sexta-feira, 23 de outubro de 2026

FIM DE NOITE


em cada mesa um fracasso
cada garrafa, uma dor
cada copo, uma lágrima

as rodelas molhadas na tábua
cebolas caídas do prato
palitos de dente, amendoins
e o sal derramado
que dizem ser azar

o cinzeiro que nunca veio
cinzas, papéis e bitucas no chão
de vermelhão encardido
estampado com solas de sapatos
sem direção alguma

na maioria das mesas
quatro cadeiras e duas ocupadas
mas as piores delas
tem sempre um só sentado

e chega outra garrafa
nada traz que seja novo
a não ser um copo cheio
que nos leva pra mais longe

as garrafas não mentem
nem os copos sujos e com restos
cinzeiros vieram com maldade 
só pra marcar as horas
e as esperanças viraram apenas
cadeiras vazias
pratos vazios
cascas vazias
garrafas vazias
copos vazios
e cinzeiros cheios

em casa, se ajoelhe no vaso
confesse os pecados em jatos
encha o vaso com abominações
peça perdão à descarga

a penitência é o chuveiro
e a ressaca, 
amanhã de manhã




Walter Biancardine


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