Hoje chamam de filosofia um monte de opinião com verniz universitário. Antigamente, filosofar era arriscar a própria alma. Sócrates bebeu cicuta; hoje o sujeito bebe likes. O preço caiu, a ambição também.
Filosofar, no sentido antigo – o único que presta – não é “refletir sobre temas”, é aprender a morrer direito. Platão não escrevia para animar seminário, escrevia para arrancar o homem da caverna nem que fosse à força. Santo Tomás não “dialogava com perspectivas”, ele ordenava o caos. Eclesiastes não fazia autoajuda: ele cuspia na mesa e dizia “tudo é vaidade” para ver quem aguentava ficar de pé depois.
O problema moderno é simples e trágico: trocamos a pergunta “o que é verdadeiro?” por “o que funciona?”. Funciona para ganhar dinheiro, status, seguidores, cargos, teses. Mas a verdade não funciona – ela pesa. Ela exige renúncia, hierarquia, silêncio, disciplina. Coisas fora de moda. A modernidade quer resposta rápida; a verdade exige vida longa, coluna ereta e, por vezes, algumas doses de Jack Daniel’s.
E aqui vai uma heresia necessária: sem tradição não há pensamento, só delírio original. O sujeito que despreza o passado não é ousado, é órfão. A tradição não é um peso morto; é o chão que impede a mente de afundar no pântano do próprio ego. Quem corta raízes chama isso de liberdade; a árvore chama de morte.
Filosofar hoje, se for para valer, é um ato de resistência. É dizer “não” ao ruído, “não” à pressa, “não” à psicologia barata travestida de metafísica. É sentar, ler um morto mais inteligente que você, aceitar a humilhação intelectual e, só então, arriscar uma frase própria. Todo o resto é teatro acadêmico ou militância de bar.
Não espero multidões lendo o que escrevo – minhas verdades nunca foram esporte de massa. Se tocar dois ou três, já cumpriu mais função do que mil textos feitos para agradar algoritmos. A maioria vai ler e passar. Alguns vão sentir um incômodo rápido e chamar de “clima pesado”. Um ou outro – o raro – vai reconhecer algo próprio ali e ficar em silêncio por uns minutos. Esse é o benefício real.
Bons escritos não consolam, não resolvem, não mobilizam.
Eles deslocam. Tiram o sujeito um centímetro do lugar onde estava.
Às vezes, um centímetro é tudo o que separa um homem da perda total.
É a minha aposta.
Walter Biancardine

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