Os dias passam. Abro o Facebook e leio algum artigo que achei interessante.
Gosto de plástico.
Insosso. Sem vida. Sem personalidade. Sem estilo – ou até sem a falta dele.
Aliás, há sim um estilo: chame de “Algorithmic design”, o estilo ChatGPT.
Natural como peitos de silicone. Como as caras de Ozempic. Ou as barbas e topetes dos “Conservadores de Instagram”.
Páginas ditas “sérias”, que tratam de assuntos ditos “sérios” – filosofia, política, sociologia ou história – já não se envergonham em ter o GPT como autor. E como redator, revisor e até diagramador.
Também serve de muletas para medíocres.
Toneladas de diplomas na parede e nenhum talento na alma.
Usam para escrever o que não conseguem. Ou não sabem.
E aparecem arrotando seus títulos e graduações.
Conheci gente assim.
Boa escrevendo. Num debate ao vivo, no YouTube, chamariam mamãe.
Cérebros na geladeira. Junto com os estudos acadêmicos.
Intuição, sentimentos e até opiniões jogados no freezer. O algoritmo é tucano: morde (educadamente) e assopra (socialmente), tentando parecer gente.
No máximo, um redator de O Globo.
O dom, o talento, a vocação não são mais necessários.
Sacrifício de espremer a cabeça em vácuo criativo? Cabular almoço, janta e rua com amigos? Noites sem dormir despejando ideias compulsivas?
Maços e maços de cigarro com litros de café?
Pra quê?
Tião da Obra ou MC da Pedra podem discorrer sobre Schoppenhauer.
Mudam a roupa. Deixam barba. Foto no Novo Leblon ou na Paulista.
Pronto.
E tudo sai com o mesmo gosto.
Sanduíche do Mc Donald’s.
Gostoso mas sem nenhum tempero.
Sem sinal de vida.
Artigos, ensaios ou mesmo respostas em comentários nas redes.
Estudos, teses e até romances, livros.
Tudo com o GPT na autoria.
A Feira Literária de Paraty (FLIP) não sabe o que está perdendo.
Um grande autor.
Não bebe, não fuma e não toma café.
Mas escreve feito uma máquina!
Walter Biancardine
Um casamento de quinze anos acabou.
Me custou um frete para levar minhas coisas.
Fui para o mato.
Acreditei ter saído do naufrágio. Me mudei para uma casa.
Precisei fazer quatro viagens. Carro emprestado.
Minhas coisas ocupavam lugar.
Saí dessa casa e vim para o Rio de Janeiro – chance de ouro?
Dois carros para trazer tudo.
Agora volto para o mesmo mato.
Apenas uma mochila nas costas.
Seis décadas de vida.
Me renderam uma muda de roupa.
Toalha de banho. Escova de dentes.
Nem travesseiros nem panelas.
Nem livros.
Nem lembranças.
Nada.
Sou a encarnação do Nirvana.
Não reclamo. Só registro.
Vida que segue.
Walter Biancardine
O fracasso pertence aos corajosos, por insistirem em respirar após o abismo.
A vida acontece em surtos, avalanche de pancadas misturadas a momentos de felicidade absurda, e nesse redemoinho se desenrolam todos os dramas, todas as dúvidas, se clamam vitórias ou choram-se derrotas.Não faz sentido exigir sentido naquilo que nunca nos prometeu ter: o universo, a vida, o amor.
Não busque respostas.Ninguém cai, colapsa ou enlouquece por uma só razão.
A vida é metódica, detalhista e perfeccionista, pingando a cada dia as gotas do ácido que corroerão nossa estrutura e nos farão desabar.Os erros que cometi, a vida que sempre levei e até as mulheres que amei me destruíram. Mas sem isso eu não teria escrito uma linha sequer.
Não, não quero me curar.Gritar contra o mundo é perder tempo. O verdadeiro ato de rebeldia, de oposição ao sistema, é continuar sendo você mesmo em silêncio - escrever o que ninguém quer ouvir, viver como ninguém ousa viver. O sistema não sabe lidar com quem não depende dele.
O mundo não persegue o mal, persegue o livre. E o livre incomoda porque é imprevisível: não está à venda, não é convencido nem manipulado, e toda essa maldita engrenagem depende da previsibilidade para existir.
A vida cobra.
O que se segue não é divagação – é
inventário.
É contabilidade moral feita no fim do expediente, quando o caixa não fecha e o sujeito finge que não viu o rombo. Uma ferida antiga, dessas que só doem quando a gente para de correr.
A vida, em certos períodos, deixa de ser narrativa e vira uma sucessão de baixas. Não é um grande desastre, não há música trágica ao fundo. É pior: tudo vai indo embora em silêncio. Primeiro o emprego, que não era vocação, mas pagava as contas e dava alguma dignidade ao cansaço. Depois alguns bens, que não eram luxo, mas eram seus – ou pareciam. Depois as amizades, que não acabam por briga, mas por falta de assunto, por agendas incompatíveis, por um cansaço mútuo de fingir entusiasmo. Por fim, os amores. Esses não vão embora: evaporam. Um dia você acorda e percebe que está sozinho. E não há o que fazer.
Há um momento da vida – geralmente depois da quarta ou quinta grande perda – em que a existência começa a parecer um inventário negativo. Não se soma mais; subtrai-se. A esperança some aos poucos, como uma goteira que a gente aprende a ignorar. E, para não enlouquecer, repetimos a frase anestésica: “a vida é assim mesmo”. É a morfina dos fracos e o álibi dos cansados.
Essa frase é imbecil, mas sempre repetida com a sabedoria de um papagaio budista. Pronto. Fecha-se o caixão do pensamento e segue-se em frente. Ela não explica nada, mas tem uma utilidade preciosa: impede o cálculo. Porque, se você somar de verdade o que perdeu – pessoas, projetos, versões de si mesmo – a conta assusta. Não é pouco. Não é banal. É muito. E aí surge a pergunta que evitamos como quem evita um diagnóstico: se perdi tanto, é porque tive esse tanto. Eu era rico?
A mente recua nesse ponto. Aciona a defesa automática. Não, claro que não éramos ricos. Sempre faltou algo. Sempre houve frustração, limite, desejo não atendido. Mas isso é truque retórico da própria miséria. A verdade incômoda é que, sim, houve riqueza. Não no sentido bancário – esse é o mais vulgar – mas no sentido existencial. Houve abundância de sentido, de presença, de expectativa. Houve dias cheios demais. Houve gente demais. Houve amor suficiente para achar que o mundo tinha um eixo.
Só perde quem possui.
O resto é discurso de pobre
espiritual tentando parecer sábio.
Em momentos de maior lucidez – ou de maior exaustão – tentamos o caminho oposto: o da negação radical da posse. Dizemos a nós mesmos que nada é nosso. Que tudo é empréstimo. Que morreremos e os bens ficarão, os amigos seguirão suas vidas, os amores amarão outros corpos com a mesma boca que um dia jurou eternidade. Há uma certa elegância nisso, uma postura quase espiritual. Morremos e tudo fica. Amigos seguem. As mulheres que amamos continuam respirando em outros braços.
O desapego entra em cena como virtude superior, quase um diploma moral. Não se apegar vira sinônimo de maturidade.
É verdade. Tudo isso é verdade. Mas é uma verdade fria, dita de longe, como quem descreve um acidente do outro lado da estrada.
O problema é que essa verdade não anestesia coisa nenhuma quando a perda acontece. Ela só funciona em palestras, livros de autoajuda com capa bege e frases sublinhadas. Na vida real, perder a mulher amada – ou perder uma situação que dava chão ao dia – dói como amputação. E não há filosofia oriental que resolva isso às três da manhã, quando a casa está silenciosa demais e o copo já está vazio demais.
Então aparece o elogio do desapego. Palavra bonita, vendável, que soa elevada. Mas o desapego, quando levado a sério, tem um preço que poucos admitem. Porque não se desapega seletivamente. Quem aprende a não se agarrar, aprende também a não se lançar inteiro. E quem não se lança inteiro vive pela metade. Funciona. Dói menos. Mas também vale menos.
Aí surge a pergunta central, a única que presta: existe um ponto de equilíbrio? É possível amar alguém sabendo – de verdade, não da boca pra fora – que ela nunca será sua? É possível lutar por algo sabendo que, no fim, aquilo será deixado para outros ou dissolvido pelo tempo? Ou toda tentativa de equilíbrio não passa de um cinismo elegante, uma frieza treinada, um jeito de continuar vivo sem se comprometer demais?
A resposta honesta é desagradável: não há equilíbrio confortável. O que há são escolhas trágicas disfarçadas de virtude.
Há quem escolha amar como se fosse eterno, mesmo sabendo que não é. Essas pessoas sangram mais. Bebem mais. Envelhecem mais rápido. Mas vivem com uma intensidade que não cabe em frases de efeito. Sabem que tudo acaba, mas se recusam a viver como se isso fosse a única verdade relevante. Apostam sabendo que vão perder.
E perdem. Repetidas vezes.
Há quem escolha o distanciamento inteligente. Observa, calcula, ironiza. Não se ilude, não promete, não se entrega por completo. Evita o tombo reduzindo a altura do salto. Sofre menos, sem dúvida. Mas passa pela vida como quem passa por um bar ruim: entra, bebe algo morno, vai embora sem lembrar do rosto de ninguém.
E há os que tentam o meio-termo – o mais perigoso de todos. Querem amar, mas com cláusulas. Querem lutar, mas com plano de saída. Querem intensidade com seguro emocional. O resultado costuma ser patético: não vivem de verdade e ainda assim sofrem. Porque o coração não respeita contratos assinados pela razão, ainda que digam que tudo é apenas “resultado de minhas escolhas”.
No fundo, toda essa discussão sobre posse, desapego e equilíbrio é uma tentativa desesperada de domesticar a perda. Mas a perda não é um erro do sistema. Ela é o sistema. A vida não é uma sucessão de perdas por acidente; é uma longa operação de desapropriação. Primeiro tira o supérfluo, depois o necessário, por fim o essencial. E ainda espera que você agradeça pela experiência.
Talvez a única postura minimamente honesta seja aceitar a contradição sem tentar resolvê-la. Amar sabendo que vai perder. Construir sabendo que vai ruir. Lutar sabendo que outro colherá. Não por heroísmo nem por virtude, mas porque a alternativa – o cinismo absoluto – é uma morte antecipada com traje esporte fino.
Isso não é esperança. Esperança é coisa para jovens e
religiosos bem resolvidos.
Isso é lucidez suja. Daquelas que
não salvam, mas permitem atravessar o dia sem mentir demais para si
mesmo.
No fim, a vida não nos pergunta se queremos perder. Ela apenas pergunta quanto estamos dispostos a viver antes da perda. E essa pergunta, infelizmente, não admite resposta inteligente.
Só resposta vivida.
Prefiro esta resposta.
Walter Biancardine
Hoje chamam de filosofia um monte de opinião com verniz universitário. Antigamente, filosofar era arriscar a própria alma. Sócrates bebeu cicuta; hoje o sujeito bebe likes. O preço caiu, a ambição também.
Filosofar, no sentido antigo – o único que presta – não é “refletir sobre temas”, é aprender a morrer direito. Platão não escrevia para animar seminário, escrevia para arrancar o homem da caverna nem que fosse à força. Santo Tomás não “dialogava com perspectivas”, ele ordenava o caos. Eclesiastes não fazia autoajuda: ele cuspia na mesa e dizia “tudo é vaidade” para ver quem aguentava ficar de pé depois.
O problema moderno é simples e trágico: trocamos a pergunta “o que é verdadeiro?” por “o que funciona?”. Funciona para ganhar dinheiro, status, seguidores, cargos, teses. Mas a verdade não funciona – ela pesa. Ela exige renúncia, hierarquia, silêncio, disciplina. Coisas fora de moda. A modernidade quer resposta rápida; a verdade exige vida longa, coluna ereta e, por vezes, algumas doses de Jack Daniel’s.
E aqui vai uma heresia necessária: sem tradição não há pensamento, só delírio original. O sujeito que despreza o passado não é ousado, é órfão. A tradição não é um peso morto; é o chão que impede a mente de afundar no pântano do próprio ego. Quem corta raízes chama isso de liberdade; a árvore chama de morte.
Filosofar hoje, se for para valer, é um ato de resistência. É dizer “não” ao ruído, “não” à pressa, “não” à psicologia barata travestida de metafísica. É sentar, ler um morto mais inteligente que você, aceitar a humilhação intelectual e, só então, arriscar uma frase própria. Todo o resto é teatro acadêmico ou militância de bar.
Não espero multidões lendo o que escrevo – minhas verdades nunca foram esporte de massa. Se tocar dois ou três, já cumpriu mais função do que mil textos feitos para agradar algoritmos. A maioria vai ler e passar. Alguns vão sentir um incômodo rápido e chamar de “clima pesado”. Um ou outro – o raro – vai reconhecer algo próprio ali e ficar em silêncio por uns minutos. Esse é o benefício real.
Bons escritos não consolam, não resolvem, não mobilizam.
Eles deslocam. Tiram o sujeito um centímetro do lugar onde estava.
Às vezes, um centímetro é tudo o que separa um homem da perda total.
É a minha aposta.
Walter Biancardine
Walter Biancardine