quinta-feira, 14 de maio de 2026

ELA -

 


Por quê dependo dela?
alguém que nunca vi
nunca toquei, cheirei
ou abracei?

as horas doem

por quê essa dor, essa falta?
se dela só tive a voz e pensamentos
que hoje são os tormentos
que não me deixam dormir?

lembranças doem

pois ela se foi
levou sua voz, seu sorriso
cada um deles um presente
embalado em papel do céu

planos rasgados doem

ela se foi, com tudo o que me dava
quase agradeço não tê-la tocado
não tê-la visto
mordido ou cheirado
ou teria me tirado muito mais

as noites doem

levou seu amor, sua atenção
e arrancou minha carne, minha alma
sem vontade de viver
incapaz de dormir
comer
entender

pensamentos doem

sou um dependente
um homem pela metade
com a melhor parte
levada por ela

a alma dói

me sobrou o pior
o sujo, o que a espantou

o coração dói

não há chances para mim



Walter Biancardine




A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE IRRITA -


Quer entender física quântica
condena remédios como fosse médico
palpita sobre detergente, sobre gente
faz vídeos como herdeiro de Olavo
ou justifica quarenta tipos de sexo

especialista em carro elétrico
sabe segredos de Brasília
tem a chave do sucesso financeiro
emocional, sexual, eventual
sabe de tudo e mais um pouco

acha que faculdade é arena
conscientizar primeiro, estudar depois
ou compara caminhada de políticos
com Jesus entrando em Jerusalém
como cabe tanto em uma só cabeça?

Se diz progressista anti-fascista
ou conservador contra a dor
seja lá o que for
é tudo igual, anormal
vivem pros outros, de favor

enquanto esquartejam inimigos
pelas redes sociais
sua casa desmorona

enquanto exibem seu sucesso
em fotos glamurosas
choram de noite, no banheiro

sabem tudo, não enxergam nada
tudo embalagem, eterna roupagem
não importa o conteúdo e sim, a imagem

tanto tempo não se enxergam
não olham quem está ao lado
que não conhecem ninguém
nem mesmo a si, olhando as redes
dopado, travado, parado

a vida passou
ele morreu
mas nunca soube
que um dia viveu

deixou um pet órfão


Walter Biancardine




FICA -

 


tem mulher
que entra na sua vida
como quem entra num bar vazio
numa terça-feira chuvosa

olha em volta
vê as cadeiras tortas
o chão grudando no sapato
o velho ventilador fazendo mais barulho que vento

e mesmo assim

apesar de tudo
fica

ela é dessas

ela chegou
com jeito de quem pede desculpas
até quando sorri
como se felicidade fosse crime
e amar fosse atravessar uma avenida
com os olhos vendados

eu percebi rápido

ela foge

não de mim.
isso seria simples demais

ela foge quando a coisa começa a ficar bonita
quando o beijo demora meio segundo a mais
quando a conversa entra madrugada adentro
quando percebe que alguém finalmente te olha
sem vontade de te usar
sem vontade de vencer discussão
sem vontade de posar de homem moderno

ela foge
porque sabe

que amor de verdade
não tem filtro bonito

amor de verdade
é feio às vezes

é gente cansada dividindo silêncio
é cigarro na janela
é remédio em cima da pia
é um olhando pro outro
com a cara destruída pela vida
e ainda assim pensando:
“fica”

e eu quero que ela fique

não porque eu seja herói
não sou

já fui derrubado pela vida tantas vezes
que hoje caminho torto até dentro de casa

tenho mais cicatrizes que esperança
mais fracasso que fotografia sorrindo

mas quando ela fala comigo
esse mundo miserável
essa fábrica de gente vazia
esse açougue moderno de relações descartáveis
fica silencioso por alguns minutos

e isso, mulher…
isso vale mais que salvação

eu não quero prometer praia
vida de Instagram
frases motivacionais
nem eternidade

eternidade é conversa de padre bêbado
e poeta querendo comer alguém

o que eu posso prometer
é presença

vou estar ali

sempre
quando o medo mandar ela ir embora

vou estar ali

sempre
quando ela inventar briga por coisa idiota
só pra testar se eu desisto

vou estar ali

sempre
quando ela disser
“é melhor parar por aqui”

porque no fundo
eu vou ouvir o que ela realmente quis dizer:

“por favor
não me ignore, não me use igual os outros”

e eu não vou

talvez um dia ela acorde
olhe pra mim
pra minha cara cansada
pras minhas mãos velhas
pro meu jeito bruto

e perceba uma coisa terrível:

ninguém nunca a quis tão inteira

nem tão viva

nem tão humana

e talvez ela chore

não de tristeza

mas porque passou tempo demais
tentando sobreviver
quando tudo o que precisava fazer
era deixar alguém a amar



Walter Biancardine




VAZIO FAZ ECO -

 



tem dia que é foda

não sei se é ressaca

ou minha cabeça, que tá mal


mas tudo encrenca

você pede, você tenta

e no fim

fecham a porta na sua cara


ninguém te ouve

ninguém te vê

feito fumaça de cigarro

eles atravessam

torcendo o nariz


eu ligo

deixam tocar até morrer

peço e “hoje não tenho”

ofereço e não querem

ou ignoram


o sol lá fora é o mesmo

os carros passam iguais

o mundo segue sua marcha

e ninguém sabe de você

saber pra quê?


o pior é a ironia

vez em quando ouvir perguntas

por onde andei, que eu sumi

mandar à merda vem à boca

mas sorrio


mas o que era sina virou gosto

falar sozinho é rotina

beber sozinho também

virei meu melhor amigo


hoje vou almoçar comigo

o cara é gente boa

vocês precisam conhecer

cara legal


só paguem a conta pra ele

inventou de escrever

de pensar, olhar

isso não é coisa de pobre


quem escreve é rico

não precisa trabalhar

pobre não lê, só escreve

quando manda currículo


e muito menos pensa

só por isso sobrevive


Hemingway deu um jeito

Janis Joplin também

tudo gente que gritou

o tempo passou

e tudo igual: ninguém


mas eu ainda tô aqui

um péssimo hábito

sobrevivi


Janis e Hemingway, não



Walter Biancardine





quarta-feira, 13 de maio de 2026

MACHO ÔMEGA -

quem é o juiz

entre um homem e uma mulher?

é a fraqueza

ela aponta o perdedor


o perdedor é sempre o homem

arrogante predador

que cerca, faz graça, fala bobagem

e no fim pede, implora


quem pede, perde

quem concede, ganha

esse é o jogo do amor


já começamos perdendo

achando que ganhamos

quando não passa de concessão


nos concederam o direito

de pedir em namoro

de pedir ir pra cama

de pedir pra casar


nos concederam o direito

de calar a boca

pra não piorar

se esconder no banheiro e chorar


nos concederam o direito

de encher a cara no bar

escrever besteiras

chorar com músicas

testa, cotovelo e bunda

causa mortis do homem


e o arrogante que a cercava

que era o melhor

o mais esperto

mais sabido

mais bonito

cata migalhas no chão

vigia foto no WhatsApp


testa, cotovelo e bunda

chifres, dor e pé

basta um só deles

pra liquidar o pavão


pois toda a felicidade do homem

depende de um simples

sim ou não



Walter Biancardine





OS CÃES SEMPRE PRECISAM DE UM BÊBADO -

 


condenado pelo passado
o que é engraçado
porque o passado geralmente é só
uma pilha de contas velhas
mulheres cansadas
e gente da família
apontando o dedo
com bafo de intriga requentada

criticado no presente
porque o presente é um açougue
e todo mundo quer vender
um pedaço da sua carne
como lição de moral

desacreditado no futuro
isso foi meu favorito
o futuro
essa puta manca
que nunca apareceu aqui em casa

meu nome?
não importa

serve apenas nos almoços de domingo
como exemplo do que não fazer:
“não beba”
“não escreva”
“não abandone empregos”
“não fique sozinho”
“não pense demais”

e eles dizem tudo isso
com os olhos mortos
de quem acorda há 30 anos
pro mesmo despertador

é engraçado ouvir isso
de gente que odeia a própria vida
com a disciplina de um relógio suíço

não existe conversa sobre mim
sem uma pequena execução pública

se eu errei, apontam
se eu acertei, silenciam
o silêncio é a vaia educada da família

isso vindo de pessoas
que tremem
quando o wi-fi cai
por cinco minutos

dizem que minha vida é fácil
claro
não bato cartão
não sorrio pra gerente
não vendo a alma por vale-refeição
e uma confraternização de natal
com frango seco e música ruim

então acham que estou de férias
não veem as noites sem dormir
não veem os remédios
a bebedeira
não veem o cansaço grudado no osso
não veem a vontade diária
de mandar o mundo inteiro
enfiar a própria opinião
no fundo do cu

mas precisam de mim

toda família precisa
de um fracasso oficial
tudo bem

as pessoas precisam sim

precisam de alguém
pra apontar na mesa
entre a farofa e a sobremesa

“olha ali”
“terminou daquele jeito”

os cães sempre precisam
de um bêbado na rua
pra latirem juntos

um sujeito meio torto
para os outros parecerem retos

sou o espantalho emocional deles

sem mim,
teriam de olhar
pra própria mediocridade

e isso, meu velho,
assusta muito mais
do que um bêbado sincero

então não perca seu tempo comigo

não sou amigo
mentor
exemplo
nem inimigo digno de filme barato

sou apenas um homem cansado
tentando atravessar a própria fumaça
sem pedir licença
a ninguém


Walter Biancardine 



domingo, 10 de maio de 2026

MENOS LONGE -

E quando menos se espera
um coração volta a bater

quando menos se espera
o sorriso pode voltar

quando menos se espera
a distância diminui

quando menos se espera
o ceticismo diz "amém"

quando menos se espera
resolvemos esperar


Walter Biancardine 


sábado, 9 de maio de 2026

TRAJE ESPORTE FINO -

 


Já me preocupei com o que vestir, que impressão iria causar.
Escutava que a roupa é o cartão de visitas de uma pessoa, sua aparência define como vão te tratar.
De um modo geral estão certos. 
Concordo com essa regra, desde que pros outros. 
Não pra mim.

Não frequento altas rodas de negócios nem reuniões de trabalho – meus bicos se resumem a cortar árvores, carregar troncos, rastelar gramados, receber pessoas no restaurante de seu Dail e minha profissão é escrever, algo que é solitário por natureza.
 
Tirando a ocupação no restaurante, nenhum dos outros trabalhos me exige boa apresentação. E ter nascido escritor também me fez perceber que o que falo define muito mais quem eu sou do que aquilo que visto. 
Uma lástima, já que as pessoas sempre veem mas nunca escutam.

Desde jovem eu já andava desleixado – a menos que houvessem mulheres perto. Aí eu tentava dar um jeito, mas nunca consegui enganar meu espelho. 
Logo desisti.

O jeito esmulambado que ando serve pra mim – nada espero, não há quem seduzir nem tenho emprego – mas não pros outros. 
Digo isso porque nossas ruas já são feias o suficiente.

Sempre fui assim. 
Parece que estou piorando, com a idade.

E por falar em idade, muito menos tento seduzir alguém. 
Se eu fizer uma cara sexy para uma mulher, ela vai ligar pro SAMU pensando que estou tendo um AVC.

Sim, a piada é velha.

Como eu.


Walter Biancardine



sexta-feira, 8 de maio de 2026

BAR SÃO JORGE -

 


Sentado sozinho
eu e as garrafas
que molham tudo
e pingam na calça

Mesa de plástico
cadeira de plástico
coração de papel
não pode molhar

Peço um salgado
um cachorro vem junto
guardanapo e focinho
estou sozinho

Agonia não passa
traz outra cerveja
molha a mesa
guardo o cigarro

O coração fica
não tem onde guardar
cachorro abana o rabo
não tem onde ficar

Nem eu
nem eu, meu amigo
nem eu

Coração desmanchou
o cachorro ficou
não estou mais sozinho

Me fazem companhia
garrafas de cerveja
e um focinho

Ele não tem pra onde ir
nem eu, meu amigo
nem eu


Walter Biancardine



CASAL DIGITAL -

 


Segurava sua mão
Olhava seus olhos
Beijava sua boca

Mãos tremiam
Olhos embaçavam
Bocas molhavam

Sentia seu cheiro
Cheiro de nervoso
Com perfume bom

Sua voz tremia
Medo e vontade
Acontecia

Olhe em volta
Ninguém olha
Só pra si mesmos

O amor morreu
Distância em tudo
Mas tem mil seguidores

Um casal de sucesso
Não se toca
Não se olha

Não se ama


Walter Biancardine



DIAS NUBLADOS E MUDANÇAS -

 


Diz a letra de uma música que "cariocas não gostam de dias nublados". Mentira. Sou carioca da gema e gosto.
O dia mais fresco, brisa fria e até uma garoa me tornam mais reflexivo, calmo, quase em paz comigo mesmo. O suor é uma abominação. Só na cama, em companhia da eleita. 

Prefiro escrever em dias nublados ou chuvosos, se não puder escrever à noite. A coisa estranha disso tudo é como mudei. Gostava de sol, embora nunca do calor. Detestava entardeceres - e agora amo. Abandonei meus contos, romances, poesias. E voltei a eles, filho pródigo que gastou tudo na orgia política.

A tal ponto mudei que meus últimos entardeceres os gastei terminando meu livro - nunca mais política, filosofia ou teologia - um estranho misto de contos, crônicas e poemas. Uma salada, vamos ver se aprovam essa mistura.

Sim, tal como meus livros "Pretérito Perfeito", um romance, e "Gislaine dos Três Verões", coletânea de contos, reuni algumas poesias, contos e mesmo crônicas, que nem de longe abordam aquilo que me fez conhecido pelos meus seguidores.

Irão comprar? Se comprarem, gostarão? Ou deixarão de me seguir, comprando ou não o livro?

Não sei. O que sei é que não posso mais continuar traindo a mim mesmo, mantendo a antiga e frustrante vida de falar apenas para uma bolha de já convertidos. O que eu tinha a dizer, já sabem. E se não sabem, nada valeu a pena. Por isso volto aos romances, contos e poesias.

Em breve pretendo lançá-lo. 

Vamos ver se levam fé.


Walter Biancardine 



quinta-feira, 7 de maio de 2026

JÁ GASTEI, AGORA É TARDE -

Não sei o que é pior: viver em uma terra onde tudo pode ser pirateado na cara dura - Brasil - ou ter a autoestima mais baixa que a altura dos rodapés da minha casa.

O caso é que estou terminando os últimos preparativos para meu novo livro - o sétimo, número cabalístico - e me vi às voltas com procedimentos como o registro da obra, ISBN, ficha catalográfica e código de barras.
Tudo isso preserva meus direitos. Resguarda minha autoria.
Impede cópias não autorizadas.
E custa dinheiro.

E minha autoestima, metros abaixo do nível do mar, me fez pensar: "mas quem diabos iria me copiar?"
A verdade é que, pra um ilustre desconhecido como eu e - pior - dotado de talento apenas mediano, gastar dinheiro com essas proteções soa quase como arrogância, algo típico de um metido, alguém que "se acha".
Mas paguei. Sou um boçal.

Agora é ver se o tal livrinho vende, ao menos quantidade suficiente pra eu me ressarcir dessas despesas de soberba.

Vamos ver que bicho dá.


Walter Biancardine


quarta-feira, 6 de maio de 2026

LINHA DO EQUADOR - Um poema da quinta série -


Queria ser um trator
e esmagar as pedras em seu caminho
ou toneladas de areia
tornando os buracos impossíveis de cair

Queria ser um polvo
estendendo quantos braços precisasse
e te envolvendo em um abraço 
impossível e infinito

Queria ser seu travesseiro
com sua cabeça a sonhar
secando as lágrimas
colhendo seus sorrisos

Mas sou só um número
na agenda de seu celular
uma voz sem rosto
existo mas não sou visto


Walter (cheio de espinhas)


POR DO SOL -

 


Andava agora à noite pelos pastos. Faço sempre isso.
Longe, no poente, ainda um ligeiro clarão vermelho, quase apagado, que nada ilumina mas mostra o oeste e faz do céu um quadro de Rembrandt - claros e escuros impossíveis de reproduzir.

Vi minha primeira estrela, e fiz o pedido. Depois veio Vênus. e mais outras. E outras. A imensidão do céu enegrecia e brotavam estrelas que não se pode ver sob a luz das cidades.

Muito longe, à direita do nascente, um vago claro apontava Cabo Frio. À esquerda, o Segundo Distrito e Barra de São João. 
Longe, indiferente diante das horas, pastavam bois, vacas e cavalos. Mais cavalos. O gado tem hora de se recolher.

A vastidão do céu nos curva em direção à humildade.
E eu ali, só eu, sem ninguém pra compartilhar aquilo. 
Não posso dar tal grandeza de presente, mas poderia dividir o deslumbre com alguém.
Mas não havia ninguém.

Se não dividem minhas dores, também é certo que não participam de meus prazeres.

A dor, a agonia, nada disso é diário - embora muito mais frequente que gostaria. Mas o por do sol é.
Sempre.

E, enquanto eu estiver aqui, sozinho, só pra mim.


Walter Biancardine



NASCI DOENTE -


Ninguém se torna escritor. Se nasce assim.
Tal qual nascer com pés chatos, desvio na coluna ou miopia. Eu sei porque nasci com esses quatro defeitos: sim, também nasci escrevendo.

Um escritor vive uma vida esquizofrênica, e precisa lidar com ela tal qual alguém que é bissexual. Se é casado, vai trair a mulher com um homem. Se estiver com um homem, vai traí-lo com uma mulher. Se é escritor, vai trair sua escrita sendo balconista de uma loja. E se for balconista, vai trair seu emprego gastando as noites escrevendo.

É um defeito de nascença, uma praga genética que condena o infeliz a ser sempre um miserável, pobre e espancado por alguns casamentos. A imaginação não cabe nem mesmo em Bodas de Ouro. E quem pensa demais não casa. A não ser gente com tendências kamikazes como eu, que atira o coração deliberadamente contra o costado de um navio chamado “Amor”. 
Morte inevitável. 
Sobra o fígado, com cirrose.

Ser escritor não é profissão, é sina. E das piores. Se seu filho ou neto se mostra muito à vontade escrevendo redações, dê a ele um celular, computador, tablet – qualquer coisa que esvazie a pobre cabecinha de tais pensamentos. O final é sempre a indigência, solidão e bebedeira.

Sim, existem Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Graciliano Ramos, Érico Veríssimo – mas gente assim são as infalíveis exceções, que somente servem pra comprovar a regra.

Escrever também é como um vício: ou você escreve ou morre. 
Ou mata alguém. 
Ou enlouquece. 

E esse povo hoje, que posa de “escritor” deixando tudo nas mãos de um ChatGPT e enche os bolsos das editoras pagando revisão, diagramação, capa e até noite de autógrafos na FLIP, não passa de vaidosos. Para eles, escrever um livro é como comprar um carro zero. 
Vaidade. 
Só pra agregar valor. 
Nada sofrem. 
Nunca sofreram.

Se seu filho é bom em redação, dê uma surra de chinelos nele e diga – desta vez cheio de razão – que é para o bem dele.


Walter Biancardine



domingo, 3 de maio de 2026

INTERNAUTAS ANÔNIMOS – O vício em dopamina

 


Temos os Alcoólicos Anônimos, que por frescura deixou de usar o termo alcoólatra, e temos mesmo algo semelhante voltado aos viciados em drogas e jogatinas. Como hoje em dia um negócio em alta é inventar doenças, existem também grupos de apoio às mulheres que amam demais, aos viciados em sexo, em descabelar o palhaço no Xvídeos e até em comer cachorro-quente. 

O caso é que já passou da hora de fundarem um grupo de apoio aos viciados em internet – leia-se “viciados em um orgasmo de dopamina a cada quinze segundos”, pois os reels, vídeos do Tik Tok, tweeters ou o tempo que se leva para ler o primeiro parágrafo de uma postagem no Facebook e dar uma resposta furiosa é exatamente esse: quinze segundos.

Na era pré-internet sabíamos das coisas lendo jornais, ouvindo comentários nos botequins, salas de espera do dentista ou mesmo das vizinhas fofoqueiras. E isso tinha seu tempo próprio, um ritmo normal, humano, potável. Um boato por mês? Um escândalo a cada quinze dias? Uma nova fofoca toda semana? Sem problemas, tudo digerível, avaliável, julgável e – principalmente – sabidos de forma absolutamente passiva: sabíamos, nos escandalizávamos, comentávamos com o fofoqueiro e pronto, morria aí o assunto.

Hoje não. Hoje somos “celebrities das redes sociais”, não podemos decepcionar nosso público se não postarmos nossos comentários furibundos e dar a todos o merecido orgasmo de quinze segundos. Sim, somos ídolos. Temos públicos. Viramos, todos, artistas. Até nossa casa é mostrada em fotos, junto com as férias na praia ou o prato cheio na churrascaria.

A verdade é que somos todos doentes, e não nos demos conta.

O viciado nunca admite o vício. O paranóico jamais admite sua patologia. E a cura, infelizmente, será compulsória – tal como a dos citados.

Chegará o dia em que teremos uma guerra. Uma guerra não, uma hecatombe, uma catástrofe – é questão de apenas esperar. E neste dia as redes ficarão fora do ar. Bombardeios, explosões, tudo isso levará pelos ares nosso mundo de fantasias. Deixaremos de ser “celebrities” e passaremos a ser novamente pessoas comuns. Pior: refugiados. Sobreviventes. Nenhum glamour. E sem instagram.

Some as horas em que você passa na internet. Pese quantos quilos de fúria você engole ao ler postagens que te desagradem. E veja o que sobrou de sua vida, de sua cabeça, de sua paz.

Mas sei que perco meu tempo. Eu mesmo estou aqui, na internet.

Mas ao menos jamais escondi meus tombos.

Eu bebo. Eu fumo. E uso a internet.


Walter Biancardine



DONO DE ESCRAVOS -


Princesa Isabel assinou uma lei.
Libertou o povo das senzalas mas a República os prendeu na favela.

Então o brasileiro descobriu que podia ser empresário. E o governo escravizou os empresários, arrancando suas bolas através de impostos. E os empresários escravizaram os empregados pagando salários ridículos – senão o lucro acaba, dizem eles.

Cabeças de merda, nunca imaginaram que seus empregados poderiam ser também consumidores de seus próprios produtos. O lucro acaba, sempre repetem.

Aqui nunca existiu classe média. É a que consome, a que paga impostos.
Não. Aqui, pobre paga imposto também. Aqui se vive da pobreza, da miséria e dos funcionários das estatais e servidores públicos. Aqui se vive da Corte.

Sujeito trabalha o dia todo e seu salário, dividido pelos trinta dias do mês, não compra um frango assado. Escravidão tão boa que vieram as multinacionais – era preciso explorar também. Eles sim, sabem explorar, oferecem alguns mimos e deixam o cativo feliz e se sentindo superior.
E a Corte descobriu que miséria dá voto. Sempre deu. Sempre imploramos por heróis, as novelas da TV mostram isso.

E a Corte quase extinguiu o salário, trocando o contracheque por vale-transporte, vale-gás, bolsa família, bolsa escola, passe gratuito pra idosos, pra deficientes, farmácias que dão remédios gratuitos (comprados pelo Governo em licitações fraudadas), programa Minha Casa Minha Vida – no fim das contas, você descobre que trabalha a troco de casa e comida. Tudo dado pelo governo, comprado com seu dinheiro de impostos. E os empresários nada pagam, além de uma carga tributária trabalhista que esfola o pequeno comerciante. Mas ajuda as grandes empresas, elimina a concorrência.

Aqui, grandes empresas são feudos. Nelas trabalham os privilegiados. Somos servos da gleba e ainda não saímos da era feudal, embora jamais tenhamos atravessados uma Idade Média.
Mas as igrejas nos amansam. As músicas excitam e fazem esquecer a fome – e a vergonha na cara também. As novelas hipnotizam, condicionam e desviam a atenção. O futebol é nosso Coliseu, e o pão e circo come solto.

Se trabalha a troco de teto e comida, a ração é futebol, carnaval e novela e vivemos na senzala do tráfico. Tudo isso pra que, a cada eleição, surja um vigarista prometendo que tudo vai mudar.
E ele se elege. E nada muda, nunca.

Mas a gente acredita. Daqui a quatro anos, vem outro.

Vivemos na Idade Média e tiramos onda de modernos.

E fotos pro Instagram, também.


Walter Biancardine










sábado, 2 de maio de 2026

BRASILEIROS E BRASILEIRAS -


Ouçam o que digo
Tomem energéticos
Comprem um copo Stanley
Fiquem no vídeo game até amanhecer

Sejam pais de pets
Mães de plantas
Amorosos herbívoros
Soltem pombas pela paz

Abracem a lagoa
Deixem a barba crescer
Arranjem um coach
Façam cursos de tudo

Chorem no Zap
Tirem a foto do perfil
Se ofendam com o que digo
Comprem um Renegade

Abominem o cigarro
Não bebam álcool
Só energéticos, anfetaminas
E soja transgênica

Proíbam os homens machos
Banheiros pra quem quiser
Mulheres pagando
Anúncio de margarina

Matem os velhos
Abortem crianças
Prendam os brancos
E héteros

A vida é de vocês
E podem fazer o que quiserem
Só nunca mais se metam
Em política nas redes

Ou na vida.


Walter Biancardine