O sujeito compra um produto na internet e posta o comentário: “ - Não testei, mas chegou bem embalado”.
E isso resume a direita, hoje, no Brasil.
Essa direita conservadora foi, pois, devidamente extinta durante o regime militar pelos próprios militares, que anularam, cassaram, sufocaram líderes como Carlos Lacerda e Ademar de Barros, enquanto faziam vistas grossas para a disseminação escancarada do vírus gramscista canhoto através da música, teatro, cinema, rádio e TV – sim, o problema dos militares nunca foi a esquerda, mas a guerrilha armada: quando ela foi debelada, tudo ficou em paz e os vermelhos floresceram. Comunismo, socialismo e positivismo são primos-irmãos, possuem o mesmo sangue e os quartéis jamais se livraram da sombra de Auguste Comte.
Os anos se passaram assim, até que em um esforço hercúleo e espantoso, o filósofo Olavo de Carvalho, sozinho – sim, sozinho; qualquer um que pretenda apontar outros em sua companhia está mentindo – ressuscitou a direita e o conservadorismo no Brasil. Não foram outras mãos que abriram caminho para que o fenômeno chamado Jair Bolsonaro conquistasse o povo e completasse, em um nível bem mais acessível intelectualmente, a obra de Olavo.
Mas o velho sistema, que existe desde a proclamação da República – pelos militares positivistas, sempre eles – reagiu e conseguiu prender Jair Bolsonaro, bem como o mais capacitado aluno de Olavo, Filipe G. Martins. Olavo de Carvalho, por sua vez, já havia morrido antes e somente este fato permitiu que as togas tirassem Bolsonaro de circulação e estejam tentando, até hoje, matá-lo na cadeia.
O resultado disso? Todas as vozes verdadeiras caladas e o surgimento de uma legião de “sucessores” de Olavo e de Bolsonaro, cada um mais canhestro que o outro, a pretender ser a reencarnação do filósofo ou o continuador do bravo – mas indecentemente inocente – capitão.
E isso confundiu e desvirtuou, perigosamente, o povo e a direita conservadora.
Vivo fosse, Olavo já teria dado alguns gritos e xingado bons palavrões contra o verdadeiro tsunami de idiotices estúpidas que temos praticado e apoiado – desde uma demagógica caminhada de Nikolas Ferreira, sem nenhum objetivo claramente definido e ainda “ungida” por suspeitíssima “profeta” nos Estados Unidos, a dizer que ele seria o próximo Presidente do Brasil – até as teatrais crises de ovários que regularmente acometem o cosplay de Olavo, chamado Allan dos Santos.
Na verdade, não há mais ninguém legitimamente embasado e com autoridade moral e intelectual suficiente para dar o exemplo do que é ser alguém conservador. Um conservador normal, uma pessoa comum, com qualidades e defeitos. O único que havia era Olavo, e ele se foi. E nos restou, na falta de essência, refugiarmos nossa ignorância na embalagem.
Sim, sempre isso: nada de essência, só embalagem. Não é preciso ser, apenas parecer ser.
E é isso que tem me provocado náuseas.
A tendência ao fanatismo nos levou a um carolismo moralista piegas de direita, inversamente proporcional à bandalha e putaria genética da esquerda, em uma reação primária e ignorante.
Hoje todos queremos aparentar sermos santos: todos dizem ir à missa todos os domingos, vendem a imagem de viver em uma família feliz e harmoniosa – verdadeiro anúncio de margarina na TV – não falam palavrões e amam animais de estimação (que chamam de “pets”, uma expressão esquerdista) mais que os próprios filhos. Por falar em filhos, sempre um ou dois, no máximo. Quando os tem, pois preferem os animaizinhos.
Todos se vestem igual – bermudas “mamãe-tô-elegante”, camisas t-shirt “sou rico disfarçado de gente comum”, mocassim e a mesma e infeliz barba. Sim, a barba. Verdadeiro trabalho de tupiaria, de poda, daqueles feitos pelos mais habilidosos jardineiros, a completar o invariável topetinho de seus cabelos, com o pé cuidadosamente raspado e curtinho, o suficiente para dizer aos outros que ele é um cara decente, de cabelos curtos e limpinho – não esses bandalhos fedorentos por aí. E sempre, todos eles, com 10kg acima do peso. Sim, é o sucesso financeiro.
Evidentemente estou focado em pessoas oriundas da classe média ou classe média alta, então com base nisso faço essas observações pois é o extrato social que realmente empurra este país pra frente – tanto economicamente através de impostos quanto eleitoralmente, através de seus votos e influência sobre as classes menos favorecidas.
E aí vem a pior parte, pois até então falei exatamente da maldita embalagem que todos parecem ter adotado, já que nada sabem da essência. Falemos agora de algo mais próximo do que é ser realmente um “patriota conservador de direita”: o que essa gente faz para viver.
Sim. O que comem? O que fazem? Como se reproduzem?
Tal como as chamadas do antigo “Globo Repórter”, analisemos o lado mais cruel das pessoas que, como expliquei acima, pegaram o bonde andando e vestiram, às pressas, o modelito “conservador” prét-a-porteur.
São pessoas que tiveram acesso a bons colégios e possuem, em geral, boa formação acadêmica. Justamente pela influência das faculdades, a noção ideológica é extremamente rarefeita em suas cabeças e, se hoje alegam serem conservadores, normalmente é por influência de pais e familiares.
Deste modo, nada de mal enxergam em trabalharem 10, 12 horas por dia – o trabalho remoto escraviza sem dar a perceber – para empresas chinesas ou globalistas. Ora, elas pagam um ótimo salário, e é isso que importa, alegam. E não apenas trabalham para Pequim ou Soros: consomem sem pudor tudo o que vem de lá, pois Shopee nunca foi coisa exclusiva de pobre. E presenteiam seus (poucos e raros) filhos com isso, acostumando-os precocemente a enxergarem a ditadura chinesa como algo normal, que nenhum mal pode fazer com tantos brinquedos e quinquilharias maravilhosas.
E seu dia é cheio. Trabalha muito. Nas raras vezes que vai às ruas, gasta o dia em engarrafamentos. No rádio, músicas hipnotizantes, mas é o que toca, fazer o quê? E tome Burguer King, almoços no Outback, shopping centers, luzes, consumo, pressa, prazos de entrega dos relatórios e muita IA fazendo seu trabalho e fraudando sua competência.
E sua mulher quer levar Fluffy, a cachorrinha, no banho e tosa para podar e passar perfume. E quer também um novo modelito que viu na vitrine. E quer tomar um caipisaquê de frutas tropicais com seu maridinho – “aaii, estou tão feliz!”, dizem ela e também ele. Mas ambos não bebem nada além disso e também não fumam – “um nojo, essa fumaça”, dizem. E seu filho de 9 anos quer uma boneca Barbie porque os coleguinhas de escola tem, e eles não veem nenhum mal nisso – é preciso respeitar a individualidade, não somos nazistas que queremos impor as coisas nem esquerdistas que negam a diversão das crianças. E por isso compram, também, mais uns 5 ou 6 jogos para o videogame.
Ele e ela, plenos de conservadorismo – pois vão à missa, tem um filho lindo, ele provê a casa em todas as suas despesas e tem uma Renegade linda – são o exemplo de uma direita de sucesso, feliz e realizada, ao contrário desses comunistas que só sabem tocar fogo em pneus, nas ruas.
Mas de noite, ao chegar em casa e ir ao banheiro tomar banho, ele senta no vaso e chora.
Quem ele é? Qual a obra de sua vida? Seu legado? Que diabos de real, concreto, este sujeito vai deixar ao morrer? Um apartamento na Barra da Tijuca? Só isso? Que filho ele deixou? Que exemplo restará, para seus amigos e familiares? O que fez pelo próximo, além de ir a motociatas e passeatas na Avenida Atlântica aos domingos, tirar fotos para o Instagram enrolado na bandeira do Brasil?
Ele sabe que estamos em plena ditadura. Ele sabe que estamos em guerra. Ele é jovem. Forte.
Mas escolheu trabalhar para o patrão chinês.
E, sentado no vaso, chora.
Mas, após o banho, sai sorridente e vitorioso. Sua mulher então entra no banheiro e repete o ritual de frustração do marido.
E viveram felizes para sempre, durante os longos sete anos de duração do casamento.
Pois é contra isso, essa farsa, essa despersonalização que tenho lutado.
Parei de falar sobre política pois ninguém saiu nem sairá jamais do sofá para fazer nada. Sou apenas um escrevinhador obscuro, que poder tenho contra todo um sistema que derrubou Bolsonaro e Olavo?
Mas eu posso falar de nós, pois sou um de nós. E, se não sou exatamente um conservador, concordo com muitas coisas deste pensamento. Mas para isso não preciso vestir esse uniforme de boa moça, usar cabelinhos e barbinhas chiques e adotar a mesma postura fútil, falsamente “leve” dessa garotada neo-conservadora.
Eu bebo, fumo, cometo erros horríveis e já fiz muita besteira na vida. Isso desqualifica meu apoio ao Bolsonaro? Isso me exclui? Ora, sou um velho e testemunhei os antigos – e reais – conservadores em suas vidas normais e afazeres. Nem de longe eram essa frescura ostensiva de hoje, pois não haviam inventado um “uniforme de conservador” para usarmos. Por quê não podemos ser novamente assim? Por quê essa maldita vaidade, essa necessidade da porca embalagem? Por quê só aparentar, mas nunca – nunca – fazer nada? Passeatas, motociatas, nada disso resolve e todos nós sabemos. Só nosso sangue compra a liberdade, essa é que é a triste e cruel verdade.
Mas algum jovem – tal como os esquerdistas dos anos 60, honra seja feita – estará disposto a correr perigo por isso? Os esquerdistas acreditavam na maldita ditadura do proletariado e deram sua vida por isso. Nós, hoje, os chamamos de frouxos mas não saímos de casa.
Pra quê uniforme? É só vaidade. Só isso.
A maldita vaidade.
É contra isso que eu, velho, barba mal feita, sempre uns dois uísques acima da humanidade, fedendo a cigarro, mal vestido e pobre, luto.
Aprendi a diferenciar o conteúdo da embalagem.
Walter Biancardine