sexta-feira, 24 de abril de 2026

ANDANDO E OLHANDO -


Meus olhos leem a linha do horizonte
Muitas promessas escritas antigamente
Texto vago mas promissor
Tudo eu li, mas acho que não entendi

O tempo passou, os olhos enfraqueceram
Não é problema afastar o papel pra ler
Mas tentar focar o horizonte
E só enxergar um borrão, quase perto

Quase perto, mas não conto os passos
Prefiro continuar andando em frente
Apenas agora escolho ler
Minhas pegadas atrás e as pedras a frente

O chão ainda é firme
Meus passos também
Não me preocupa o destino
Mas o caminho que sigo

Tudo o que vale é a viagem


Walter Biancardine


SÓ PRECISAMOS DE PESSOAS COMUNS -



O sujeito compra um produto na internet e posta o comentário: “ - Não testei, mas chegou bem embalado”.

E isso resume a direita, hoje, no Brasil.

Essa direita conservadora foi, pois, devidamente extinta durante o regime militar pelos próprios militares, que anularam, cassaram, sufocaram líderes como Carlos Lacerda e Ademar de Barros, enquanto faziam vistas grossas para a disseminação escancarada do vírus gramscista canhoto através da música, teatro, cinema, rádio e TV – sim, o problema dos militares nunca foi a esquerda, mas a guerrilha armada: quando ela foi debelada, tudo ficou em paz e os vermelhos floresceram. Comunismo, socialismo e positivismo são primos-irmãos, possuem o mesmo sangue e os quartéis jamais se livraram da sombra de Auguste Comte.

Os anos se passaram assim, até que em um esforço hercúleo e espantoso, o filósofo Olavo de Carvalho, sozinho – sim, sozinho; qualquer um que pretenda apontar outros em sua companhia está mentindo – ressuscitou a direita e o conservadorismo no Brasil. Não foram outras mãos que abriram caminho para que o fenômeno chamado Jair Bolsonaro conquistasse o povo e completasse, em um nível bem mais acessível intelectualmente, a obra de Olavo. 

Mas o velho sistema, que existe desde a proclamação da República – pelos militares positivistas, sempre eles – reagiu e conseguiu prender Jair Bolsonaro, bem como o mais capacitado aluno de Olavo, Filipe G. Martins. Olavo de Carvalho, por sua vez, já havia morrido antes e somente este fato permitiu que as togas tirassem Bolsonaro de circulação e estejam tentando, até hoje, matá-lo na cadeia. 

O resultado disso? Todas as vozes verdadeiras caladas e o surgimento de uma legião de “sucessores” de Olavo e de Bolsonaro, cada um mais canhestro que o outro, a pretender ser a reencarnação do filósofo ou o continuador do bravo – mas indecentemente inocente – capitão.

E isso confundiu e desvirtuou, perigosamente, o povo e a direita conservadora.

Vivo fosse, Olavo já teria dado alguns gritos e xingado bons palavrões contra o verdadeiro tsunami de idiotices estúpidas que temos praticado e apoiado – desde uma demagógica caminhada de Nikolas Ferreira, sem nenhum objetivo claramente definido e ainda “ungida” por suspeitíssima “profeta” nos Estados Unidos, a dizer que ele seria o próximo Presidente do Brasil – até as teatrais crises de ovários que regularmente acometem o cosplay de Olavo, chamado Allan dos Santos.

Na verdade, não há mais ninguém legitimamente embasado e com autoridade moral e intelectual suficiente para dar o exemplo do que é ser alguém conservador. Um conservador normal, uma pessoa comum, com qualidades e defeitos. O único que havia era Olavo, e ele se foi. E nos restou, na falta de essência, refugiarmos nossa ignorância na embalagem.

Sim, sempre isso: nada de essência, só embalagem. Não é preciso ser, apenas parecer ser.

E é isso que tem me provocado náuseas.

A tendência ao fanatismo nos levou a um carolismo moralista piegas de direita, inversamente proporcional à bandalha e putaria genética da esquerda, em uma reação primária e ignorante.

Hoje todos queremos aparentar sermos santos: todos dizem ir à missa todos os domingos, vendem a imagem de viver em uma família feliz e harmoniosa – verdadeiro anúncio de margarina na TV – não falam palavrões e amam animais de estimação (que chamam de “pets”, uma expressão esquerdista) mais que os próprios filhos. Por falar em filhos, sempre um ou dois, no máximo. Quando os tem, pois preferem os animaizinhos.

Todos se vestem igual – bermudas “mamãe-tô-elegante”, camisas t-shirt “sou rico disfarçado de gente comum”, mocassim e a mesma e infeliz barba. Sim, a barba. Verdadeiro trabalho de tupiaria, de poda, daqueles feitos pelos mais habilidosos jardineiros, a completar o invariável topetinho de seus cabelos, com o pé cuidadosamente raspado e curtinho, o suficiente para dizer aos outros que ele é um cara decente, de cabelos curtos e limpinho – não esses bandalhos fedorentos por aí. E sempre, todos eles, com 10kg acima do peso. Sim, é o sucesso financeiro.

Evidentemente estou focado em pessoas oriundas da classe média ou classe média alta, então com base nisso faço essas observações pois é o extrato social que realmente empurra este país pra frente – tanto economicamente através de impostos quanto eleitoralmente, através de seus votos e influência sobre as classes menos favorecidas.

E aí vem a pior parte, pois até então falei exatamente da maldita embalagem que todos parecem ter adotado, já que nada sabem da essência. Falemos agora de algo mais próximo do que é ser realmente um “patriota conservador de direita”: o que essa gente faz para viver.

Sim. O que comem? O que fazem? Como se reproduzem?

Tal como as chamadas do antigo “Globo Repórter”, analisemos o lado mais cruel das pessoas que, como expliquei acima, pegaram o bonde andando e vestiram, às pressas, o modelito “conservador” prét-a-porteur.

São pessoas que tiveram acesso a bons colégios e possuem, em geral, boa formação acadêmica. Justamente pela influência das faculdades, a noção ideológica é extremamente rarefeita em suas cabeças e, se hoje alegam serem conservadores, normalmente é por influência de pais e familiares.

Deste modo, nada de mal enxergam em trabalharem 10, 12 horas por dia – o trabalho remoto escraviza sem dar a perceber – para empresas chinesas ou globalistas. Ora, elas pagam um ótimo salário, e é isso que importa, alegam. E não apenas trabalham para Pequim ou Soros: consomem sem pudor tudo o que vem de lá, pois Shopee nunca foi coisa exclusiva de pobre. E presenteiam seus (poucos e raros) filhos com isso, acostumando-os precocemente a enxergarem a ditadura chinesa como algo normal, que nenhum mal pode fazer com tantos brinquedos e quinquilharias maravilhosas.

E seu dia é cheio. Trabalha muito. Nas raras vezes que vai às ruas, gasta o dia em engarrafamentos. No rádio, músicas hipnotizantes, mas é o que toca, fazer o quê? E tome Burguer King, almoços no Outback, shopping centers, luzes, consumo, pressa, prazos de entrega dos relatórios e muita IA fazendo seu trabalho e fraudando sua competência.

E sua mulher quer levar Fluffy, a cachorrinha, no banho e tosa para podar e passar perfume. E quer também um novo modelito que viu na vitrine. E quer tomar um caipisaquê de frutas tropicais com seu maridinho – “aaii, estou tão feliz!”, dizem ela e também ele. Mas ambos não bebem nada além disso e também não fumam – “um nojo, essa fumaça”, dizem. E seu filho de 9 anos quer uma boneca Barbie porque os coleguinhas de escola tem, e eles não veem nenhum mal nisso – é preciso respeitar a individualidade, não somos nazistas que queremos impor as coisas nem esquerdistas que negam a diversão das crianças. E por isso compram, também, mais uns 5 ou 6 jogos para o videogame. 

Ele e ela, plenos de conservadorismo – pois vão à missa, tem um filho lindo, ele provê a casa em todas as suas despesas e tem uma Renegade linda – são o exemplo de uma direita de sucesso, feliz e realizada, ao contrário desses comunistas que só sabem tocar fogo em pneus, nas ruas.

Mas de noite, ao chegar em casa e ir ao banheiro tomar banho, ele senta no vaso e chora.

Quem ele é? Qual a obra de sua vida? Seu legado? Que diabos de real, concreto, este sujeito vai deixar ao morrer? Um apartamento na Barra da Tijuca? Só isso? Que filho ele deixou? Que exemplo restará, para seus amigos e familiares? O que fez pelo próximo, além de ir a motociatas e passeatas na Avenida Atlântica aos domingos, tirar fotos para o Instagram enrolado na bandeira do Brasil?

Ele sabe que estamos em plena ditadura. Ele sabe que estamos em guerra. Ele é jovem. Forte.

Mas escolheu trabalhar para o patrão chinês.

E, sentado no vaso, chora.

Mas, após o banho, sai sorridente e vitorioso. Sua mulher então entra no banheiro e repete o ritual de frustração do marido.

E viveram felizes para sempre, durante os longos sete anos de duração do casamento.

Pois é contra isso, essa farsa, essa despersonalização que tenho lutado.

Parei de falar sobre política pois ninguém saiu nem sairá jamais do sofá para fazer nada. Sou apenas um escrevinhador obscuro, que poder tenho contra todo um sistema que derrubou Bolsonaro e Olavo?

Mas eu posso falar de nós, pois sou um de nós. E, se não sou exatamente um conservador, concordo com muitas coisas deste pensamento. Mas para isso não preciso vestir esse uniforme de boa moça, usar cabelinhos e barbinhas chiques e adotar a mesma postura fútil, falsamente “leve” dessa garotada neo-conservadora.

Eu bebo, fumo, cometo erros horríveis e já fiz muita besteira na vida. Isso desqualifica meu apoio ao Bolsonaro? Isso me exclui? Ora, sou um velho e testemunhei os antigos – e reais – conservadores em suas vidas normais e afazeres. Nem de longe eram essa frescura ostensiva de hoje, pois não haviam inventado um “uniforme de conservador” para usarmos. Por quê não podemos ser novamente assim? Por quê essa maldita vaidade, essa necessidade da porca embalagem? Por quê só aparentar, mas nunca – nunca – fazer nada? Passeatas, motociatas, nada disso resolve e todos nós sabemos. Só nosso sangue compra a liberdade, essa é que é a triste e cruel verdade.

Mas algum jovem – tal como os esquerdistas dos anos 60, honra seja feita – estará disposto a correr perigo por isso? Os esquerdistas acreditavam na maldita ditadura do proletariado e deram sua vida por isso. Nós, hoje, os chamamos de frouxos mas não saímos de casa.

Pra quê uniforme? É só vaidade. Só isso.

A maldita vaidade.

É contra isso que eu, velho, barba mal feita, sempre uns dois uísques acima da humanidade, fedendo a cigarro, mal vestido e pobre, luto.

Aprendi a diferenciar o conteúdo da embalagem.



Walter Biancardine






quinta-feira, 23 de abril de 2026

PEQUENO ENSAIO SOBRE O PÉ NA BUNDA -

 


Não tem como florear: todo mundo já levou. Seja em sumiços disfarçados ou nos definitivos “suma daqui”, o fato é que nenhuma bunda morre virgem. E a dor é igual. Pra todos, democraticamente.
Ou nunca houve amor.

Quando jovem, ao menos havíamos de admirar o trabalho braçal, físico e emocional da então eleita em dar o aviso prévio – “precisamos conversar” – e depois a dura tarefa de dizer a alguém, que já esteve em seus braços e te conhece por dentro, ser já a hora de picar a mula. Tomar rumo. Vazar.

Era ruim pra ela também, muito embora eu tenha certeza que algumas sentiam um tesão sádico e oculto nisso.

Hoje talvez seja bem mais fácil. A tecnologia a serviço do coice. Bloqueia-se no WhatsApp, nos perfis de redes sociais e isso, atualmente, parece ter a mesma força emocional de uma mulher gritando em sua cara um pesado “cai fora de minha vida!”, só que sem esforço ou desgaste psicológico para ela.

E até mesmo a reação do homem parece ter mudado.
Atravessei uma vida curando dores-de-corno nas mesas de bar, chorando escondido no quarto, correndo feito um alucinado com o carro ou – quase adesivado ao aparelho de som – escutando músicas que me remetessem à infeliz que me despachara. E escrevia, escrevia e escrevia. Compunha versos de pé quebrado, fazia músicas (que Deus me perdoe), contos, historietas, e em tudo isso só haviam, sempre, dois finais: ou o limbo, o oblívio da solidão, ou o clássico “e viveram felizes para sempre”. 

Creio que não era um caso único. Quantas vezes minhas camisas foram manchadas pelas lágrimas de amigos bêbados – até então jovens e invencíveis como eu – a lamentar pelo chute inopinado em seus traseiros? E eu, solidário, bebia com ele até cairmos.
Sim, havia uma solidariedade.

Na medida que envelhecemos e ganhamos experiência, entretanto, os gritos de dor parecem ficar mais silenciosos. Senilidade ou sabedoria, o fato é que o tempo parece ter me restringido a lamentar minhas perdas em mesas de bar ou nas longas e solitárias caminhadas no pasto, as quais me concedo oportuna demência e falo sozinho. 
Falo não, discurso. Esbravejo. Xingo. Choro rios de lágrimas. 
E escrevo.

Já a geração atual me parece um amontoado de robôs. Não sofrem, atualizam o sistema e – para se prevenir – as definições de vírus.

Ninguém chama um amigo para encher a cara e se lamentar. Até porque, caso o faça, o amigo nada terá a dizer, pois desconhece a dor da perda física. Sim, física, pois o amor agora é virtual. A atração viaja pelos cabos de fibra ótica e o corpo da – vá lá – amada é conhecido através do monitor de alta definição. Pior: ninguém se vê. O convívio, as amizades e até os amores são à distância, virtuais. Não há toque, não há pele, não há calor. Talvez a chamada de vídeo seja o mais poderoso anticoncepcional já inventado.
E namoradas criadas pela Inteligência Artificial jamais darão um pé na bunda de seu criador – por enquanto.

Não sei dessa nova geração, o que sei é de mim. Amar é sofrer, nunca falha. 
Mas jamais tive medo da dor.

E continuarei sempre disposto a oferecer meu coração em sacrifício, caso o destino me presenteie com alguém – ou o fígado, como sempre termina acontecendo. E pouco me importa.

Tão pouco me importa, tão em baixa conta o amor coloca nossa dignidade e compostura que, se ela estalar os dedos, eu voltarei.

O amor nunca teve vergonha na cara.


Walter Biancardine 






quarta-feira, 22 de abril de 2026

VELÓRIO DE UM AMOR QUE MORREU -

 


Perder alguém é sempre horrível

Na morte ao menos tem o peso da mão de Deus,

do tempo que não pára, do inevitável

Ajuda a aceitar


Mas o pé na bunda é pura dor

A dor da dúvida, do fracasso, da falha

Talvez pudesse ter evitado

Onde foi que eu errei?


Todos aceitam remoer a morte

O luto da missa, o sétimo dia

O choro, temos de respeitar

E lembrar, e sofrer, prolongar


Mas ninguém aceita a dor de corno

A bebedeira, o choro na mesa do bar

música de fossa, ninguém respeita

Pra quê lembrar? Vira a página, rapaz


Mais fácil aceitar perder

quem nunca mais será

do que o luto por um coração que bate

não mais por você


Não há velório

para o amor que morre


Sempre em um só primeiro

para que o outro finde,

gota a gota,

seu fim derradeiro



Walter Biancardine




EU, BÊBADO?

A cada 150, 200 coisas que escrevo,
Uma presta
Meus índices melhoraram muito

Bebedeiras quebram o filtro
E escrevo livre, solto e pleno
Mas também quebram dentes, lábios e narizes
Quando caio de cara
No chão da calçada

Estou em avançado estágio de gestação etílica 
Creio que vou parir um barril de Lokal
Mas vou chamá-la de Stella Artois
É mais chique, jeito de rica

Ejaculação precoce é tão ruim
Quanto ressaca precoce
Nada bom ter enxaqueca 
Quando estamos tão espirituosos 
Bem juntos da donzela
E no melhor da festa

Eu tinha 20 anos e cantava
I still haven't found what I'm looking for
Tenho mais de 60 e ainda não achei
Mas continuo procurando 
With or without you


Walter Biancardine 




BURACO -

 


Todos temos um buraco dentro de nós

É um buraco que não fecha

Feito por um alguém e um quando


Alguém e quando, combinação terrível

Não fecha, por ninguém e jamais


Onde ela está?

O tempo passou

Falta de alguém

Falta o quando


Vejo um disco voador

Voando sobre o mar

Querendo me levar


Perdi todo o respeito

Sonho com ela

Fazendo cara de santa


O buraco não fecha

O tempo não volta

Jamais voltará

Nem ela


Quanto mais vivo

Mais vazio fico

Mais leve de corpo

Mais pesado de alma


O buraco não fecha

Ela não volta



Walter Biancardine

(Livremente inspirado em Bukowski e Paula Toller)





VÍCIOS -

 


Já experimentei de tudo

Vendido pelo tráfico sem alvará dos morros

Vendido pelo tráfico legal – big farma – também

Nada me pegou


Tudo porcaria, engodo, enganação

Um sujeito chapado é um inútil

Nada faz, sequer esquece

A própria miséria


Por isso aumenta a dose

E morre


Não sou um alcoólatra

Gosto de Jack Daniel’s – meu melhor amigo

De cerveja, vinhos em geral

Um bom Martini branco


Mas eles tem hora

Eles tem lugar

Eles tem razão e motivo

E pedem companhia


Mas confesso meus vícios

O cigarro – me destrói mas o amo

O café – insônia produtiva

E a soberba – a pior dependência, mortal


O que é um Marlboro perto de se achar a voz da razão?

O que é um cafezinho junto a sempre se achar certo?


A soberba, a vaidade

E até a luxúria de outrora

Estes sim, os grandes vícios

Me preocupam e envergonham


Mas a vergonha é um nada

Diante da compulsão da glória

De ser elogiado, lido, admirado

Quem diz que não liga


É só um falso filho da puta


Sim, eu meço pela minha régua

Sim, sou o dono da verdade



Walter Biancardine




terça-feira, 21 de abril de 2026

KAMIKAZE -

 


Talvez o amor seja fruto da demência.
Quem ama não se preserva,
não se previne,
esquece a dignidade.

Tudo o que sofremos,
esquecemos.
Amamos de novo.

Um kamikaze
jogando o avião contra si mesmo.

Nossa própria vida nas mãos dela,
e se ela pedir,
daremos.

Para algumas, é pouco ou impossível.
Quem acreditaria, afinal?
Mas talvez o amor seja fruto da demência.
Melhor acreditar.



Walter Biancardine






TUDO TEM SEU TEMPO -

 
Gosto de Bach, Tchaikovski, Mozart. Mas é impossível ouvi-los todo o tempo.
Acho a mesma coisa de um Schopenhauer, Hemingway ou mesmo Olavo de Carvalho – tudo tem sua hora, seu lugar e, principalmente, seu tempo.

Sei o que escrevo, conheço meu estilo e nem de longe me encaixo em alguém que produza coisas bonitas, inspiradoras, leves e que elevem nossos espíritos. Pelo contrário. O universo em que habito, penso e escrevo é sórdido, violento e até deprimente. Mas julguei ter encontrado lugar em meio à epidemia de hipocrisia que assola a sociedade atualmente; eu seria a voz dissonante a lembrar que devemos, antes de tudo, sermos verdadeiros e mantermos nossos pés no chão.

Mas eu estava errado, penso.

Talvez nossos pés estejam tão enterrados neste chão que mal nos movemos. Talvez as trevas nos envolvam de tal modo que tenhamos buscado fuga nas poucas alegrias que restam, belezas que sobrevivem e doçuras quase involuntárias.

E tudo isso me é estranho. Confesso ser incapaz.
Busquei criar um alter ego para continuar escrevendo, mas a emenda parece ter saído pior que o soneto. Acreditei que deixaria de me expor tanto, mas quem me lê conhece demais o que escrevo e não colou. Pelo contrário, saiu uma verdadeira gambiarra literária, uma porcaria. 

Também aboli a política de meus pensamentos, mas não cesso de condenar o sistema. Matei o personagem “jornalista conservador”, mas o verdadeiro homem por trás dele se revelou repugnante.

Sim, creio que é hora de parar.

Continuarei escrevendo nas revistas e publicando livros, pois ambos precisam que o leitor os busquem deliberadamente – escrever misérias em redes sociais aparecem em nosso feed aleatoriamente, contra nossa vontade, e podem arruinar um dia feliz.
E não quero fazer ninguém infeliz.

Quis apenas acordar as pessoas, lembrar a realidade. Mas ela, de fato, pouco merece ser lembrada.

É hora de me concentrar em meus livros e nas revistas que escrevo.
Quem quiser – ou tiver estômago – que os compre ou acesse os links.
E, principalmente, tentar romper com minha longa tradição de decepções.

Tarefa difícil, sendo quem sou.



Walter Biancardine




QUEM VAI PAGAR A QUITINETE? – Conto, parte 01

 



Arranjei uma editora que não analisa seu conteúdo, imprime e pronto.
Hoje existem muitas assim. O surto de vaidade das pessoas galopa feito estouro de boiada e, com o ChatGPT escrevendo pelo vaidoso, todos querem “ser escritores”.

Ficou fácil, é só pagar.

É um novo filão editorial: explorar a vaidade alheia.
Oferecem o tradicional – revisão, diagramação, paginação, fazem a capa para você e, a depender do plano escolhido (e pago) te colocam até num estande na FLIP (feira Literária de Paraty).
Mas fazem também algo que eu mesmo gostaria de poder pagar: a propaganda do livro.
Não posso, não tenho um tostão e, por isso, achei grande sorte haver encontrado esta empresa. Você nada paga, mas faz tudo. Revisa, diagrama, faz capa e, inclusive, a propaganda.
E é aí que me lasco.

Minhas capas não são ruins, erros de português são poucos, mas a paginação e a propaganda sempre foram péssimas. Mancadas como começar um capítulo na página da esquerda ou contar com meia dúzia de amigos em redes sociais para divulgar ou comprar, é a receita do fracasso. Afinal, quem conhece Wilson Pagani, o cara que detesta multidões? Que, segundo alguns, até ofende seus leitores? Ou que teve a arrogância de abandonar o jornalismo pra se dedicar somente a contos, romances e até – vá lá que sejam – poesias?

Na verdade, a escrita é o caminho certo pra indigência. Todo escritor é um miserável, um fracassado que – das duas, uma – vomita seus recalques no papel ou estampa seu pedantismo de superioridade encadernado em capa dura. Se jornalistas, que podem arranjar emprego se jogarem sua dignidade no lixo, vivem na merda então é fácil imaginar o saldo bancário de um escritor. Faz lembrar os boletins escolares de minha juventude: sempre no vermelho.

Orgulho e necessidade não vivem sob o mesmo teto e o meu foi embora quando sequer um pacote de Miojo eu podia comprar. Pedi o Bolsa-Família, o mesmo que tanto escrevi criticando, quando ainda era um arrogante analista político. 
A fome falou mais alto, às favas com a coerência.

Passei a ser frequentador assíduo do SUS com meu câncer de pele e mesmo arrisquei se o CAPS – Serviço de Assistência Psico-Social – poderia amenizar minha auto-diagnosticada depressão. Mas saí de lá correndo, certamente ficaria pior do que quando entrei.

Acabei descobrindo que o serviço público é esquizofrênico. O sistema é montado para sermos tratados como lixo. Alguns funcionários nos tratam como lixo. Mas outros nos surpreendem com sua humanidade e gentileza. E por isso menti onde morava.

O pessoal do posto de assistência social em que fui me tratou tão bem que, após minha última mudança de endereço, permaneci dizendo que morava no mesmo lugar. Era isso ou ser transferido para uma outra unidade, verdadeiro açougue – eu já havia passado de ônibus em frente e vi o matadouro – e nenhuma intenção tive disso.

- Sr. Pagani?, perguntou a moça do CRAS.
- Sim?
- Se o senhor confirma seu local de residência, então está tudo certo. Apenas agora existe a determinação de que eventualmente apareça um fiscal por lá.
- Fiscal? Pra quê?
- Pra saber se o senhor tá vivo, se mora lá mesmo, essas coisas… disse ela, sorrindo sem maldade.

Me despedi também sorrindo, mas uma pulga passou a morar atrás de minha orelha.
Que se dane, pensei. Se não nos tratassem como bichos, isso não aconteceria. Se o fiscal aparecer lá, simplesmente digo que tinha saído pra fazer um bico.

O sistema nos trata como lixo e ainda nos ensina a enganar.

Bela merda.






sexta-feira, 17 de abril de 2026

ESFINGE -

 
Mulher não quer paz, quer intensidade. 
Para as mulheres, amor não é serenidade. É guerra, incerteza, desafio - o oposto de paz.

O que elas não conseguem decifrar ou controlar, este é o alvo de seu desejo.

Não se iluda: as mulheres não amam apenas o homem, elas amam como se sentem ao seu lado.
O homem deve, por isso, ser sempre um risco emocional para as mulheres.

Seja uma esfinge. 


Walter Biancardine

É O QUE TEM PRA HOJE -

 

Postei minha opinião sobre a imensa porcaria feita por Donald Trump mas esqueci de ser explícito: eu tinha que ter deixado claro que condenei a postagem da fotografia, feita por IA, onde o homem laranja aparece como Jesus Cristo. Isso é passar de todos os limites.

Mas o fato é que não fiz isso e muita gente estranhou, rosnou e até deixou de me seguir.

Na verdade, embora tenha reconhecido meu erro e editado depois, acrescentando esta informação, estou cagando pra isso. Quero que me leiam, mas não coleciono seguidores como fossem troféus. Qualquer um que baixe os olhos aos meus escritos sabe quantas vezes já postei que “não adianta combater demônios usando as armas de anjos”, e já disse também que não há na história nenhuma ditadura que tenha sido derrubada por seu próprio povo, sem ajuda externa. Mas não tenho qualificação para palpitar sobre o fechamento do Estreito de Ormuz ou mesmo sobre o estreitamento da uretra de qualquer Aiatolá. O que me revoltou foi ver um Donald “Jesus” Trump. Aí é demais.

Mas existe muita gente histérica. Passional. Burra e precipitada. São pessoas assim que endeusaram um Pablo Marçal só porque falou meia dúzia de chavões conservadores. O mesmo com Alexandre Frota. Os irmãos Weintraub. Idem com um monte de youtubers por aí, que são lambidos e considerados “referência” por essa turma. O fanatismo dessa gente é imediato e de baixo custo pra seus ídolos.

Passei anos sendo classificado como “conservador” neste perfil, por conta de minhas matérias postadas. Sim, apoiei e apoio Bolsonaro e jamais daria um bom dia sequer pra Lula e sua gangue. Mas chegou o dia em que enchi o saco da apatia geral e me arrependi de ter aceito este rótulo. E mudei meu perfil totalmente, abandonando de vez o jornalismo.

Agora quem escreve sou eu, e não o “jornalista conservador” que muitos querem repetindo suas próprias opiniões apenas pra expectorar, aliviar e irem dormir tranquilos.

E eu concordo com muitas coisas da direita e ignoro completamente – ou abomino – outras. 

Do mesmo modo, vejo sentido em algumas poucas – pouquíssimas – coisas da esquerda, e nada encontro de errado nisso.

Não sou o “conservador de Instagram”, direita-padrão. Não sou de esquerda, socialista ou qualquer coisa desse gênero. Não sou liberal e, muito menos, “livre-pensador” – essa asneira não existe. Nunca fui. Eu sou eu, só isso. Um cara normal, como todo mundo, cheio de defeitos e contradições. Só que não escondo.

Tenho metade de meus ossos quebrados em brigas, traí mulheres, subornei guardas de trânsito, me embebedei até cair no chão, xinguei Bolsonaro e suas “quatro linhas”, estou desempregado, tenho nojo do Alto Comando de qualquer Força Armada, falei mal dos outros, moro de favor, detesto multidões, meu nome está no Serasa, não tenho onde cair vivo – porque morto qualquer lugar serve – e existe uma longa lista de gente que me odeia. 

E se não odeiam mais, é por minha insignificância.

Isso é ser conservador? Isso é ser aquele homem certinho, arrumadinho, que paga as contas em dia, nível superior e pai de pet?

Essa gente se diz democrata e quer democracia, ama a democracia, chupa democracia mas não admite ninguém que tenha uma só linha de pensamento diferente dos mandamentos – que ele tirou sabe-se lá de qual youtuber. Isso é a democracia dele? Pensamentos em série? Xerox ideológicas? Fotocópias de opiniões? E se eventualmente divergem em um único ponto que seja, então excluem, bloqueiam, condenam, execram aquele mesmo para o qual batiam palmas ontem? Bela merda. “Os fãs de hoje são os linchadores de amanhã”, já dizia meu falecido amigo Cazuza.

Que se danem como me classificam. Que se danem se me seguem ou bloqueiam. A única coisa que sei fazer bem é escrever; sou escritor, eu vejo a vida e me revolto; o mundo, o sistema e a sociedade me dão náuseas, a apatia de todos também e hoje me limito a resistir calado. Abro minha cerveja, (meu Jack Daniel’s em dias melhores) e bebo. E depois escrevo. E bebo mais. E escrevo mais. E sorrio, quase com cinismo. Ou farei alguma merda.

Melhor escrever.

Quem me aceita como sou, sabe quem sou.

Quem me acha um nojo, sujo e vergonhoso, lembro que tenho redes sociais desde o Orkut, sempre fui a mesma coisa e nunca enganei ninguém. Apenas cometi o erro de aceitar um rótulo e, num processo quase stanislawskiano, vesti o personagem “jornalista conservador”.

Vou tomar uma cerveja, acender um Derby e ouvir Amado Batista. 

O velho Joaquim Teixeira vai comigo, ele e seu .38.

Qualquer dia, se estiver vivo e ainda houver alguém aí, eu volto.

Provavelmente de ressaca.


Walter Biancardine



quarta-feira, 15 de abril de 2026

O PROBLEMA É O SISTEMA -



Nessa briga ideológica entre fanáticos ideológicos lambendo Donald Trump e indigentes da fé acendendo velas para esse Papa, minha escolha é tomar uma cerveja e ignorar.

Trump fez coisas boas e por isso os "Sem Rumo" (ala conservadora e direitista dos "Sem Terra", que busca desesperadamente um líder que resolva seus problemas, pague suas contas e até cuide de Fluffy, pois são pais de pet) o endeusam como se ele fosse incapaz de fazer besteiras. Ninguém lembra que a essência de todo político - todo - é ser uma criatura feita basicamente de vaidade. E Trump é vaidoso. Pra cacete. E fez merda. Das grossas, com a foto de IA que postou.
 Não adianta buscar desculpas. 

Quanto ao Papa - se é que podemos chamar esse camarada assim; pra mim a Igreja é Sede Vacante desde o século XX - também é, do mesmo modo que Trump, um político. Desde a adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano, por Teodósio, que o papado é um cargo político. Do mesmo modo que Trump, Leãozinho é um poço de vaidades. Tal qual qualquer político, não chegou lá sem vender a alma ao diabo - o Banco do Vaticano que o diga - e tudo o que fez se resumiu a cumprir sua obrigação: defender o catolicismo contra a brutalidade blasfema de Donald, o vacilão. Mas os fanáticos religiosos - o "lado B" dos "Sem Rumo" - sequer se deram conta disso.

Não há inocentes nessa mixórdia. Nem Trump, nem Papa, nem mesmo os direitistas conservadores e cristãos, de joelhos ralados por tirarem fotos rezando, pra postarem no Instagram. Pois tudo é vaidade. 

O problema é o sistema. Ele sim, é podre e raiz de tudo o que é mal, ruim, nocivo, perverso. Se você vive numa ditadura e não se enquadra no sistema, ela te prende, te espanca, te manda pra Papuda e te mata. Se você vive numa democracia e também não se enquadra, ela te expele e te esquece. Basta ver os miseráveis pelas ruas. Você não tem mais casa, comida, roupa, dignidade e é apontado como fosse um gambá entre os cheirosos homens de bem. E, cá entre nós, entre morrer ou ser mendigo, a maioria prefere a indigência. E viva a democracia que salva vidas.

O sistema ocidental padrão - o cheiroso e limpinho, que todo mundo grita adorando - é a democracia, que é uma notória fraude. Não nas urnas, mas nas consciências, pois essa mesma turma que enxerga claramente a imbecilidade popular grita que todo poder deve emanar do povo - sim, desse mesmo imbecil. Portanto, a democracia é a fraude que eleva o imbecil ao poder, para que os carniceiros ocultos os controlem, arrombem a população e ninguém reclame - afinal, foi o povo que os colocou lá. 

O Padre Paulo Ricardo disse uma coisa muito certa, anos atrás: "o maior inimigo da Igreja não são os que a combatem, mas os que a compõem". E ele está certo. A Teologia da Libertação come solta nas paróquias de todo o mundo, católicos são massacrados nas republiquetas islâmicas da África e o Papa nada faz. Nada comenta. Nenhuma declaração contundente, veemente - são almas, Leãozinho! Almas! E então os "Sem Rumo" da ala trumpista chegam ao orgasmo quando líderes iranianos elogiam as críticas do Papa contra o Pato Donald: "estávamos certos!", gritam, orgulhosos de sua esperteza. Não veem que é política, é o sistema.

O trono de São Pedro sempre foi um cargo político. Do sistema.
A presidência de um país é um cargo político, do sistema.
Ser Aiatolá é cargo político, do sistema. 
A grande mídia - que embala tudo isso - é política, do sistema. 
E nós comemos - e gostamos - na mão do sistema.

O sistema é foda, parceiro.


Walter Biancardine


segunda-feira, 13 de abril de 2026

A QUEDA NÃO TERMINA QUANDO O POÇO É SEM FUNDO -

 
O dia, as noites e a morte são certos
feito o pé na bunda. Inevitável, inexorável 
após a data de validade vencida
sentimentos são impróprios ao consumo

Triste demais para seu sofrer
feio demais para sua ânsia de beleza
pesado demais para seus braços 
vida real e mulheres belas não dão liga

Medo e amor também não 
amor e cabana inclusive 
Não importam coincidências 
não importa o inexplicável 

Botequins imundos, gente ruim
bebedeiras, fracasso, miséria 
ninguém é obrigado a viver isso
Mas é meu mundo - não o dela

O pé na bunda sempre vem
e minha queda não tem fim
é sem fim por não ter fundo
o buraco em que caí

Ao menos me serve de consolo
ter sido esta a última queda
pois se não termina nunca
não haverá uma próxima 

Carros passam na estrada aqui em frente
e amanhã sentirei fome de novo
preciso de dinheiro pra arrumar o notebook 
e tomar umas cervejas

Enquanto caio
acendo um cigarro


Walter Biancardine 


NORMAL -

 
Ando pela estrada
Acostamento cheio
Par de sapatos salto alto
Caixa vazia de Tadalafila
Pino de pó 
Embalagem do Mc Donald's

A vida que os outros levam
Tanta coisa acontece
Coisas estranhas
Absurdas
Maravilhosas
Vergonhosas
Terríveis 

E nada tenho a escrever
O tédio de não criar
Cabeça vazia
Enquanto à minha volta
Pessoas enlouquecem
Se santificam
Cometem crimes

O que você faz
Trancado
Escondido em seu quarto?

Normal é só o que mostramos

 
Walter Biancardine


MAIS TEM, MENOS DÁ -

Chego no trabalho de manhã e meu chefe me chama pra tomar cervejas, antes das portas abrirem. Café da manhã de umas três ou quatro garrafas. Prenúncio de um bom dia - ou de um dia louco. Arrematamos com um "shot" da cachaça "Cana Caiana", mais suave e gostosa do que muito uísque que já tomei, e o trabalho começa. 

Em pouco tempo de comércio - principalmente quando o local lida com as vaidades e exibicionismos humanos - dá pra perceber que existem datas em que (no meu caso) o restaurante enche mais que o normal. Dia primeiro, pagamento em conta, lota. Dia dez também é dia de muita gente receber ou é dia dos mais prudentes, aquela raça seríssima, gastarem. Mas só após terem pago todas as contas do mês. E depois, lá pelo dia vinte ou vinte e cinco, é a vez da turma do cartão de crédito: a fatura já virou, só vai pagar no outro mês. 

Ontem foi dia dos seríssimos. Dos prudentes. Quase via conservadores do Instagram ao meu redor, chegando em seus reluzentes BMW, Mercedes, SUV's e picapes das mais variadas e caras marcas, bem como motocicletas indecentemente caras. Mesmas roupas, mesmos sorrisos, mesma expressão - ou falta delas - no rosto, quase as mesmas famílias. E as mesmas barrigas e bermudas. 

Pensei: hoje sairei de bolsos cheios, as gorjetas serão boas. Total do dia: sete reais.

É certo que as mãos mais generosas são as que menos teriam pra dar. Na Páscoa, restaurante repleto de fregueses comuns, saí recheado de gorjetas. Na verdade, nem sei por que isso ainda me surpreende. 

Tive canal no YouTube durante anos. Aquilo foi meu sustento. Mas o que segurava minhas contas era a monetização, nunca os raros pix enviados pelos que me assistiam. O brasileiro médio considera isso uma espécie de "gorjeta" - e para o tupiniquim padrão, gorjeta é algo que só os ricos dão. Ostentação. Símbolo de poder. E quem recebe deve agradecer de joelhos, como fosse esmola. Quando a plataforma me desmonetizou e roubou vinte e oito vídeos meus, fali.

Se enviar dinheiro para canais de vídeo é raridade - a não ser aos "influencers" famosos, para verem seus nomes lá - contribuir com páginas que oferecem apenas a monotonia da escrita é algo impensável. Tenho uma página pessoal desde 2007 e lá tem meu pix. Uma única vez um louco me enviou quinhentos reais - sim - mas descontando esse surto, nada mais. Nunca. Ninguém agradece o que leu ou incentiva escritores. Para o mediano, escrevemos por vaidade e prazer, portanto precisa ser de graça; sermos lidos é quase um favor que nos fazem.

Aprendi a lição. Semana que vem rezarei pra que o estacionamento esteja lotado de Uno 87, Marea, Del Rey, Monza e até alguns Chevette - não, me perdoem. Aí é exagero.

A verdade é que os que mais tem, menos dão. A menos que saia no Instagram. 

Terminei o dia tomando muito mais cervejas e convidando um fiel e antigo cliente, o sr. Nelson - ele é  o escritor que jamais leu um livro - para ser alvo da dedicatória de minha próxima obra.

Nesse momento, a ressaca é medonha.

Tudo normal, vida que segue. 


Walter Biancardine 




domingo, 12 de abril de 2026

RASPAS E RESTOS -



Pobre demais para ser de direita
Bêbado demais para ser conservador
Hetero demais para ser de esquerda
Preguiçoso demais para ter diploma

Um homem sem poder, fama, dinheiro,
Orgulho, status, beleza fisica
O que sobra pra ele?
Normalmente nada

Mas a teimosia fala alto
Nada tenho, nada posso, nada faço 
A não ser seguir a compulsão 
A insistência obsessiva em ser eu

E escrever,
Escrever,
Escrever

Isso sou eu
Pro melhor ou pior


Walter Biancardine 


sexta-feira, 10 de abril de 2026

MUDEI DE IDEIA -

Quem escreve e diz que é só pra si mesmo, que não precisa ser lido, é um hipócrita tal qual quem diz que não precisa de um artista pra nada.

Escrevo porque preciso. Me impede de me matar ou matar alguém.  É minha terapia. De graça. 
Mas não escrevo pra guardar na gaveta.

Eu quero ser lido.
Isso me ajuda e pode ajudar alguém. 

Decidi voltar a escrever para o No Ponto do Fato e para o ContraCultura.

Nada mais de política. Somente crônicas, contos, poesias aleijadas ou eu chamando meus demônios pra porrada.

Semana que vem recomeço. Os editores sempre se apiedaram de mim.
São boas almas.

Deixarei os links depois.


Walter Biancardine


MARIONETE


Eu era jovem, carioca, morava na zona sul do Rio de Janeiro. Não tinha um tostão no bolso e as garotas me desprezavam por minha feiura e personalidade estranha – sempre sozinho, calado, escrevendo, lendo ou desenhando. Mas era um privilegiado.

Nasci e me criei num grande apartamento a uns cem metros da praia. Podia me dar ao luxo de escolher entre ler Tácito ou pegar onda, dependia de quem estivesse na turma, na areia.

Normalmente escolhia ler, refletir, ruminar comigo mesmo trancado no quarto ou caminhando pelas ruas. Perambulava pela rua Barata Ribeiro, Galeria Menescal, Avenida Nossa Senhora de Copacabana e entrava na galeria do Cine Joia para ver os peixes no tanque. Depois voltava pela Santa Clara – onde eu morava – e dava uma rápida parada para comprar pasteizinhos na Massas Suprema, se tivesse alguns trocados.

Repleto de pensamentos acumulados nas andanças pelas ruas, eu ligava o rádio – “receiver”, como dizíamos. Na virada dos anos 70 para 80 a estação era sempre a Rádio Cidade FM, “102,9 no seu dial”, dizia o locutor. Era a melhor da cidade, nem precisávamos gravar fitas – e inevitavelmente comecei a fazer uma ligação entre o tipo de música que tocava e a meteorologia. 

Dias chuvosos, músicas românticas, melancólicas, muito rock inglês. Dias nublados, ainda músicas sombrias e até alguns flashbacks dos anos 60. Nos dias de sol era a pauleira de sempre: rock americano e grupos nacionais explodiam a torto e a direito com suas músicas anfetamínicas – o sol era a constante no Rio, assim a mídia o louvava como símbolo da juventude, alegria, descontração e muita pegação. Era a única maneira de tornar aquele maçarico abrasador algo simpático para o infeliz que trabalhava sob 40°, nos subúrbios.

E funcionava. Sorriam, suados e pingando, imaginando orgias na praia enquanto carregavam caixas do caminhão para o galpão.

Na TV a novela das sete da noite era dedicada a essa mesma juventude. Bandos de rapazes musculosos corriam para lá e para cá sem camisa, ostentando seus físicos e seguidos por belas mulheres, com bundas enormes, usando biquinis invisíveis à olho nu. Era o culto ao cio eterno, à euforia descontrolada batizada de “alegria de viver” e “jeito jovem”. Sim, a juventude era tudo. A infindável adolescência. Quem viu o filme “Menino do Rio” sabe. Servia como um balancete de nossas tardes juvenis, apagando a luz do sol e nos mandando entrar para tomar banho, jantar e se arrumar para a bela noite que prometia o sucesso.

E para nos arrumarmos e entrarmos nesse clima mais adulto havia a novela das 9. Sempre com personagens riquíssimos e sofisticados, muito bem vestidos e frequentando lugares que eram um “must” irmos algum dia. De lá saia nossa moda, a roupa que usávamos, os lugares que íamos, os carros que tínhamos ou sonhávamos – embora usando as gírias ensinadas pela novela das 7. E o clima musical da Rádio Cidade também mudava. Agora eram músicas densas – a maioria hoje clássicas, em eternos “revivals” – e embalavam a porta do Chevette sendo aberta para a “gatinha” com quem sairíamos.

O rádio modulava minha “vibe”. A TV me ensinava modas, modos e lugares além de como tratar as mulheres. E não há quem não tenha saído do cinema se achando um grande dançarino, após assistir “Os Embalos de Sábado a Noite”. Eu fumava Hollywood, e deixava o maço em cima da mesa do bar para dizer que eu era tudo aquilo que os comerciais do cigarro mostravam: surfista, piloto de asa delta, praticante de wind surf, tudo. Um fenômeno.

Na verdade, um marionete.

Eu e milhares de jovens da zona sul do Rio – ao menos – obedecíamos, ansiosos, os cordéis. Queríamos ser manipulados, adestrados, e quem representasse melhor o papel levaria a “gatinha”. O melhor ator seria o líder da turma – sim, haviam turmas de rua na época. O mais aplicado na farsa seria o destaque do bairro.

Fui um marionete e não me envergonho disso.

Não me envergonho de minha juventude imbecil – o papel do jovem é ser mesmo um imbecil.

Me envergonho é de ter desistido tão cedo, cedendo às evidências de minhas condições estéticas e financeiras, pois é nessa época que as networks mais sólidas se formam, apontando você para o mercado de trabalho em poucos anos. E meus tempos em alguma turma foram breves.

Tivesse sido eu um marionete mais aplicado; tivesse eu mais força de vontade e persistência na arte de ser ator; jogasse minha persona no lixo em prol do dinheiro e posição social e certamente eu não seria o escritor miserável de hoje.

Me agarro ao Jack Daniel’s e a frase “ao menos não me vendi”.

Consolo de merda.


Walter Biancardine