem seu comprometimento com canais institucionais ou com a imparcialidade jornalística, dependendo da posição.

Entretanto, essas 'deficiências' dependem muito do contexto. Em ambientes que valorizam independência intelectual, pensamento crítico e uma abordagem mais ampla da cultura e da política, seu perfil pode ser um grande trunfo. Se o objetivo for uma posição mais tradicional, pode ser necessário adaptar a forma como suas experiências são apresentadas."


Minha conclusão:

Impossível ser "inteligência artificial"; essa coisa é um recrutador daqueles sádicos, bem cruéis, escondido atrás do computador para me dar a resposta que qualquer RH daria (caso se dignassem a responder) para mim.

De qualquer modo, tenho de olhar pelo lado positivo: existem milhares de aprendizados nas derrrotas, mas só um na vitória. Tal bordoada em meu ego serve tanto para explicar minha incapacidade de conseguir um trabalho, digamos, "tradicional" quanto, igualmente, a invariável erisipela que provoco no sexo oposto, unânime na repulsa para comigo. Em outras palavras, matei dois coelhos com uma só decepção: agora sei de minha inadequação ao mundo empresarial bem como - triste isso, viu? - a mesma falta de serventia para com as mocinhas casadoiras.

Resta-me aceitar o vaticínio de Olavo de Carvalho, que preconiza ser a vida intelectual quase um sacerdócio - morrer para o mundo - e aproveitar a falta de um relógio de ponto para bater dedicando-me aos estudos, cada vez mais profundos, mais transcendentes, mais abstratos...

Um dia serei um matemático, já que tal cadeira é o ápice da abstração lógica humana.

Hoje não estou bem, amanhã acordarei melhor.


Walter Biancardine


PS: ajudem esse pobre rejeitado, comprando meu livro "Os Macaquinhos Brasileiros".

https://a.co/d/8xopZ9e








OS MACAQUINHOS BRASILEIROS


SAINDO DO FORNO MEUS ÚLTIMOS LIVROS! OS MACAQUINHOS BRASILEIROS VOL. 01 -

Neste primeiro livro estão os artigos que publiquei na revista Carta de Notícias, no Jornal Opinião, no site português ContraCultura e em minha própria página na internet, divididos em 3 volumes. 

A tônica presente na absoluta maioria dos escritos é o despotismo censório da atual ditadura brasileira - daí as capas, cada uma exibindo os conhecidos macaquinhos mimetizando "não falo, não vejo, não ouço". 

Obviamente mostro também, sem nenhuma vergonha, a desaprovação que julgo merecer o comportamento de boa parte dos brasileiros, sempre omissos e mais preocupados com seus prazeres que com os destinos do país.

Acesse o link e conheça!

https://clubedeautores.com.br/livro/os-macaquinhos-brasileiros

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

OPINIÃO DE GREGO

 


Li na página do Facebook “Presente de Grego”, que trata principalmente de assuntos filosóficos e históricos, o texto sobre os malefícios da Inquisição espanhola sobre o desenvolvimento daquele país e da Europa, o qual reproduzo abaixo já com minhas contestações:

PdG –E se a Inquisição Espanhola nunca tivesse ocorrido? Sem a Inquisição Espanhola, a Espanha poderia ter preservado seu patrimônio multicultural, promovendo uma sociedade mais diversa e tolerante. Isso poderia ter levado a Espanha a se tornar um centro de progresso intelectual e científico, semelhante ao Renascimento na Itália”.

WB – É sabido que a Espanha (e Portugal também) sempre esteve sob ameaça direta dos muçulmanos, os quais são conhecidos por sua nenhuma tolerância aos “infiéis”. Sem a Inquisição – que jamais se deu nos níveis bárbaros mostrados nos filmes – todo o território seria, hoje, um califado. Clamar por “uma sociedade diversa e tolerante” aos muçulmanos mais se assemelha a galhofa, já que os mesmos são notórios por seu radicalismo e fanatismo religioso. Igualmente as alegações de “progresso intelectual e científico” apontadas jamais foram notáveis, em tais povos, naquelas épocas. Sempre bom lembrar que foi a Inquisição que instituiu o “direito ao contraditório” nos tribunais, o direito ao advogado de defesa e, para completar, o cristianismo extinguiu a escravidão – prática ressuscitada pelos muçulmanos, depois.

PdG –A ausência de perseguição religiosa poderia ter permitido que estudiosos judeus e muçulmanos prosperassem, potencialmente acelerando avanços em áreas como matemática, astronomia e medicina. Esse crescimento intelectual poderia ter posicionado a Espanha como uma força dominante durante a Era das Explorações, influenciando os esforços de colonização nas Américas”.

WB – O autor fala de muçulmanos e judeus como fossem expoentes em tais ciências, na época. Pois bem, mesmo sem ambos os povos, seria cabível discutir o domínio da navegação marítima pelos espanhóis? Mais: a alegada “influência nos esforços de colonização nas Américas” teria, como resultado, apenas a impregnação do novo continente pelos muçulmanos e sua sede de domínio e conquista.

PdG – No âmbito político, a monarquia espanhola poderia ter desenvolvido métodos alternativos para consolidar o poder, possivelmente levando a um sistema de governo mais descentralizado e participativo. Tais mudanças poderiam ter fomentado uma Espanha estável e próspera, com laços mais fortes com os vizinhos europeus”.

WB – Novamente o argumento beira a piada. Governo descentralizado e participativo? Ao fim da Idade Média? Promovido por muçulmanos? E que diabos de “laços fortes com vizinhos” o autor alega, em dias de invasões, guerras e conquistas quase diárias? Estamos falando de século XV ou dos dias atuais?

PdG –Economicamente, uma sociedade mais inclusiva poderia ter incentivado o comércio e o intercâmbio cultural, reduzindo tensões sociais e levando a uma distribuição de riqueza mais equitativa. Internacionalmente, a Espanha poderia ter sido vista como um farol de tolerância, potencialmente alterando alianças e o equilíbrio de poder na Europa”.

WB – O “intercâmbio cultural” seria a implantação do islã, pura e simplesmente. Já a distribuição de riqueza se daria, por óbvio, dos bolsos espanhóis para os camelos muçulmanos. “Farol de tolerância”? “Equilíbrio de poder”? Pois este é o ponto onde se pode concluir, com clareza, que o autor analisa uma conjuntura com base em ideologias e pensamentos progressistas atuais, desconsiderando o Zeitgeist (o espírito, as necessidades, o clima intelectual e cultural de uma época) e arruinando por completo os esforços da página em fornecer conhecimento à luz da realidade – a realidade da época, sem a qual tudo se assemelha a colocar cadeados em portas já arrombadas.

Deixo o leitor com o último suspiro sonhador do autor, verdadeira Poliana histórica, que se recusou a fazer suas análises sob o mais primário preceito de enxergá-la sob o prisma dos tempos e eras estudados:

PdG –No geral, a ausência da Inquisição Espanhola poderia ter resultado em uma sociedade mais vibrante e intelectualmente curiosa, com impactos significativos na cultura, política e sociedade europeias”.

A página "Presente de Grego" é uma boa página, que fornece diversas informações úteis e interessantes para quem deseja se aprofundar um pouco nos temas abordados, valendo a pena segui-la. Entretanto, tais deslizes - eventuais - sempre nos fazem ter a certeza de que, realmente, a única função do jovem é envelhecer.

Estudar, envelhecer e poupar-nos deste tipo de, digamos, inocência.


Walter Biancardine





segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

SOLIDÃO E TRANSCENDÊNCIA -


Eis um breve ensaio filosófico que explora a relação entre solidão compulsória e a transcendência, dentro de uma perspectiva católica. Tal ensaio é uma das bases do livro que estou escrevendo, cujo nome é o título deste, e que dará ao amigo leitor um breve panorama da obra.

Solidão e Transcendência: A Via da Introspecção na Perspectiva Católica -

A solidão, quando compulsória e de longa duração, é frequentemente considerada uma forma de sofrimento humano. O homem é um ser social por natureza, e a privação forçada da interação com seus semelhantes pode parecer uma condenação.

No entanto, dentro de uma perspectiva católica, tal solidão involuntária pode ser reinterpretada como um caminho para a transcendência, conduzindo a uma relação mais profunda com Deus e o conhecimento de si mesmo.

A tradição cristã ensina que o isolamento pode ser um espaço privilegiado para o encontro com o sagrado. Não à toa, no Antigo Testamento figuras como Moisés e Elias encontraram Deus na solidão do deserto. No Novo Testamento, o próprio Cristo retirava-se frequentemente para lugares ermos a fim de orar. Os santos e místicos da história cristã, como Santo Antão do Deserto e Santa Teresa de Ávila, demonstram que a introspecção gerada pela solidão pode conduzir ao crescimento espiritual e à experiência do divino.

A solidão prolongada, mesmo quando não desejada, leva o indivíduo a um estado de autoexame profundo. Livre das distrações do mundo, a alma humana se confronta com sua própria finitude, seus pecados e seus anseios mais autênticos. Este processo de purificação interior sempre é extremamente doloroso, mas é também uma via de acesso à verdade transcendental. Santo Agostinho, em suas "Confissões", descreve esse processo ao reconhecer que Deus está mais próximo do homem do que este último está de si mesmo.

No catolicismo, a solidão também pode ser - em última análise - uma participação no sofrimento redentor de Cristo. A Paixão foi um momento de abandono total, em que o Salvador experimentou a suprema solidão na Cruz. No entanto, essa experiência não foi vazia, mas sim um sacrifício que abriu as portas da salvação. O indivíduo que sofre a solidão prolongada pode enxergá-la como uma forma de união com Cristo, transformando seu sofrimento em um caminho de graça.

A transcendência através da solidão, própria da Verdade Revelada, não é apenas um escape metafísico, mas um chamado à conversão e ao encontro com Deus. O sofrimento da solidão pode ser um instrumento de santificação, levando à compreensão de que a verdadeira companhia e plenitude não estão no mundo sensível, mas na comunhão com o Criador. Assim, o homem solitário não está, de fato, só: é na ausência dos outros que ele pode encontrar a real presença de Deus e sentir-se pleno e conhecedor de si.

Ademais, em um acréscimo mais pessoal, a solidão compulsória pode ser utilizada como um meio para o aprofundamento na "Suma Teológica" de Santo Tomás de Aquino, nas "Confissões" de Santo Agostinho e no estudo profundo da filosofia tradicional - socrática, aristotélica, platônica. A imersão nesses pilares do pensamento cristão e filosófico pode reformular um ser humano, conduzindo-o a uma compreensão mais elevada da existência, da moralidade e da própria condição espiritual.

A solidão, longe de ser um castigo estéril, pode ser transformada em uma jornada de iluminação e renovação interior, sem que tal caminhada nos precipite aos pensamentos de Nietszche - que igualmente prezava a solidão, mas sob uma perspectiva (ou esperança) completamente diversa.

Eis porquê filosofamos por nossa própria salvação.


Walter Biancardine



domingo, 2 de fevereiro de 2025

PARA QUÊ FRONTEIRAS, DIANTE DA IMIGRAÇÃO DEMAGÓGICA?

 


As fronteiras são, antes de tudo, um fenômeno histórico. Desde os primórdios da civilização, os povos sentiram a necessidade de delimitar territórios para garantir sua soberania, preservar sua cultura e assegurar um desenvolvimento ordenado. O conceito de nação, alicerçado na identidade coletiva, nos costumes e na continuidade histórica, sempre dependeu da existência de limites bem defendidos, físicos e simbólicos.

Tais limites não são apenas linhas arbitrárias desenhadas em mapas. Elas representam a segurança dos povos nativos, protegendo-os de ameaças externas, garantindo alguma estabilidade econômica e social, além de permitir a auto-organização interna da sociedade. Sem essas barreiras, qualquer comunidade torna-se vulnerável a invasões, conflitos, influências culturais nocivas e, como vemos na contemporaneidade, a uma imigração desordenada e imposta por elites globalistas que desprezam as bases culturais e históricas das nações, em nome de seu interesse na “governança global”.

Assistimos, passivos, a uma imposição puramente ideológica travestida de "ajuda humanitária". A imigração forçada, patrocinada por organismos supranacionais e ONG’s, ignora a lógica do acolhimento racional e do aproveitamento de mão de obra qualificada. Pelo contrário, os países são compelidos a absorver grandes contingentes de imigrantes sem formação profissional, frequentemente oriundos de regiões instáveis e que, ao invés de contribuírem economicamente, tornam-se dependentes de sistemas de assistência estatal já sobrecarregados.

As consequências dessa política são catastróficas. No âmbito social, gera-se um impacto direto na coesão nacional, pois a inserção artificial e forçada de populações culturalmente diversas tende a desestabilizar e ameaçar os valores, tradições e costumes locais, inclusive no que tange ao aspecto religioso, se levarmos em consideração o radicalismo islâmico.

Sob o prisma racial, observa-se um aumento da tensão entre grupos nativos e estrangeiros, alimentando o ressentimento, promovendo conflitos, segregação e crimes, em vez de uma integração harmoniosa.

Igualmente, a imposição do multiculturalismo indiscriminado leva à erosão dos valores nacionais. Em nome de uma suposta "tolerância", populações anfitriãs são forçadas a aceitar costumes que muitas vezes colidem com suas próprias tradições, criando um tremendo choque civilizacional e promovendo uma fragmentação identitária, ainda que aceita de forma passiva, dada a doutrinação imposta pela grande mídia. Ao mesmo tempo, a globalização demagógica desvaloriza a meritocracia e o esforço individual ao priorizar a vitimização de grupos específicos como justificativa para sua inserção forçada em sociedades que não foram consultadas nesse processo.

No campo econômico e financeiro, os efeitos são ainda mais alarmantes. O impacto sobre os cofres públicos é imediato: um aumento exponencial dos custos com assistência social, saúde pública e segurança.

Em muitos casos, os imigrantes ilegais ou de baixa qualificação são mantidos por auxílios governamentais, pagos pelos contribuintes locais, o que onera a economia e compromete investimentos essenciais para o crescimento sustentável. Além disso, a pressão sobre o mercado de trabalho leva à desvalorização salarial e à precarização das condições laborais para os próprios cidadãos nativos, acentuando desigualdades e agravando a insatisfação popular.

Fronteiras existem por um motivo: para preservar a soberania, a identidade e a segurança das nações. A destruição delas, sob a desculpa da "ajuda humanitária", é um projeto ideológico que ignora as consequências reais de uma imigração descontrolada – pior: provocada deliberadamente, pela exclusiva ambição de poder global.

Todo país tem o direito e o dever de decidir quem pode entrar em seu território, levando em consideração sua capacidade econômica e a compatibilidade cultural dos imigrantes.

Rejeitar essa imposição globalista não é xenofobia; é uma questão de sobrevivência nacional e respeito à história e tradição dos povos.



Walter Biancardine



quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

NÃO OUVIMOS, MAS SABEMOS QUE CHAMOU -

 


Começo este artigo com um relato de uma jovem – uma garota – que mal descobriu-se suave borboleta, após longos anos sentindo-se lagarta. As belas asas, que sempre nos chamam atenção por motivos errados, fizeram com que a mesma alçasse mistico voo em direção a Deus, chamada por Santa Therezinha de Lisieux – sim, a mesma de minha devoção e, pela semelhança de experiências e com a devida autorização, narro aqui sua experiência.

Minha história de conversão ao Catolicismo: um relato.

Nasci em uma família protestante, porém meu pai nunca foi muito presente na Igreja. Meus avós eram membros ativos sendo diáconos, e minha mãe tesoureira. Quando criança, sempre comentavam que eu seria pastora, pois amava aprender sobre Cristo.

No entanto, uma curiosidade sempre se houve presente dentro de meu coração. Quando passávamos por uma Igreja Católica, ou uma missa na TV acontecia, uma Sofia pequeninha ia assistir escondida dos pais. A Igreja me atraiu primeiramente pela beleza, ainda na infância.

Durante minha adolescência, por volta dos 12/13 anos, fui diagnosticada com depressão. E perdi o interesse pela Igreja evangélica, meus avós haviam se afastado há um tempo por escândalos que eles haviam presenciado, e minha mãe não ia mais. Nisso, eu fui ficando mais distante…

Em 2020, foi decretada a pandemia e completei 13 anos. Foi um período tenso, estava sem amigas e escola. O medo de que algo acontecesse com meus pais, o isolamento agravou minha depressão, e comecei a me sentir ainda pior comigo mesma.

Quando eu tinha 14 anos, atentei contra minha própria vida pela primeira vez. Não tive uma mudança de chave, e sim um sentimento de culpa. Os médicos da emergência me olhavam com desprezo, como se eu quisesse atenção. Meus pais e avós todos preocupados comigo, e eu me sentia pior.

O sentimento de infelicidade e fracasso me rodeavam, eu me sentia indigna do amor. Como podia uma garota que sempre teve do bom e do melhor desejar a morte? Foi em uma noite, depois de dias mal dormidos que tive um sonho. E ele mudou tudo.

Nele, eu recebia uma rosa de uma mulher que eu ainda não conhecia. Ela me beijava na bochecha, e dizia que Deus me amava. Acordei chorando como nunca, e eu sabia que aquela mulher era uma Santa. Pesquisei na internet, e era mesmo: Santa Teresinha!

Eu não podia acreditar, tentava pensar que era coisa da minha cabeça. Para mim, isso era coisa de filmes ou grande profetas. Acordei minha mãe chorando, e contei tudo à ela. Minha mãe que até então era protestante me disse: ‘Sonhei que você estava curada essa noite.’

Naquele momento tive certeza, Deus estava comigo. Ele nunca me abandonou na verdade, eu que havia o abandonado. E que arrependimento! Minha mãe no começo se incomodou, ela possuía os pensamentos protestantes contra a Igreja, mas hoje em dia isso mudou.

Bom, eu continuei estudando sobre a Igreja, e cada vez mais me via apaixonada por toda a história dela. Nesse tempo, fui na minha primeira Missa. Lembro até hoje o quanto eu chorei sentindo Cristo de novo em mim.

No ano seguinte, eu me mudei para um colégio católico por motivos relacionados a saúde mental. E conheci o Padre que, até hoje, vejo como grande amigo! Ele me ajudou a entender os sacramentos, me indicava livros sobre a fé, e me ensinou a rezar o terço.

E assim, que me converti realmente. Acredito que nossa conversão é diária, e devemos sempre lutar contra nossos vícios. Ainda estou longe de ser a católica que desejo ser, mas hoje me sinto completa.

Muito obrigada por lerem”.



O poder de Deus não toca apenas as almas sensíveis, frágeis e quase etéreas; Ele também se faz sentir diante dos brutos, daqueles que viveram demais e – pelo tanto viver – cometeram toda a sorte de pecados, perdendo a delicadeza e anestesiando-se diante de um mundo que apenas enxerga como um simplório dualismo: guerra ou esbórnia.

A delicada mocinha que escreveu o relato acima chama-se Sofia – “sabedoria” em grego – e batizei-a, para mim mesmo, como “Sofia Hildegard”, aproveitando seu nickname no X-Twitter.

O que dizer de experiências de vida tão precoces e extremas? Como absorver o Divino, a mão estendida por Deus, através de Sta. Therezinha, à ela em seus piores momentos? A verdade é que existem acontecimentos acima dos mais hábeis e talentosos escritores ou mesmo poetas: não há como descrever, traduzir ou – pior – tentar entender Deus pois, se houvesse, o divino se rebaixaria ao meramente humano.

Vejo a doce Sofia Hildegard como um elefante que admira uma rosa. Não há como chegar perto, tentar descobrir – em egoísta impulso – as profundidades de sua alma (sim, eu gostaria de sentir, ver e enlevar-me com tudo o que a inebria, vindo dos céus) sem que a brutalidade das minhas patas a esmague. Resta-me apenas a rendição ao poder, não apenas de Deus mas, igualmente, de Santa Therezinha, que jurou “gastar seu céu” ajudando pobres humanos e fazendo milagres.

E assim foi comigo, um empedernido, cínico e debochado ateu, que arriscava propositalmente a vida em desvairios, apenas para provar-me “autossuficiente”. Gastei décadas de minha vida em sórdidos “bate-bocas” com Deus – apesar de meu propalado ateísmo – provocando-O, testando-O e mesmo abusando de Sua piedade e paciência.

Mas o Pai não faz distinção, e tal como enviou Tereza de Lisieux para a suave borboleta que pretendera perder-se, igualmente recomendou o calcinado bruto que vos escreve aos cuidados da mesma – e ela, com um simples olhar, converteu-me.

Tal prodígio se deu em um dos muitos e abissais vales que atravessava – e foram demasiados – em minha vida, levando-me a buscar abrigo dentro de uma igreja a fim de encontrar, ainda que por um único minuto, paz de espírito.

Sentei-me no banco, fechei os olhos e – como todo descrente – aguardei para ver se “um milagre” aconteceria comigo. Nada. Desalentado e já ruminando alguns argumentos cínicos, resolvi dar uma volta pela nave da igreja, apenas pelo fato de gostar da arquitetura e das obras de arte – à parte todos os meus então infrutíferos estudos na teologia. Pois foi justamente neste perambular – impossível chamar de “acaso” – que me deparei com a imagem de Santa Therezinha de Lisieux, e seus olhos me aprisionaram.

Não entenda o leitor tal frase como uma figura de linguagem, pois foi mais que isso, foi um fato: preso, postado diante da imagem e sem conseguir tirar os (meus) olhos dos olhos dela, confesso ser impossível lembrar o quanto tempo ali fiquei.

E tudo mudou.

Eu, que – por incúria ou desleixo dos pais – jamais fora batizado, assim me fiz aos cinquenta e sete anos, sendo ainda crismado. Um verdadeiro desabamento aconteceu dentro de mim, inclusive intelectualmente, fazendo com que – repentinamente – toda a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino fizesse sentido e, mais, fosse a única proposição plausível.

Para piorar, no dia em que marquei uma audiência com o padre, senti os perfurantes olhos de Santa Therezinha me acompanhando, do momento em que subi as escadas até a hora em que fechei a porta da sala do pároco. O que dizer disso?

Fosse eu o velho encruado de sempre, simplesmente debitaria na conta de alucinação paranoica, agravada por terrível complexo de superioridade – afinal, uma santa olhava para mim.

Mas não sou mais este ser; hoje percebo-me uma outra pessoa, diferente daquela que, um dia, deliberadamente escolheu “saber o gosto que o mal tem” e saiu vivo – mais que vivo, redimido por Santa Therezinha e Deus.

Como não sentir-me perdoado, purificado e próximo da doce Sofia de Hildegard?

Não há como explicar Deus. Resta-nos vivê-lo.



Walter Biancardine



segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

ENSINO SUPERIOR: UMA FARSA


Já nos idos de 1984, ao adentrar a seríssima faculdade Bennett no Rio de Janeiro para cursar Arquitetura e Urbanismo (havia no vestibular a prova de habilidade específica, no caso o desenho, e por isso fiquei em 3º lugar), me deparei com uma cena desanimadora: meus colegas dedicavam-se a disputar "guerras de bolinhas de papel", fazendo com que aquele mundo de "adultos" se desmoronasse diante de meus olhos.

Depois, na igualmente seríssima faculdade Cândido Mendes (a da Rua da Assembléia, não a "boate" de Ipanema), ao cursar Direito, tive os ouvidos entupidos por incessante catilinária marxista de professores de sociologia e demais cadeiras, cujo único objetivo não era ensinar mas, sim, nos convencer. E isso, já nos anos 90, fez com que a ilusão da "formação profissional, técnica", evaporasse em minha cabeça.

Atualmente dedico-me a assessorar a confecção de uma tese de pós-doutorado, na qual igualmente observo que a postulante - a qual, por tentar preservar seu nome no mundo acadêmico, não declinarei - vê-se obrigada a curvar-se à ideias e conceitos impostos por seus orientadores, todos marxistas, para que seja aprovada e obtenha sua graduação.

Ironia do destino, a referida doutora disse, tal qual minha mãe - quase profética - falou, no momento em que comentei com ela sobre as decepções acadêmicas: "o que importa é o diploma, vamos esquecer o resto". Dona Dalva assim falou, nos anos 80 e, agora, a doutora repetiu.

E a isso se resume, atualmente, a academia: o papel pintado de diploma.

Nada se aprende, nada se discute - pois será censurado e boicotado - nada evolui. É a estagnação intelectual de um povo, condenado a enxergar o ensino superior nos moldes da "jurisfação" que citei em outros artigos: você não é nada e nem precisa ser, o que importa é o papel.

Assim, é natural que essa perversa dinâmica tenha transformado a faculdade quase em extensão do segundo grau e, pior, a pós-graduação, mestrado e doutorado, em pós-extensões do mesmo.

Fácil é conversar com Doutores cuja limitação intelectual e cultural são evidentes. Causa espanto descobrir que, entre aqueles que alcançaram o topo da escalada acadêmica, tantos sejam verdadeiras farsas e embotados - uma evidente consequência de uma política de ensino verdadeira e deliberadamente assassina de cérebros e intelectos. Um Doutor brasileiro não alcança um bacharel norte-americano - ou um egresso do COF, como eu, esta é a verdade.

Talvez seja tarde e não mais provoque efeitos mas, ainda que ao entardecer da vida, aceitei os velhos conceitos proféticos de minha mãe e a experiência de vida de minha dileta pós-doutoranda: o que vale é o diploma e por isso - e só por isso - persisto em minha licenciatura em Filosofia.

Mas sei que nada terei a aprender, em termos filosóficos.

Ao contrário: deveria, eu, estar ensinando.



Walter Biancardine 





sábado, 25 de janeiro de 2025

ENSAIO FILOSÓFICO: A INCONVENIENTE DEMOCRACIA DO VOTO UNIVERSAL


A democracia, enquanto enxergada apenas como um sistema de governo fundamentado no voto popular e não como resultado das atitudes e posturas de um país, é frequentemente exaltada como o modelo mais justo e equitativo de organização política.

Ela deve ser enxergada somente como um reflexo das práticas políticas, da cultura cívica e das decisões coletivas, emergindo da interação entre governo e sociedade e sendo moldada por elementos como o respeito às leis, a educação política da população, a transparência das instituições e a capacidade do povo de se organizar e demandar seus direitos. Deste modo, a democracia não é algo que se impõe de cima para baixo – um objetivo a ser perseguido e tão presente nos discursos de políticos – mas que se constrói e se mantém por meio de ações concretas e cotidianas de governos e do povo.

No entanto, uma análise mais profunda revela que o modelo usual, baseado na simples prevalência numérica como indicador da vontade do povo, possui fragilidades intrínsecas especialmente quando se considera o impacto do voto universal em uma sociedade onde grande parte da população carece de conhecimento adequado sobre as complexidades políticas, econômicas e sociais que determinam os destinos de uma nação.

Este ensaio busca explorar as limitações de um sistema que concede igual peso a todas as opiniões, independentemente do nível de informação ou engajamento dos eleitores.

O Problema da Ignorância Política

O primeiro ponto a ser considerado é a realidade da completa e universal ignorância política – ou alienação deliberada e comodista – que permeia grande parte das sociedades modernas. Não é exagero afirmar que muitos eleitores desconhecem as funções básicas das instituições governamentais ou as implicações de suas escolhas eleitorais, cabendo reconhecer que tal desconhecimento não é apenas fruto de uma falta de educação formal, mas também de uma indiferença generalizada em relação aos assuntos públicos.

Em um sistema baseado no voto universal, a voz de um indivíduo profundamente engajado e informado tem o mesmo peso e valor que a de alguém que decide seu voto com base em slogans, promessas superficiais, vagas de emprego ou as mais mesquinhas vantagens pessoais.

Essa situação leva à ascensão de lideranças demagógicas, que exploram a falta de informação da maioria para promover agendas que frequentemente desconsideram o bem-estar a curto e longo prazo do país – o que importa é a vitória eleitoral. A retórica simplista e as soluções imediatistas encontram terreno fértil em uma população que não está preparada para avaliar criticamente as propostas apresentadas.

O Império dos Interesses Imediatos

Outro aspecto problemático do voto popular é a tendência da maioria em priorizar seus interesses imediatos em detrimento das necessidades coletivas ou das consequências futuras de suas escolhas, comumente chamado de egoísmo individualista.

A democracia, em sua forma atual, incentiva os candidatos a prometerem benefícios de curto prazo para garantir o apoio eleitoral, mesmo que tais medidas sejam insustentáveis ou prejudiciais a longo prazo. Esse ciclo de promessas e concessões demagógico-apelativas resulta em uma governança que privilegia soluções enganosas, verdadeiras fraudes eleitorais, em vez de reformas estruturais necessárias ou – pior – cria verdadeiros monstros sociais, como a cultura “woke” identitarista.

Além disso, a dinâmica eleitoral frequentemente transforma o processo político em um concurso de popularidade, onde a capacidade de persuadir emocionalmente supera a competência ou a integridade. Como resultado, a liderança política é frequentemente ocupada por indivíduos que são mais habilidosos em manipular a opinião pública do que em governar eficazmente, tais como influencers do YouTube, pastores de igrejas ou mesmo apresentadores de programas de TV.

A Inclusão e a Justiça: Um Paradoxo

A democracia é frequentemente celebrada como o sistema mais inclusivo e justo, mas essa afirmação merece uma análise mais crítica. A inclusão de todas as vozes no processo decisório, embora louvável em teoria, também traz consigo sua completa contradição. Ao incluir indivíduos despreparados ou desinformados, o sistema democrático gera injustiças, uma vez que as decisões tomadas refletem mais as percepções equivocadas, idiossincrasias, taras, falhas de caráter ou os interesses mais imediatos da maioria, do que uma avaliação racional das necessidades coletivas. Mas quem pensa na coletividade? Se não há esta preocupação, toda a essência da democracia cai por terra a partir do próprio povo.

A tão propalada inclusão, desprovida de mecanismos que garantam a qualificação do debate, dos debatedores e do processo decisório, transforma a democracia em um sistema onde a quantidade prevalece sobre a qualidade. Assim, embora o propósito de inclusão seja digno de louvor, ele deveria ser equilibrado com a necessidade de assegurar que as decisões tomadas sejam informadas e justas – mas tal não ocorre.

A verdadeira justiça – bom lembrar aos demagogos – não reside apenas na participação universal, mas também na capacidade efetiva e real de promover o bem comum, de maneira palpável e equitativa.

A Ilusão da Igualdade Política

A ideia de que todos os votos possuem igual valor é frequentemente celebrada como um dos grandes triunfos da democracia. No entanto, essa igualdade formal mascara desigualdades substanciais em termos de conhecimento, capacidade de julgamento e impacto das decisões. Em uma sociedade onde a informação é distribuída de forma desigual, o voto universal pode perpetuar um sistema onde as decisões são tomadas com base em percepções equivocadas ou interesses restritos, em vez de considerações racionais e informadas.

Pré-requisitos para o Voto: Uma Questão de Justiça?

Diante das limitações do voto universal, surge a questão: seria justo exigir pré-requisitos para o direito ao voto? Essa ideia, embora controversa, merece uma análise aprofundada pois toca em princípios fundamentais de igualdade e justiça.

A imposição de critérios, como um nível mínimo de educação ou o cumprimento de testes de conhecimento básico sobre política e governança, poderia potencialmente elevar a qualidade das decisões coletivas. Eleitores mais informados estariam mais aptos a avaliar criticamente as propostas e a escolher representantes que realmente atendam aos interesses coletivos. Além disso, tais critérios poderiam incentivar a educação cívica, promovendo maior engajamento e responsabilidade por parte dos cidadãos.

No entanto, a implementação de pré-requisitos para o voto também levanta preocupações éticas e práticas. A primeira e mais óbvia é sobre quem determinaria os critérios? Como garantir que eles não sejam usados para excluir deliberadamente certos grupos sociais? A história mostra que medidas como testes de alfabetização foram, em alguns contextos, empregadas como ferramentas de discriminação, perpetuando desigualdades e privando comunidades marginalizadas de seus direitos políticos.

Além disso, exigir pré-requisitos para o voto pode criar um sistema que privilegia a elite educada em detrimento da maioria, reforçando divisões sociais e minando um suposto princípio de igualdade política.

É uma inverdade afirmar, portanto, que a justiça na democracia não residiria apenas na qualidade das decisões, mas também na inclusão de todas as vozes, independentemente de sua origem ou nível de instrução. O desafio, deste modo, seria encontrar um equilíbrio entre inclusão e competência – um verdadeiro “ovo de Colombo” e que jamais será solucionado a contento.

Pré-requisitos como Estímulo ao Aperfeiçoamento Individual

Uma nota ao final deste ensaio: apesar das preocupações éticas e práticas, é importante considerar que a exigência de pré-requisitos para o voto poderia servir como um poderoso estímulo para o aperfeiçoamento individual.

A perspectiva de adquirir o direito ao voto mediante o cumprimento de certos critérios poderia motivar os cidadãos a buscar maior conhecimento sobre política, economia e sociedade. Esse processo não apenas os qualificaria para participar de maneira mais consciente no processo eleitoral, mas também contribuiria para o fortalecimento da cidadania, do senso de responsabilidade coletiva e da capacidade individual em detectar, de imediato, discursos e promessas demagógicas dos eventuais candidatos ou ocupantes de cargos públicos.

A estagnação comodista, que caracteriza a relação de parte da população com os assuntos públicos, poderia ser desafiada por um sistema que recompense o esforço e o engajamento. Ao invés de excluir, tal abordagem poderia ser concebida como uma forma de inclusão meritocrática, onde o direito ao voto se tornaria um reflexo do compromisso do indivíduo com o bem comum. Essa dinâmica poderia criar uma sociedade mais informada e engajada, reduzindo a influência de lideranças demagógicas e promovendo um debate público mais qualificado.

Entretanto, para que essa ideia seja implementada de maneira justa, seria necessário garantir que todos os cidadãos tivessem acesso equitativo aos recursos educacionais e às oportunidades de se qualificarem. Sem essa base, o risco de perpetuar desigualdades sociais seria elevado, transformando uma proposta potencialmente benéfica em um instrumento de exclusão.

Conclusão

Embora a democracia baseada no voto popular seja frequentemente defendida como o modelo mais inclusivo e justo, é essencial reconhecer suas limitações. O peso igual conferido a todas as opiniões, independentemente do nível de conhecimento ou engajamento, pode comprometer a qualidade das decisões políticas e favorecer lideranças que exploram as fraquezas do sistema.

A discussão sobre a imposição de pré-requisitos para o voto revela a tensão entre os ideais de inclusão e a busca por decisões mais informadas e justas. Além disso, a ideia de que tais pré-requisitos poderiam estimular o aperfeiçoamento individual traz uma dimensão adicional ao debate, apontando para a possibilidade de uma sociedade mais engajada e consciente. Contudo, a implementação de qualquer mudança nesse sentido deve ser cuidadosamente planejada para evitar injustiças e promover um equilíbrio entre inclusão e competência. Uma reflexão crítica sobre essas questões é necessária para que possamos compreender os desafios inerentes à democracia e buscar formas de mitigar seus efeitos mais prejudiciais, sem, contudo, sugerir uma solução definitiva para o problema.

Em uma maioria de eleitores ignorantes decidindo os destinos de uma nação, podemos supor que este país é governado pelas escolhas dos imbecis.


Walter Biancardine