hoje é sexta-feira, e daí?
quem não trabalha nem nota
invejoso da alegria daqueles
que brindam e dizem "sextou!"
eu gostava das sextas-feiras
afrouxar a gravata e encostar
no balcão seboso do botequim
cerveja e cigarro nas mãos
o olhar piedoso do português
sempre me servia uns petiscos
"é por conta da casa, ó pá!"
sensação de dever cumprido
eu sabia que eu não sabia
de mim e da verdade da vida
vendendo minha juventude
pra proteger minha velhice
não me via como só uma peça
eu era feliz na engrenagem
a ignorância nos abençoa
com a paz das bestas
vendi mal minha juventude
me gastei em excessos
não protegi minha velhice
achei que nem a veria
nunca um piscar de olhos
demorou tanto quanto o meu
não tenho paz
nem conforto
nem sossego
e nem posso voltar
desaprender e ser
novamente a besta
feliz que eu era
hoje é sexta-feira
dia de tomar cerveja
quente, fim do copo
Walter Biancardine

Nenhum comentário:
Postar um comentário