sexta-feira, 13 de março de 2026

FIZ UM CAFÉ FRESQUINHO


Poucas frases me tocam tão fundo quanto esta.

Um velho cascudo de mais de metro e oitenta se sente desmontar, com o cheiro reconfortante, quente como um abraço. 

A boa conversa com um amigo velho, de pé ao balcão do botequim.

A segurança de uma mãe, feito sempre e pontualmente às 5 da tarde.

E as frases com variações sutis, mínimas, a traduzir um mundo, uma vida, uma história:

- É isso... vamos pra casa tomar um café, diz o pai ao final de um longo dia junto ao seu filho.

Sempre importante é o momento de por ordem nos pensamentos. Ao suspiro profundo, segue-se a sentença - vou tomar um café. 

É o longo ponto e vírgula necessário aos que vivem da escrita. A pausa que arruma as ideias, sempre amparada por cigarros, café e a caminhada pela casa. E tudo se arruma como num passe de mágica, nos reabastecendo com disposição suficiente para varar a madrugada a catar milho nos teclados.

Mas o melhor de todos - aquele pelo qual temos a certeza de valer a pena estar vivo - é aquele comentário discreto em meio a uma conversa com a amada, algo quase casual mas positivamente convidativo:

- Fiz um café fresquinho...

É a deixa. A frase incompleta. O chamado. O coração de portas abertas.

Feliz do homem que ouve isso de sua eleita.

Que ele tenha juízo.

E dê o devido valor.


Walter Biancardine



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