sábado, 6 de junho de 2026
sexta-feira, 5 de junho de 2026
PENA DE VIDA
vontade de ir embora
mas não tenho pra onde
vontade de recomeçar
mas não tenho como
nem com o quê
vontade de sumir
mas lá já tá ocupado
vontade de acordar
e só ter sido um pesadelo
mas nunca mais dormi
farto de tudo
não me suporto
nem um segundo a mais
o passado me irrita
o futuro exaspera
o presente me enoja
não há quando
onde
como
ou porquê
só há essa prisão
pelos crimes
da minha existência
o atrevimento
de existir
condenado à solitária
perpétua
uns dias me desespero
noutros, fico apático
ainda reajo
isso é péssimo
tenho de parar
que Deus tenha piedade
e me conceda
parar
de tudo
Walter Biancardine
KEEP WALKING -
E penso seriamente
em seguir seu conselho
O importante
é dar um passo à frente
Walter Biancardine
DINAMITE
então chega um amor
dinamita a rocha
reduz tudo a escombros
e pó
junta água
nos torna barro
e molda nossos sentimentos
na forma do seu amor
depois pergunta,
na cara de pau:
"o que aconteceu com você?"
Walter Biancardine
AQUELES DIAS -
acordamos nos vales, nos abismos
tudo o que queremos é companhia
a gentileza pede algo em troca
o favor espera pagamento
o sorriso cobra outro
ou ao menos conversas
o mundo parece imenso
e eu, uma formiga
formiga do job
oferecendo companhia
mas em volta só o vento
e uma multidão de fantasmas
que povoam o deserto
e fazem ele mais vazio
gosto de sol e gosto de chuva
do deserto e amigos em volta
e comigo no nada
quero todos os contrários
ao mesmo tempo, em agonia
solidão enobrece
ou enlouquece
nos faz sermos tolos
por 1,99 na beira da rua
implorando atenção
que só vem no desprezo
resultado é a raiva
não do mundo – ele é isso
mas de mim e minha burrice
que me fez um prostituto
pago com atenção
em cheques pré-datados
“semana que vem conversamos”
Walter Biancardine
quinta-feira, 4 de junho de 2026
FEBRE
de acender lâmpadas em quartos vazios
não importa quantos livros na estante
números salvos no telefone
sorrisos em fotografias
bastam trinta e oito graus
e pele ardendo
para descobrir a verdade
a cabeça pesa
o cobertor pesa
a casa inteira pesa
e o sujeito percebe
há doenças
que doem menos nos ossos
que nos espaços entre os móveis
a febre só pede
um café
mão na testa,
um colo dizendo
"vai passar"
mas a porta continua fechada
a cozinha continua distante
e a chaleira não se oferece
pra ferver sozinha
a noite cresce
o relógio recusa os minutos
o termômetro sobe em deboche
o homem na cama
escuta só o próprio coração
cumprindo expediente
a solidão da febre é só dela
não a dos abandonados
nem a dos viúvos
nem a dos exilados
é precisar de colo
num mundo que não liga
a cidade continua funcionando
ônibus passam
padarias abrem
casais discutem
crianças nascem
alguém é promovido
outro perde o emprego
e nada diminui um só grau
no termômetro da madrugada
a febre segue queimando
como a última fatia de carne
esquecida na grelha
depois da festa
já comeram
já foram embora
a brasa ainda vive
torra sozinha
estalando baixinho no escuro
até que não reste mais nada
além de fumaça
nem sempre a febre mostra doença
às vezes só diz
quem viria trazer um café
e quem não
Walter Biancardine
segunda-feira, 1 de junho de 2026
A ROTINA É CÍNICA -
me afundo em angústia
ou agonias transbordam
o dia amanhece igual
pessoas morrem ou nascem
demissões e pés na bunda
o ônibus continua lotado
gente se casa ou separa
descobrimos doenças
que vão nos sepultar
e porteiros lavam as calçadas
entendemos o sentido da vida
ou percebemos que nunca houve nenhum
mas a luz é cortada do mesmo jeito
varamos a noite em poesia
amores se tornam eternos
mas se acordarmos tarde
o pão acaba na padaria
escrevo tudo isso e percebo
o mundo não liga ou se importa
a rotina da vida é cínica
ela tem o desplante
de nunca mudar
Walter Biancardine
REPRISE -
alguns dias parecem filmes velhos
que já vi desde sempre
conheço os tipos, as cenas
sei como termina
alguém conta uma piada
que aprendi antes dele nascer
alguém dá uma risada escandalosa
que já previ acontecer
cenas antigas, intenções também
é castigo ler os rostos
como fossem manuais
mas pior são os dias
mal começados e sei o final
só não acerto a Loteria
ainda bem, não é rotina
normalmente nada sei
nem mesmo de mim
e só por isso sigo em frente
se não fosse, puxaria a cordinha
- moço, me deixa nesse ponto
trocar de canal termina em hospício
Walter Biancardine
sábado, 30 de maio de 2026
AS FICHAS ACABARAM -
Numa época em que até a geladeira conversa com o celular e o sujeito recebe propaganda de remédio para hemorróidas cinco minutos depois de comentar o assunto no botequim, encontrar um orelhão em funcionamento é quase o mesmo que encontrar Lady Gaga cantando na Praça XV.
Azul desbotado, coberto por adesivos arrancados pela metade, anúncios de vereadores, encanadores desaparecidos e declarações de amor que não sobreviveram ao namoro. Um veterano de guerra esquecido no posto.
Ninguém usa o orelhão. Mas ele está lá, ostentando inscrições produzidas pela mais antiga academia literária do Rio de Janeiro: a caneta Pilot.
No casco sobrevivem relíquias arqueológicas. "Michelle. At. Hot. Motéis. Domicílio. Com aparelhos." Abaixo, alguém acrescentou: "Michelle me deve 50 reais." Mais embaixo: "Mentira. Ela pagou."
E, encerrando o debate acadêmico:
"Flamengo campeão."
O curioso é que ninguém sabe quem é Michelle, quais aparelhos ela possuía ou qual a relação disso tudo com o Flamengo. Mas a história ficou registrada para as futuras gerações.
Também havia declarações de amor: "Márcia eu te amo." Logo abaixo: "Márcia eu te odeio." Mais abaixo ainda: "Márcia volte." E por último: "Márcia não precisa voltar." Acompanhando a cronologia daqueles rabiscos era possível assistir ao namoro inteiro sem precisar pagar ingresso.
O orelhão permanece. Firme. Inútil. Respeitável.
Como certas pessoas.
Foi por causa dele que comecei a reparar no velho. Aparecia quase todos os dias.
Magro, cabelo branco, camisa de mangas curtas sempre bem passada, caneta Bic enfiada no bolso e um jornal dobrado debaixo do braço. Entrava na padaria, tomava café, lia as manchetes, observava a rua pela vitrine e depois saía para caminhar sem aparente destino.
Às vezes parava diante do orelhão. Não telefonava. Não mexia em nada. Ficava apenas olhando. Como quem visita um túmulo.
Durante semanas imaginei que fossem velhos amigos.
O homem e o orelhão. Companheiros de alguma época em que ainda se telefonava para as pessoas em vez de enviar figurinhas animadas desejando bom dia.
À primeira vista, o velho e o orelhão formavam uma dupla natural. Os dois tinham sido muito requisitados no passado. Os dois já tinham conectado pessoas. Os dois passavam a maior parte do tempo sem tocar. E ambos davam a impressão de que a prefeitura ainda não os removeu porque ninguém sabia exatamente qual formulário preencher.
Até que um dia puxei conversa. Bastou mencionar o orelhão. Os olhos dele acenderam.
- Usei muito aquilo.
Assenti. Era uma frase óbvia para alguém da idade dele.
Mas ele continuou.
- Ali recebi a notícia do nascimento da minha filha.
Apontou.
- Ali soube que meu pai tinha morrido.
Apontou outra vez.
- E foi dali que liguei para minha mulher quando resolvi pedir desculpas por uma besteira que eu tinha feito.
Olhou para o chão.
- Ela aceitou.
Ficamos alguns segundos em silêncio. O trânsito passava rugindo ao redor. Motocicletas, ônibus, buzinas, entregadores correndo atrás do relógio. O velho e o orelhão pareciam pertencer a outro século. Talvez pertencessem mesmo.
- Sua esposa está bem? – perguntei.
Ele sorriu daquele jeito que os velhos sorriem quando a resposta dói.
- Morreu faz seis anos.
Depois levantou os ombros como quem comenta a previsão do tempo.
Porque os velhos aprendem uma arte que os jovens desconhecem: carregar tragédias sem fazer propaganda delas.
Conversamos mais um pouco. Descobri que a filha morava longe. Os antigos amigos haviam morrido, adoecido ou simplesmente desaparecido. Alguns sumiram sem o trabalho de morrer. Coisa muito comum.
Há amizades que terminam porque alguém mudou de bairro. Outras porque alguém trocou de emprego. Outras porque um dos dois comprou uma esteira ergométrica e passou a falar sobre qualidade de vida.
São fatalidades da existência.
Quando nos despedimos, ele ficou parado mais uma vez diante do orelhão. Foi então que entendi. Não era o orelhão que ele visitava. Era o passado.
Aquele casco azul era apenas uma porta enferrujada para um mundo onde ainda havia gente esperando suas ligações.
Voltei para casa pensando nisso.
Dias depois passei novamente pela rua. O velho estava lá. O orelhão também. Os dois imóveis. Os dois esquecidos. Os dois sobrevivendo ao próprio desaparecimento.
O curioso é que ninguém presta atenção em velhos nem em orelhões.
Até que desaparecem.
Aí surgem imediatamente especialistas explicando sua importância histórica.
O Rio produz muitos especialistas póstumos.
Walter Biancardine
sexta-feira, 29 de maio de 2026
UM REAL -
Zé Jorge era um frequentador assíduo. Negão, quase batendo nos dois metros de altura e com um par de braços que lembravam as colunas da ponte Rio-Niterói, por lá se deixava ficar depois de seu expediente de encanador em uma obra próxima, rodeado de cervejas e tira-gostos. Foi quando viu um cliente entrar vestindo um terno da Ducal, amarrotado, segurando uma pasta 007 e pedindo um café.
O homem levantou a xícara do pires e ia levá-la à boca quando viu uma moeda de um real sobre o balcão. Disfarçadamente, deslizou a mão por cima do dinheiro. Percebeu que não se movia. Fingiu que limpava o balcão, terminou o café e já ia embora quando Zé Jorge perguntou, gaiato:
- Essa moeda é de sua pessoa?
Sem graça, o homem respondeu:
- Nada, deve ser desse português aí atrás do balcão…
E sumiu no mundo, apressado.
Logo depois entrou um rapaz jovem, de rabo de cavalo e barba de lenhador vegano. Pediu um energético e viu a moeda. Mudou de ideia: cancelou o energético e pediu um café. E com a colherinha que veio junto, ele tentou descolar a moeda do balcão. Seu Almeida, o português dono do boteco, só olhava de longe e fazia uma careta. Os amigos mais próximos sabiam que aquilo era um sorriso.
O rapaz tentou, mudou de posição, olhou a moeda de perto e, por fim, decretou com suprema sabedoria:
- Isso é Super Bonder!
Zé Jorge apenas resmungou, de seu canto:
- Olha que pode fazer falta pra sua pessoa…
Dessa vez o botequim inteiro riu.
Lá pelas quatro da tarde, entretanto, apareceu a suntuosa.
Michelaine andava lá pelos seus dezoito ou dezenove anos e era babá no Flamengo. Possuía uma dessas belezas que fazem homem esquecer senha de banco, aniversário de casamento e até o nome da própria mãe.
Pediu um refrigerante e viu a moeda. Seus olhos brilharam.
Sem pestanejar, meteu a unha por debaixo da moeda para levá-la, mas a Super Bonder cumpriu seu papel e a pobre quebrou a unha, recém feita:
- Ai! Que droga, lamentou ela.
Zé Jorge, já tonto por acompanhar tantas curvas do corpo da suntuosa, condoeu-se: pegou uma outra moeda de um real que tinha em seu bolso e a colocou, discretamente, sob seu braço apoiado no balcão. E aproxegou-se, galante e solícito:
- A sua pessoa não fique triste… olha, que tal tentar com essa outra aqui? – e apontou a moeda que acabara de colocar.
Michelaine olhou meio desconfiada, mas tentou. E conseguiu, sorrindo radiosa.
Zé Jorge não perdeu tempo:
- Não é todo dia que a sua pessoa enriquece desse jeito! Vamos comemorar num lugar bacana, que eu conheço?
A suntuosa concordou.
No dia seguinte a pobre teve de faltar o serviço, se recuperando em banhos de assento.
Mas ganhou um real.
Walter Biancardine
OVO COLORIDO -
O botequim ficava numa transversal esquecida de Copacabana, próximo ao Posto 4, e era desses lugares onde até a barata entra de chinelo pra não pegar doença no pé. O nome “Estrela do Minho” não fazia jus: a estrela tinha apagado em 1972 e o Minho provavelmente pedira demissão por justa causa.
Atrás do balcão, o português Almeida secava copos com um pano que já servira, em épocas distintas, de toalha, filtro de café e talvez curativo de guerra. O chão grudava no sapato com uma sinceridade rara nos tempos modernos.
Fim de expediente, cinco e meia da tarde, trânsito caótico – a hora em que o Rio desmonta a fantasia. O executivo tira a gravata, o pedreiro tira o cimento da canela e o sujeito que vende curso de liderança no LinkedIn vai pra casa chorar no banho igual todo mundo.
Numa mesa perto da parede encardida, o doutor Arnaldo Bastos, alto executivo de uma multinacional qualquer – dessas que fabricam relatórios inúteis em PowerPoint colorido – tomava sua cerveja em silêncio. Terno caro, olho morto e uma gastrite executiva avaliada em dólares.
Ao lado dele sentou Juvenal, mestre de obras, camisa aberta até o peito, cheiro de cal e derrota matrimonial. Sentou sem pedir licença e já engatou a conversa. Afinal, Rio é assim.
- Tá pesado o dia, chefe? – perguntou Juvenal.
Arnaldo suspirou.
- Reunião o dia inteiro. Trinta pessoas numa sala pra decidir a cor de um gráfico.
Juvenal bebeu um gole da cerveja que tinha trazido.
- Na obra foi pior. O engenheiro mandou derrubar uma parede que ele mesmo mandou levantar ontem – e aproveitou pra beliscar uma linguicinha do pratinho de aperitivo que Arnaldo havia pedido.
Os dois se olharam como veteranos de guerra. O Brasil une classes sociais pela cerveja e pelo sofrimento inútil.
Nisso entra Zé Jorge. Negão de quase dois metros, encanador da obra, braço do tamanho de um botijão de gás e voz que fazia o copo vibrar.
- Seu Almeida! Desce três cerveja e um ovo colorido!
O português resmungou:
- Ovo colorido não. Aquilo já venceu na Copa de 94. Quer um kibe?
Zé Jorge deu de ombros.
- Kibe nada, aquilo é mosca! Traz o ovo mesmo, antes que ele peça aposentadoria.
Foi quando entrou Rosângela, a suntuosa.
Mulata estonteante, saia justa, crachá das Casas Pernambucanas ainda pendurado no pescoço, andando com aquela majestade cansada e curvilínea de quem passou o dia inteiro ouvindo cliente perguntar se “divide sem juros no carnê”.
O botequim inteiro silenciou. Até as moscas se afastaram e o ventilador pareceu diminuir a rotação por respeito.
Arnaldo endireitou a postura. Juvenal puxou a barriga pra dentro. Zé Jorge sorriu como quem sabia perfeitamente o estrago que dois metros de altura causam numa disputa desigual.
Rosângela pediu um refrigerante.
O português perguntou:
- Copo limpo ou da casa?
- Qual a diferença?
- O limpo ainda tá molhado.
Ela riu.
Foi o bastante.
Arnaldo, querendo parecer sofisticado, comentou:
- A vida moderna é muito estressante.
Rosângela respondeu sem olhar pra ele, naquele tom de doméstica respondendo a adolescente tarado:
- Meu filho, estressante é dobrar pijama infantil por oito horas ouvindo disco do Wando remixado.
Juvenal bateu na mesa:
- Essa mulher falou uma verdade histórica.
Zé Jorge então decidiu atacar, sorridente.
- Madama, a sua pessoa e eu, a gente podíamos jantar qualquer dia…
Ela olhou o tamanho do homem.
- Pra quê? Pra eu virar chaveiro no teu bolso?
O botequim veio abaixo em gargalhada.
Até o português sorriu, coisa que não acontecia desde a queda do Salazar.
Arnaldo terminou a cerveja olhando pro nada. Teria de andar dois quarteirões até onde havia estacionado o carro importado.
O negão pegou o ônibus pra Central do Brasil junto com o mestre de obras – sem a mulata.
Ainda tinham uma longa viagem até que o trem chegasse a Morro Agudo, na Baixada.
E a mulata desapareceu. Inclusive na cabeça de todos.
Era um retrato do país, que acontece quase todos os dias nos botequins cariocas: um executivo escravo do ar-condicionado, um mestre de obras discutindo com o engenheiro, um encanador gigante, um português sobrevivendo à Vigilância Sanitária pela proteção divina e uma mulher bonita demais praquele balcão imundo.
Todos cansados. Todos derrotados.
Mas tomando cerveja.
Porque o brasileiro, no fundo, não vive.
Faz hora extra existencial.
Walter Biancardine
quarta-feira, 27 de maio de 2026
EMPRESTADO -
pergunta o vizinho
que levou meu Tupperware
novinho
um amigo pediu
a mangueira do jardim
mantém distância, disfarça
não a devolve pra mim
livros então, perdi a conta
a estante de muita gente
linda e erudita
cheia de volumes pendentes
cartão de banco é o pior
melhor pegar o dinheiro e dar
do que correr o risco
do maluco te sujar
a pobreza tem vantagens
minha vida, toda torta
ninguém pede duas vezes
nem batem à minha porta
“O mundo moral das pessoas aparece melhor numa chave 13
do que em mil discursos sobre ética”
Walter Biancardine
NÃO-VENDÁVEL
como quem limpa o corte com Merthiolate
sem paciência pra perfume barato
sem fé em sorriso de vitrine
falava do lado sujo das coisas
de paredes rachadas que todos fingem novas
ninguém gosta disso
ninguém quer saber onde mora o mofo
quando o jantar está servido
então não o liam
fugiam de seus livros como imundos
ou liam como quem atravessa uma rua perigosa
rápido, fingindo pressa
já pensando no conforto
de voltar ao próprio engano
era melhor quando ele era jornalista
quando mordia nomes, mastigava narrativas
latia com precisão contra os inimigos
que eles já escolheram odiar
ah, isso sim era útil
um homem assim é sempre bem-vindo
desde que esteja preso à coleira da função
podem aplaudi-lo ali
desde que ele não comece a olhar demais
pra dentro das casas
porque poeta é incômodo
poeta não serve como espelho neutro
serve como espelho sujo
e espelho sujo devolve o que ninguém pediu pra ver
então preferem seu antigo ofício
o barulho organizado
a raiva com endereço certo
o escândalo com final previsível
o outro – o que escreve depois do incêndio –
esse não tem utilidade
esse não confirma nada
não ordenha nossa raiva
só deixa perguntas no ar, como cinza
e no fim, é simples, quase elegante
na sua crueldade
não é que nunca o leiam
é que o leem às vezes
fechando os olhos
no meio da verdade
e decidem que amanhã
sim, amanhã
vão continuar acreditando
no que já desmoronou ontem
Walter Biancardine
terça-feira, 26 de maio de 2026
VIDA CEGA -
nenhuma vantagem
nada ganhei com isso
quando quis ser bom
doeu
me fodi
miseravelmente
e paguei caro por isso
sou mau, nada ganho
sou bom, tudo sofro
a vida não é ruim
por escolhas morais
a merda acontece
quando ela te olha
e não te vê
a vida nunca reparou
que estou aqui
mas pisa no meu pé
porque se distraiu
a vida é
uma filha da puta
não me odeia
seria atenção demais
Walter Biancardine
FOI -
Durou três dias.
O epitáfio é companhia.
Tudo parece ridículo.
Visto de fora.
Três dias é biografia.
Não gelado.
Não sozinho.
Walter Biancardine
TRÊS DIAS -
O pequeno borrão preto morreu
durou três dias
no primeiro virei pai
cuidei
no segundo ele, o filho
resistiu
hoje, foi latir no céu
feliz
o pequeno borrão se foi
mas não gelado
ou sozinho
segunda-feira, 25 de maio de 2026
CURTAM AS FLORES, ESCONDAM AS GARRAFAS
todo mundo
gosta
de frases sobre recomeços
“você
merece paz”
“seja luz”
“o amor salva”
essas
coisas rendem curtidas
como pombos rendem merda em estátua
o sujeito
compartilha um poema doce
e por alguns minutos
vira homem
profundo
a mulher
publica uma citação triste
com foto da chuva no vidro
e
ganha comentários:
“alma
linda”
“você escreve o que sentimos”
sentimos o quê?
a maioria
não suporta
nem o próprio silêncio no banheiro
mas
publique algo sobre
um pai que bateu no filho
e depois foi
trabalhar sorrindo
escreva
sobre
o marido que trai
e reza antes de dormir
sobre o
patrão
que paga salário de fome
e faz palestra sobre
gratidão
sobre o
bêbado
mijando atrás do bar
porque perdeu a mulher,
o
emprego
e a vontade de fingir
escreva
sobre velhos esquecidos,
gente que humilha garçom,
mães
que amam menos um filho,
amigos que somem
quando o dinheiro
acaba
fale da sarjeta
da inveja
da
crueldade pequena
essa que usa perfume
e cumprimenta
vizinhos
aí o salão esvazia
porque
ninguém quer ser visto
perto do incêndio
poesia
sobre flores
faz parecer sensível
poesia
sobre podridão
faz suspeitarem
que você conhece o cheiro
e talvez conheça
talvez o
problema nunca tenha sido
o texto sombrio
talvez seja isto:
quem foge
dos esgotos
tem medo de reconhecer
o próprio reflexo
na
água suja
Walter Biancardine
Nota: textos sobre esperança costumam receber aplausos. Textos sobre hipocrisia recebem silêncio. E silêncio, às vezes, é culpa usando sapatos sociais.
















