meus caminhos são acostamentos
metade de minha vida são estradas
e vejo campos e pastos ao longo
com cavalos olhando pro nada
parados e talvez pensando
meditando ou filosofando
ar distante
sigo adiante e o pasto muda
vejo a boiada mas ela me vê antes
bois e vacas me olham fixamente
talvez me avaliem ou debochem
me seguem com os olhos
pesando cada passo que dou
com toda a calma do mundo
me julgam
e eu que me acho sabido
olho pro chão de barro e vejo
calcinhas e partes de carros
embalagens de lanchonetes
ou de drogas e alguns pés
de sapatos ou tudo aquilo
que ninguém quis levar
se livraram antes
de chegar em casa
e então sou eu
que julgo
faço toda uma história na cabeça
meço pela minha régua e empresto
crises e dramas e sofrimento
a um simples pé de sapato no chão
pois nunca me lembro que também
jogamos fora o que não serve mais
nem sempre tudo é dor
parece que o sofrimento
me atrai e insisto
chego em casa
e escrevo isso
cavalos e bois nem se importam
eu é que perco tempo e os uso
e também os lixos das estradas
fabricando agonias pra depois
tentar vender
sem a menor
modéstia
Walter Biancardine

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