quarta-feira, 1 de julho de 2026

OS BENEFÍCIOS DA SARDINHA EM LATA

 


Fui comprar comida
queria comer peixe
vi merluzas lindas
mas dá muito trabalho

olhei na prateleira
sardinhas em lata
muito mais prático
e barato também

só abrir e amassar
com maionese
tenho uma pasta
deliciosa e econômica

o objetivo final
era encher minha barriga
e consegui

igual ao dono da empresa
tirando você da lata
do sistema de ensino

você fica mais macio
é muito mais barato
e enche a barriga igual

as merluzas ocupam
diretoria e presidência




Walter Biancardine



CHEIRO DE RUA

 


Cedo ou tarde, quem escreve se dá conta que sua vida é bipolar.
Em um dos polos gasta dias, semanas e até mesmo alguns meses enfurnado em casa, feito um obcecado, desenterrando memórias ou ocupando paredes inteiras da vida com intermináveis equações, tentando explicar de maneira cinematográfica tudo o que se quer dizer.

Escreve o que lembra, o que viu, o que viveu, o que concluiu e – principalmente – páginas e páginas de uma enorme mentira que costura tudo isso, a qual batiza com o nome de “criação”.

O outro polo é a vida real – e, cá pra nós, quanto pior ou mais absurda for, melhor pra ele caso tenha talento.

Sim, é preciso talento para colorir manhãs de estômago vazio em uma conversa que conte, não chore. Há que se ter algum dom para fazer alguém entender o que é pensar no amanhã e concluir que o mesmo não existe – sem esperanças, planos, nada. É, de fato, missão quase impossível provocar a empatia de outros falando de misérias íntimas, de rejeição, de discriminação, incompreensão ou simplesmente repúdio. 

Não ter dinheiro pro almoço, não ter com quem conversar, contar quantos cigarros ainda restam no maço pra ver se duram até amanhã – ele se sai melhor ou pior na medida de seu talento ou da compreensão de quem o lê.

Existe, porém, um atalho que não costuma falhar e, por isso, tantos poetas e escritores acabam tomando: falar de amor. É a vaselina da empatia: facilita a entrada, cria a ressonância e gememos juntos; a dor de corno é universal. Funciona e, por isso, sempre é usada.

Seja um amor que se foi ou outro que nos ignora, essa agonia é soberana. E por isso domina o cancioneiro popular, os versos nas páginas de literatura ou mesmo as figurinhas vendidas em lojas – os mais velhos se lembrarão dos infalíveis bonequinhos “Amar é…” 

Também escrevo sobre o amor. Mas não como tábua de salvação do náufrago e, sim, como válvula de escape – dor faz pressão; ou escrevo ou explodo, simples assim. Mas este tema não domina minhas linhas. Navego melhor por botequins, acostamentos de estrada, ônibus lotados, calçadas sujas, empregos calcinantes.
E enquanto amores infinitos explodem nos poemas alheios, a hipocrisia e a imundície que escondemos vazam de cada linha que escrevo.
Não tenho a menor vergonha disso. 
Apenas um vício de jornalista: relato o que vejo.

Talvez por isso eu não seja benquisto. 
Não seja lido. 
Não seja citado.

Ninguém fala de calçadas sujas na hora do almoço. 
Ninguém cita o cheiro de esgoto em um papo no bar. 
Não porque não exista.

Mas porque conhecê-lo já seria uma confissão.




Walter Biancardine



LEMBRO DE GENTE E DE COISAS

 


grades feitas imperfeitas
de defeitos que me prendem
e lembranças que me soltam

os rostos lisos e sorrisos
amarelaram, apagaram, se foram
outros ainda enferrujam aqui
não sei

o que fiz vem à cabeça
o que não fiz ainda me dói
renderam sonhos acordados
e delírios apagados

e depois do horizonte
o passado sempre chama
a alma voa com as lembranças
o corpo fica com os erros

defeitos que me prendem
erros bons de cometer
liberdade condicional

memória e retratos
são janelas da cela




Walter Biancardine





terça-feira, 30 de junho de 2026

JÁ VIVI UM GRANDE AMOR

 


Para viver um grande amor
mister ser um homem qualquer
nem melhor nem pior
mas que ame a mulher

Pois eu vivi um grande amor, 
Fiz da amada minha morada.
Minha vida pela dela.
Era tudo o que eu tinha.
Deveria bastar.

Para viver um grande amor é preciso dinheiro
As moedas sustentam os sonhos.
E os sonhos levam 
sempre e sempre
à cama.

Mas tudo isso de nada adianta,
se uma mulher triste e com medo, 
não souber que pode ser amada

Então viver um grande amor
é coisa de louco
ou rico
ou dos dois

Eu não ando só.
Só ando em boa companhia.
Vou no meu busão,
sem ilusão,
quem sabe, um dia…


Saravá homem da graça
que chega e abraça
a garrafa da manguaça

porque beber e entender
sofrer e renascer
nunca é dor
nem é demais

saravá meu poeta
Vinícius de Moraes



DÉBORDANT D'ÉLÉGANCE


 

DISRITMIA E POESIA

 


Palavras soltas, loucas e bonitas
entram na fila Camila e Evita
deslumbradas e apaixonadas
por nada e nada e nada
nem ninguém
só palavras

rimas assim, seguem sem fim
entorpecentes, malemolentes
bala perdida que acerta alguém
nem tente explicar
só deixe sentir
sangrar

hipnose, magia e overdose
deixa dormente, quase demente
de que serve a razão?
coração em lobotomia
essa é a função
dessa disritmia



Walter Biancardine




DE GRAÇA

 


sou ridículo e gosto
tenho liberdade de ter
colarinho puído

sou inadequado
inconveniente
escroto
fracasso à vontade

não decidi ser assim
sou a nota que destoa
as roupas deles
não couberam em mim

mal sabiam que me davam
a alforria social
me livraram do mal

me tiraram do jogo
banco de reserva é macio
não preciso fazer gols
ninguém espera nada

nem tenho porta
ninguém bate
onde não ganha

vejo o jogo
de graça




Walter Biancardine



A BELEZA OFENDE

 


na rachadura do chão de concreto
e era muito concreto
e muito chão
eu vi uma flor
solitária

ali do nada e inesperada
brotou e cresceu
apareceu
se fez bela
ao sol

muito atrevimento exibir
suavidade no contraste
do concreto
flor enxerida
e má

humilhou minha feiúra
e invejoso fotografei
mandei pra amada
como fosse eu
não era

depois da foto a pisei
não há lugar pra beleza
nem delicadeza
num mundo de merda
e cimento




Walter Biancardine



SAIU DE CARTAZ

 


Parece filme
tanto quis ouvir um
“eu te amo”
só escutei agora
depois que morri

duas vezes me disse
mas só tenho uma vida
não cobrei juros
não foi gorjeta
foi amor

aguentei esse filme
chato e ruim
por sessenta e dois anos
quando quis ir embora
o final compensou

o filme acabou
o cine fechou
não tem mais suspense

foi longo e horrível
não veria de novo
mas ela disse “eu te amo”
e de novo
“eu te amo”

pena não ter
o beijo no final
eu já havia morrido




Walter Biancardine 




segunda-feira, 29 de junho de 2026

O BOM DA LOUCURA


em alguns momentos percebemos 
como é fácil enlouquecer
basta relaxar
cerrar os olhos
deixar um músculo ceder
e pronto: caímos no abismo da loucura

acreditar que morri
bom por não ter fome
não ser feio
nem comparado 
a ninguém

sem julgamentos
sem solidão
e não sofreria 
amores

é fácil e podemos chegar perto
alguns dias quase mandam
baixe a guarda
respire fundo
e enlouqueça

já experimentou?
pode ser gostoso
é tentador
então por que não faço?

pela vaidade
e teimosia
mais que teimosia
birra

sou uma criança birrenta
ainda quero
nem sei como 
mas quero

e sou vaidoso
loucos são feiosos
os outros fogem



Walter Biancardine





NINGUÉM ME AVISOU QUE MORRI -

 


Morri há quase dez anos. Em setembro de 2016, num acidente de moto.
Até hoje não o entendi, de tão besta que foi.
Passava por quebra-molas na estrada, devagar, e simplesmente desmaiei.
E quando acordei novamente, o inferno começou.
Já não era mais o mesmo eu.
E deixei de existir.
Para os outros e para o mundo.

Creio que perceber-me morto seja o maior lampejo de lucidez que eu tenha conseguido, nesses últimos anos. De lá pra cá, minha vida – chamemo-la assim – desmoronou.

Desci a uma miséria que jamais vivi. Perdi todos os meus poucos bens. Hoje restam um laptop – que é do meu irmão – e uma muda de roupa. 
E isso é tudo. 
Nada mais.

Nada.

Perdi a mulher com quem fui casado por quinze anos. E talvez o mesmo deus que a livrou de mim tenha afastado a única mulher que amei depois disso – sim, é um deus protetor. 
A poupou.

Olho à volta e não tenho amigos. Um sujeito comum não me quer como colega.
Também olho ao redor e percebo que nenhuma mulher aceitaria um velho, ainda mais agravado pelo fato de ser quem sou – um subproduto de tantas introspecções, delírios filosóficos e teológicos que tomei por virtudes. 
Não. Misteriosamente, uma mão invisível me moldou para que me livrasse da armadura, do verniz social.

E hoje me dei conta: não era questão de melhorar mas, sim, de me acordar e aceitar que eu havia morrido naquela tarde de setembro, em 2016.

O que vivo hoje, de tão miserável, mais parece pesadelo. Algo irreal, que facilmente entendo como condenação por tantos erros cometidos na vida. 
Isso faz sentido. 
Inferno ou, com sorte, purgatório.

Mas, e os livros que escrevi? Defuntos não escrevem livros. 
E a mulher que ainda amo? Cadáveres nada sentem.

Isso faz parte deste pesadelo. É o toque de realismo necessário para que a tortura funcione. Sim, cedo ou tarde, confirmarão minha morte e isso se tornará inegável. Finalmente, talvez, meus livros sumam e este amor deixe meu peito.

Tenho pena de minha ex-mulher. Só hoje entendo que ela é minha viúva.
Também tenho pena da mulher que hoje amo. Talvez nunca tenha sabido. 
Amou uma assombração.
Quanto ao meu filho, não sei se faço grande falta.

Já os parentes podem ir à merda. Nenhum deles se deu ao trabalho de me avisar que morri. Apenas agiram como se eu jamais houvesse existido. 
E só hoje entendi.
Talvez, até, tenham achado melhor assim.

Creio ser besteira esperar essa confirmação explícita de minha morte.
Afinal, hoje sigo como uma alma penada.

Penando.




Walter Biancardine




ESQUEÇA

 


olhar a mulher e pedir um abraço
um beijo e que fique junto
é mais honesto que escrever
fazer aquela choradeira
achar que vai comover

a mulher pode dizer não
bem na sua cara
e tudo se resolve na hora
escrever é protelar
viver às custas da demora

mais que protelar
é arrogância
enfeitar seu tormento
pensando que outros
verão algum talento

resta ter vergonha na cara
se não a encontra se cale
e não fique se exibindo
mostrando a todo mundo
o que você está sentindo

não fale
não sinta
esqueça
e não escreva

desapareça





Walter Biancardine




SUBORNOU-SE A SI MESMO

  


Seu Nélson – o escritor que nunca leu um livro – me contou. Se é conversa fiada, é dele.

Tempos idos, lá pelos anos 60 ou 70, sua esposa tinha uma confecção; ele, uma Kombi. Foram ao Centro da cidade, onde ela compraria tecidos e aviamentos. Enquanto ela fazia as compras, restou a Nélson a missão de encontrar uma vaga. Não encontrou. Parou em fila dupla.

Surgiu um guarda. Os antigos lembrarão da figura: quepe branco, pesando doze arrobas, andar paquidérmico. Advertiu Nélson, ainda dentro da Kombi e pensando na vida:
- A sua pessoa não pode estacionar aí, prejudica o trânsito…
- Sim, seu guarda. É que minha mulher foi ali comprar uns tecidos e o fardo é pesado. Não tem vaga, então fiquei aqui pra ajudar.
- Entendo… mas se a patrulha passar, vai dar “pobrema”…
- Te prometo que, se ela passar, eu tiro o carro daqui.

Ficaram combinados e o mamute fardado continuou sua caminhada.
A mulher de Nélson demorava.
O guarda voltou:
- A sua pessoa vai prejudicar a comunidade… a patrulha vai passar…

Nélson, vivido, se achegou ao guarda e começou a contar dos problemas que sua mulher causava com aquela confecção. O guarda, solidário, começou a segredar os que ele enfrentava com a sua também, até que nosso amigo escritor – que jamais leu um livro – propôs:
- Vamos fazer o seguinte: vamos ali no botequim tomar um café.

Lá chegando, havia uma vitrine lotada de salgados e sanduíches, que imediatamente prenderam os olhos do servidor da Lei. Malandríssimo, nosso escritor convidou:
- Pode escolher o que quiser! Coma o que tiver vontade e pegue uns pra viagem!

Naquele tempo, o "café do guarda" fazia parte da paisagem. Aceitou sem hesitar.

A conversa continuou. Reclamaram da vida, da mulher, do futebol, do Brasil, de tudo. Depois de tanto papo, confidências e até piadas, estavam quase se tornando compadres e só não pediram uma cerveja em respeito à farda.

Ao fim da conversa, o guarda já sobraçava os pacotes quentinhos e gordurosos e viu o português, dono do boteco, trazer a conta para Nélson – que se deu conta de um esquecimento:
- Rapaz… a minha mulher foi comprar as coisas, me pediu o dinheiro e eu dei a carteira pra ela… ela levou tudo, não tenho um tostão!

Silêncio. 

Nélson continuou:
- Paga isso aí que, quando minha mulher voltar, eu te reembolso!

Eram agora compadres, e o Rio era outro.

O guarda pagou seu próprio suborno.




Walter Biancardine




DE VOLTA AO CAMINHO

 


não faz muito tempo
eu tentava entender meus erros
não só pra melhorar mas
também por amor a ela
sim

entenderia o fim
não a pensaria injusta
podem ser boas razões

mas isso acabou
não tenho mais que entender
porra nenhuma
não me lembro de entenderem
a mim

não sou jovem
muitos dedos apontados
e isso cansa

se faço um balanço
vem o resultado engraçado
tudo sempre
foi culpa minha
dizem

o Ministério da Saúde adverte
eu faço mal à saúde
então melhor ser sozinho

como havia decidido
tempos atrás




Walter Biancardine






Receita do dia: DERRIÈRE AU GRATIN -

 


Pegue um quilo de pé na bunda
e escolha bem as partes. 
Use cortes ainda latejantes.

Fatie fino, quase transparente,
como coisa que a gente finge que esqueceu
mas continua guardada na gaveta de frios.

Tempere com ansiedade – pouca, porque estraga o resto.
Prefira angústia no lugar da pimenta, arde mais.
Saudade, essa vai no olho junto com o sal, sem piedade.

Acrescente mal-entendidos picados,
escolhendo aqueles que nasceram pequenos e cresceram tortos
só pra virar briga em dia de chuva.

Unte tudo com solidão,
gordura lenta que não sai nem com água quente,
e deixe cada pedaço bem coberto de desânimo,
banhado em esquecimento na prateleira da vida.

Leve ao forno em fogo máximo de velhice.
Não abra a porta.
Velhice não gosta de ser interrompida.

Asse por 62 anos
ou até que o cheiro pare de doer – o que vier depois.

Sirva frio com uma garrafa de Dor de Corno, safra do dia,
e talheres de memória ruim.

Leia o aviso na embalagem:
não contém cura.
Material reciclado.

Nos siga para mais dicas de baixa gastronomia.




Walter Biancardine



VIDINHA

 


Quero dormir.
Sem pensar, sem penar, sem o balancete de todas as noites.
O faço, dormindo ou não.

Queria apagar. Sumir. Desligar, só isso.
Des-existir.
Mas sei que não vou.
Grilos e sapos riem até o amanhecer.
Até me fartar. Até enlouquecer.
Só vejo paredes.

E odeio a mim mesmo.
Uma besta que ama. 
Um imbecil que sofre.
Um idiota que daria sua vida pela dela.

É por conta disso que não durmo.
Odeio balancetes.
Quero matar grilos e sapos.
E me escondo escrevendo.

Fosse eu um alcoólatra e estaria no chão.
Dúzias de garrafas ao lado.
Ou um drogado com sorte, uma overdose.
Mas são coisas demais pra uma vida pequena.

Medíocres só não dormem,
Resmungam, choram, rabiscam versos.
Só isso que fazem.

Sequer conseguem ser cafajestes.




Walter Biancardine



domingo, 28 de junho de 2026

PAZ

 


só peço paz
silencio e calma
afago e afeto
sorrisos

olho notícias
“morreu no local”
“deixou três filhos”
“tropas bombardearam”

e eventualmente
“quem vota nisso
é um imbecil
tem que morrer”

e eu só quero paz
silêncio e calma
afago e afeto
da mulher que amo



Walter Biancardine








FIZ UM ELETRO

 

É piscar os olhos
e cair do céu 
direto ao inferno

da felicidade plena
que nos estufa por dentro
ao vazio escuro
que leva o rumo

o problema
é quando tudo
repete e repete
até virar rotina

como será amanhã?
caminhar com anjos
ou fugir dos diabos?

montanha russa todo dia
enjoa e corrói e destrói
sobra um caco de gente

procurando uma faca
pra extrair todo o amor
de meu peito

melhor viver vazio
que louco e sem norte

nunca pensei
eletrocardiograma
é um garrancho do amor



Walter Biancardine



BRAÇOS ABERTOS

 


o Rio não te recebe
tem trancas
grades nos prédios
portas de aço

não tem banco
nas praças
sobrou a marquise
disputada
alugada
sangrada

e se faz a sujeira
em volta
calçada encardida
se pede dinheiro
na marquise

o Rio não te recebe
nunca recebeu
de braços abertos

é só uma estátua



Walter Biancardine




DOR EM CAPA DURA

 


verso filho da fome
hemorragia disfarçada
de conto

quentinha com Guaravita
fosse em Paris
seria vinho

estrofes fraturadas
capítulos enfartados
dor em capa dura

o SUS não atende
não dá atestado
não tem remédio

a agonia grita
sofre os hematomas
em verso e prosa

sem nenhum pudor

escrever não é limpo
letras pingam como sangue
histórias fedem

uma linha é muito
pra se ler
um livro é pouco
pra comer

cabelo desgrenhado
no bolso uma chave
dinheiro da passagem

o ônibus nunca vem

o defunto não se enterra
os livros ficaram
por aí




Walter Biancardine








sábado, 27 de junho de 2026

MÁQUINA DO TEMPO

 


Algumas músicas são
como máquinas do tempo
máquinas do quando
máquinas de sentir
de novo

do nada
de repente
nos pegam pelos cabelos
e nos levam de volta
a uma felicidade
que esquecemos

empilhando discos
na vitrola  
vendo caírem
um por um

tempo feliz
dias bons
pais e mães e irmãos
e proteção

é uma pancada
quando a música acaba
e voltamos ao hoje

alguns não tiveram
esse passado feliz
isso dói

eu tive
e ver de longe
sem volta

dói também



Walter Biancardine




ESQUECENDO O ÓBVIO

 


Não sou diferente de ninguém.
Quando leio os grandes escritores – Orwell, Hemingway, Virginia Woolf ou mesmo Camus – penso igual a todo mundo e tenho a certeza que tudo o que escreveram na vida foi obra de gênio – até a lista de compras do supermercado seria um best seller.

Mas não é a verdade. O mesmo homem capaz de escrever “Por Quem os Sinos Dobram” talvez tenha escrito muitas merdas – e vou além: merdas horríveis, inacreditáveis, agravadas pelo seu alcoolismo e depressão. 
Mas, diferente de mim, acertou o suficiente pra ser eterno.
E esta é toda a diferença entre o gênio e o medíocre.

Tempos atrás lia um Bukowski. Excessos, excessos, excessos.
Mas às vezes ele esquecia disso. E o gênio se fazia presente.
Toda a aflição do leitor escapava pela fresta entre duas frases do autor.
Isso é talento.

Não quero dizer que todo gênio tem um lado podre.
Meu objetivo é – isso sim – fazer quem me lê aceitar as porcarias que escrevo, na esperança que um dia eu mostre algo genial e ele possa dizer, com ar superior: “farejei o gênio antes de todos”.
 
Como se diz na rua Barreiros, lá em Olaria, o nome é “conto do vigário”.

Afinal, preciso vender meus livros.




Walter Biancardine