sábado, 25 de abril de 2026

TRINCHEIRA VAZIA -

 


Ernest Hemingway escreveu como quem já tinha sentido o cheiro da pólvora junto ao suor de gente que não veria no dia seguinte:

“Quem está contigo aí na trincheira?”
“E isso importa?”
“Mais que a própria guerra.”

E é aí que tudo apodrece.

Porque a guerra – qualquer guerra – sempre é uma desculpa bonita para canalhas bem vestidos e idiotas barulhentos brincarem de heroísmo, de serem líderes, sem nunca terem sangrado de verdade. A direita que eu vejo – essa que me fez largar o campo, os “Conservadores de Instagram” – não caiu lutando. Caiu rindo alto, apontando o dedo, repetindo slogans como um bêbado repete a mesma piada sem graça.
Ou sequer sabe que caiu, o que é pior.

Mudaram os rótulos, não a alma. É a mesma fome de aplauso, o mesmo vício em plateia, a mesma necessidade de parecer certo em vez de estar certo e os mesmos gritos, a mesma fúria que tanto condenamos na esquerda. Esquerda, direita… no fim das contas, dois espelhos rachados refletindo a mesma vaidade grotesca.

E percebi isso – tarde o bastante para doer, cedo o bastante para conseguir escapar com alguma dignidade.

Porque trincheira não é lugar de discurso. É lugar de homem confiável. De silêncio pesado. De olhar que não foge quando o mundo começa a cair aos pedaços. Quando olhei ao lado… não havia ninguém. Só caricaturas. Só gente performando coragem como quem posta foto de academia, exigindo obediência cega “democraticamente”, xingando e se enfurecendo contra quem prefere o verde-musgo ao verde-bandeira. Petistas de sinal trocado.

E aí a frase do Hemingway deixa de ser literatura. Vira sentença:
“Importa mais que a guerra.”

Importa tanto que, se não houver ninguém de valor ao nosso lado, a guerra perde o sentido. Vira teatro barato. Vira circo ideológico com ingresso grátis e dignidade cara demais para pagar.

Não abandonei a análise política, mas um bando de farsantes. E há uma diferença – e é algo que poucos têm coragem de admitir, porque exige engolir o orgulho, cuspir a própria história e aceitar que se lutou, por um tempo, ao lado de gente pequena.

Isso corrói.
Mas também limpa.

Melhor uma trincheira vazia do que uma cheia de covardes barulhentos. Melhor o silêncio honesto do que o grito ensaiado. Melhor a solidão de quem enxerga do que a companhia de quem apenas imita.

A verdade crua? Guerra nenhuma vale a pena se os homens ao nosso lado não prestam.
E quando não prestam, o único ato digno não é resistir – é sair.

Sem discurso. Sem despedida. Sem olhar para trás.
Só sair.
E deixar que eles gritem sozinhos, ecoando no vazio que merecem.

Eu fiz o movimento mais raro – não mudei de lado, eu saí do teatro. Isso custa caro, mas preserva o único capital que ainda importa: lucidez.

Se um dia eu voltar à trincheira, que seja por causa dos homens ao lado.

Nunca mais pela guerra.


Walter Biancardine



ENTRE DOIS FOGOS IGNORANTES - Conto

 


Finalmente um jornal corajoso publicou uma matéria minha, criticando a hipocrisia desse pessoal que se diz “conservador” apenas por moda. Sim, lá estava meu nome, bem grande, “Wilson Pagani”, a assinar a matéria que redigi, com a mesma contundência com que sempre critiquei a esquerda.


Não tardaram os comentários enfurecidos para o jornal. Nem os li. O que me deixou puto foi encontrar com dois amigos no shopping, um canhoto e outro de direita – ao mesmo tempo, pra cúmulo do azar. Digo azar porque são brasileiros médios e o QI dessa raça não costuma ultrapassar 83. Interpretar texto então, é desafio. Enfim, chegou o Oduvaldo, canhotaço e que, logo após os cumprimentos, já veio com seu bombardeio:


- Pagani, meu velho, por quê faz isso? Não percebe que está sendo um fascista? Dando corda pra esse bando de nazistas, que querem transformar o país num quartel?


Mal pronunciei a primeira frase e Tadeu, um amigo direitista, me cumprimentou já furioso, interrompendo o assunto sem cerimônia:


- Wilsinho, você é um bosta! Que merda é essa? Virou comunista? Vá pra Cuba que o pariu, cara! Como teve coragem de escrever aquilo?


E Oduvaldo, por sua vez:


- Nazista! Fascista! Você devia ter responsabilidade com o que escreve num meio de comunicação!


Tadeu não ficou atrás:


- Então você vai lá e escreve que a gente é hipócrita? Tu é petralha agora?


Tentei ponderar com meu amigo direitista, perguntando se ele havia lido realmente a matéria, se havia interpretado o texto – e Tadeu, furioso, sequer parou de me xingar enquanto isso.


- Tá me chamando de analfabeto? Ignorante é você, que critica a direita!


E Oduvaldo:


- Tu é fascista, nazista, homofóbico, racista…


Dei um pulo:


- Ei! Onde foi que falei de gays e negros na matéria?


Ambos:


- Não interessa!


E então me dei conta que aquilo não era uma discussão, mas somente uma sessão de catarse dos recalques e frustrações de cada um deles, vomitando na minha orelha tudo aquilo que jamais tiveram coragem de falar pros patrões, esposas, filhos… para a vida, enfim.


Deixei ambos me xingando, saí da portaria do shopping, atravessei a rua e fui pegar o ônibus.


Lá, duas jovens de cabelo azul, universitárias, me reconheceram e resmungaram:


- Olha o fascista aí, disseram, cochichando entre si.


E uma senhora, típica tia do zap sentada no banquinho, rosnou:


- Francamente… virou comunista…


Saí do ponto de ônibus e fui pro bar tomar umas Brahmas.



Wilson Pagani

(Meu alter ego)



sexta-feira, 24 de abril de 2026

SEXTA FEIRA, CERVEJA NA MESA, CANTORES E ESCRITORES DESTRINCHADOS – JOHNNY CASH E CHARLES BUKOWSKI: TREVAS GÊMEAS

 


Johnny Cash não foi um artista. Foi um campo de batalha. Deus de um lado, vício do outro, e no meio um sujeito com voz de túmulo tentando negociar paz.

Johnny nasceu em 1932, no Arkansas – miséria rural, algodão, suor e hinos religiosos. Filho de agricultores pobres, cresceu ouvindo salmos e lamentos. Nada de glamour.
E aí vem o golpe que marca o resto da vida: o irmão Jack morre num acidente brutal, ainda jovem.
Esse evento não só feriu – moldou, definiu o homem. Cash carregou aquilo como um tipo de culpa silenciosa. Se você quer entender Johnny Cash, imagine um homem que nunca superou um trauma – só aprendeu a cantar sobre ele.

E veio a guerra. Ele entra na Força Aérea, vai parar na Alemanha. Lá, entre sinais interceptados e silêncio europeu, começa a escrever músicas.
Não é coincidência.
Solidão é o melhor professor de composição, depois da dor.

Quando volta, Memphis o espera. E Memphis, naquela época, era o inferno criativo do mundo.
Na Sun Records, ao lado de gente como Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, ele grava: “I Walk the Line”, “Folsom Prison Blues” e “Hey, Porter”. Tudo seco. Minimalista.
A banda – Tennessee Two (depois Three) – soava como locomotiva: tchac-tchac-tchac.
Era música de trabalhador, de preso, de pecador.
Não de gente feliz.

Chegam os anos 60, Cash atinge um sucesso absurdo e, junto com ele, vem o pacote padrão: anfetaminas, álcool, colapsos e shows caóticos. A carreira começa a desmoronar. Aqui está a verdade nua: Johnny Cash não caiu por acidente, ele se jogou.

Então entra em cena June Carter Cash.
Ela não foi só esposa. Foi freio. Foi ordem. Foi quase uma enfermeira espiritual.
Casam-se em 1968. Ela o empurra para tratamento.
Mas não romantize: não foi redenção limpa. Foi recaída, luta, recaída de novo.
Amor não salva ninguém. Só dá uma chance extra.

Mas uma decisão que tomou foi salvadora: os álbuns “At Folsom Prison” (1968) e “At San Quentin” (1969), foram gravados dentro de presídios, diante de criminosos reais. Isso não foi marketing – foi identificação. Johnny cantava pra homens que tinham feito o que ele só pensou em fazer.
Resultado: ressurreição artística.

Agora, vamos ao que interessa pra um homem que leva música a sério: sua discografia.
Cash não teve carreira. Teve uma avalanche. Números crus: 130 álbuns, 160 singles e mais de 50 anos de atividade. Suas fases essenciais foram:

1. Era Sun (anos 50)
Johnny Cash with His Hot and Blue Guitar (1957)
The Fabulous Johnny Cash (1958)
Tudo cru, direto, seminal.

2. Era Columbia (anos 60–80)
Ring of Fire: The Best of Johnny Cash
At Folsom Prison (1968)
At San Quentin (1969)

Aqui ele vira mito.

3. Declínio (anos 80)
Esquecido pela indústria. Velho demais pro novo, novo demais para morrer.

4. Ressurreição – American Recordings (anos 90 – 2000)
Com Rick Rubin:

* American Recordings (1994)
* Unchained (1996)
* American III: Solitary Man (2000)
* American IV: The Man Comes Around (2002)

E nesta fase ele vira algo raro: um velho relevante.

Falando sobre suas músicas – o pecado em forma de som: são temas recorrentes a culpa, redenção, morte, fé ou mesmo a prisão (literal e moral). Ele cantava como quem confessa. São destaques inevitáveis:

* “I Walk the Line” – disciplina contra o caos
* “Ring of Fire” – paixão como condenação
*“Man in Black” – manifesto moral
* “Hurt” – epitáfio

Essa última não é cover. É, digamos, confissão final.

O tempo passa e June morre em 2003. Johnny vai atrás poucos meses (três, creio) depois. Como se o contrato tivesse vencido. Então ele encontrou redenção? Resposta honesta? Depende do que você chama de redenção. Se for pureza, não. Se for luta constante contra a própria lama, então sim.

Johnny Cash nunca virou santo. Virou algo mais raro: um pecador consciente. E isso, convenhamos, é muito mais útil. Ele vestia preto porque dizia cantar pelos esquecidos. Mas a verdade é mais dura: ele vestia preto porque nunca saiu completamente do luto. Nem pelo irmão. Nem por si mesmo.

E agora entra um homem chamado Charles Bukowski, o espelho literário do atormentado musical.
São dois homens que olharam pro mesmo buraco – só que um levou um violão, o outro uma máquina de escrever. E ambos sabiam que aquele buraco olha de volta.

A matéria-prima de ambos era o fracasso, não o sucesso. Bukowski nunca escreveu sobre vencedores porque desprezava a mentira do triunfo. Cash nunca cantou como vencedor porque sabia que não era um. Os dois entendiam uma coisa que hoje virou heresia: o homem é, por padrão, um animal quebrado tentando parecer inteiro.
Bukowski descreve o sujeito que bebe porque perdeu. Cash canta o sujeito que peca porque não consegue parar. É a mesma história, só muda o instrumento.

Bukowski era direto: luxúria, álcool, sujeira, solidão. Nada de pedir desculpa.
Cash, mais contido – herança do sul, da Bíblia, do pudor – fazia algo mais perigoso: se confessava. E aqui está a diferença essencial: Bukowski aceita a lama. Cash luta contra ela. Mas ambos não fingem que ela não existe.
Hoje, o mundo vive de filtro e pose. E esses dois viviam de exposição crua.

Bukowski não confiava em Deus. Achava que, se existisse, estava ocupado ou bêbado demais para se importar. Cash, ao contrário, passou a vida tentando falar com Ele. Mas veja o detalhe importante – o ponto onde os dois quase se tocam: Cash não era um homem de fé tranquila. Era um homem em negociação permanente. Quase um cliente inadimplente batendo na porta do céu. Ele não dizia: “sou salvo”. Ele dizia: “estou tentando não me perder de novo”. Bukowski, se estivesse ouvindo, provavelmente daria um meio sorriso e diria: “Boa sorte, parceiro.”

Ambos envelheceram bem – e isso é raro. Não no sentido físico. No sentido estético. Bukowski velho ficou mais seco, mais preciso. Cash, velho, virou uma espécie de profeta cansado. A voz de Cash, no fim, digamos que aquilo não é canto. É um relatório de danos.
E Bukowski teria respeitado isso. Porque ele também acreditava que, no fim, só sobra o que resistiu à vida – não o que brilhou nela.

Falemos agora de uma canção capital em toda essa história e que, em minha opinião, os une indissoluvelmente: “Deus vai te alcançar” (God’s Gonna Cut You Down) – a moral nua, sem anestesia.

Esta música, na voz de Cash, é o que Bukowski escreveu a vida inteira: inventário de erros, ausência de ilusões, solidão como estado natural. Não há glamour. Não há redenção hollywoodiana.
Só um homem olhando para o que sobrou. E dizendo: “foi isso.”

“God’s Gonna Cut You Down”, na voz de Johnny Cash, não é música. É sentença. E, se Charles Bukowski estivesse vivo, ouviria isso com um copo na mão e diria: “finalmente alguém dizendo a verdade sem pedir desculpa.”

A letra é simples, quase primitiva: “You can run on for a long time… sooner or later God’ll cut you down”. Traduzindo sem poesia: corra o quanto quiser – a conta chega. Bukowski concordaria com metade disso. Ele diria: “a conta chega sim, mas talvez não tenha ninguém cobrando do outro lado.”
Cash discorda. Pra ele, há um cobrador. E ele não negocia.

A música não fala de assassinos de filme. Fala de gente comum: o fofoqueiro, o mentiroso, o hipócrita, o sujeito que vive dobrando regras pequenas. Mais comum, impossível. Bukowski escreveria sobre esse homem num quarto sujo, suando ressaca. Cash o coloca diante de Deus. Mas é o mesmo sujeito. Talvez você. Talvez eu. Provavelmente os dois.

Nada de orquestra sentimental nesta música. Ela bate seca, repetitiva, quase tribal. É um ritual, não uma performance. Bukowski fazia isso com frases curtas. Cash fazia com batida e voz. Ambos entenderam algo que muita gente esqueceu: a verdade não precisa ser bonita – só precisa insistir. Não parar, não precipitar, não retroceder, diria um outro velho, lá da Virgínia.

Justiça – o ponto de ruptura entre os dois, o duelo filosófico: pra Cash existe justiça final. Pode demorar, mas vem. Pra Bukowski, se existe justiça, ela é cega, bêbada ou atrasada demais pra importar. E, honestamente? A vida cotidiana dá munição para os dois lados. Você vê canalhas prosperando mas também vê quedas brutais que ninguém previu. A música aposta numa ordem moral invisível. Bukowski apostaria no acaso cruel.

O tom geral: advertência, não esperança, e isso é importante. A canção não diz: “arrependa-se e será salvo.” Ela diz: “continue assim e você será pego.” É quase um aviso de beira de estrada:
“ponte quebrada à frente.” O problema? Quase todo mundo acelera mesmo assim.

Se Bukowski reescrevesse isso, ele tiraria Deus da equação. Mas manteria a queda. Ficaria algo como:

“Você pode beber, mentir, enganar,
e ninguém vai te parar.

Até o dia em que seu corpo cansa,
seus amigos somem,
e você percebe – tarde demais –
que foi você quem cavou o buraco.”

Menos metafísico. Mais sujo. Mas o destino? Parecido.

Pra mim, “God’s Gonna Cut You Down” é o encontro improvável entre o pregador cansado (Cash) e o cínico lúcido (Bukowski). Um diz: “Deus vai te julgar.” O outro responderia: “a vida já fez isso – e foi suficiente.”

No fim, a música não quer te consolar. Quer te lembrar de uma coisa que o homem moderno odeia ouvir: há consequências. Se vêm do céu ou da própria vida, aí já é uma briga que nem Cash nem Bukowski conseguiram encerrar.
E talvez nem você consiga.

A diferença final entre os dois é simples: Bukowski morreu aceitando o caos. Cash morreu tentando dar sentido a ele. Quem estava certo? Provavelmente nenhum.
Ou os dois, cada um à sua maneira.

Porque no fundo – e aqui vai a frase que nenhum dos dois negaria – redenção não é um lugar onde você chega. É o esforço ridículo de continuar andando, mesmo sabendo que vai falhar de novo.

Bukowski beberia com Cash.
Cash tentaria fazê-lo ir à igreja.
Os dois falhariam.

E depois escreveriam sobre isso – cada um transformando o fracasso em alguma forma de verdade.

E mais não escrevo porque a cerveja é numerosa e não sei se terei dinheiro pra pagar a conta.

E fiado, só amanhã.


Walter Biancardine


Para ouvir a música, clique no link -



SEXTOU! UM JAZZ QUE OUVI NUM ENCONTRO DE MOTOS -

 


Sexta-feira, a semana termina. A noite de hoje é para música, drinks e uma boa companhia.
Que tal “Take Five”?

Boa escolha; não é de elevador.
É coisa de gente que já percebeu que o elevador nunca chega.
Para meu espanto, escutei a mesma quando fui no Ostras Cycle, o encontro de motos recentemente realizado em Rio das Ostras, Rio de Janeiro.

Se você vai sair com sua eleita esta noite e pretende escutá-la, não deixe de conferir o que segue abaixo – sim, já tive bons dias e parabenizo o amigo pela diversão de hoje.

A canção nasce dentro de um disco que, por si, já é um tapa na cara do ouvinte acomodado: “Time Out”, do Dave Brubeck. Mas a peça em questão, poucos sabem, é do Paul Desmond – um sujeito que tocava como quem pedisse desculpa por existir… e ainda assim hipnotizava a sala inteira.

Para os amantes da música, antes de me perder em filosofias de botequim – sim, tenha paciência e chegarei lá – começarei falando do compasso: a vida manca.

“Take Five” está em 5/4, e isso já diz tudo.
A maioria da música popular é quadrada, obediente, marchando como empregado de fábrica em segunda-feira: 4/4. Você conta, você prevê, você se entorpece. Aqui não. Aqui falta um pedaço. Ou sobra. Depende do humor e do uísque.
Cinco tempos é o sujeito que tenta andar reto depois da terceira dose. Um passo a mais, um tropeço elegante. A música balança, mas não cai. É o retrato de uma dignidade precária.
É quase filosófico: me perdoe Roger Scruton, mas a beleza nasce da assimetria. A perfeição é coisa de catálogo – a vida real é manca.

E o sax? Nada mais que um homem que não levanta a voz.

Desmond entra com aquele sax alto (“alto” é o tipo do instrumento, não o volume usado) suave, limpo, indecentemente pudico de tão contido.
Nada de virtuosismo espalhafatoso. Nada de “olhem pra mim”. Ele toca como quem sabe que ninguém está realmente ouvindo – e, ainda assim, insiste.
Sim, essa é a vida de quem toca em bares.
É o tipo de som que Chet Baker aprovaria: melancolia sem maquiagem, uma tristeza educada, de terno passado. Se fosse gente, seria o sujeito no bar que fala baixo mas, quando fala, você cala.

Agora é a vez do piano: a ordem no caos.

Brubeck – que todo mundo credita a música – entra como um arquiteto tentando organizar um prédio que já nasceu torto.
Os acordes são blocos. Firmes. Quase teimosos. Ele segura a estrutura enquanto o sax vagueia. É o velho conflito: razão tentando domesticar a emoção, sem nunca conseguir totalmente.
E isso é bonito.
Porque a graça não está em resolver. Está em sustentar esse conflito sem desmoronar.
E não há algo de perigosamente excitante nisso?

Chegou a hora da loucura, a bateria: o coração que tropeça.

E então vem Joe Morello.
A bateria não marca tempo – ela negocia com ele. O famoso solo não é exibição: é um diálogo interno. Um homem discutindo com o próprio pulso.
Não acelera. Não força. Ele persuade o ritmo. Num mundo que vive correndo atrás de relógio, Morello faz o Rolex pedir licença.

E agora o principal, a filosofia de botequim (a única que presta).

“Take Five” é, no fundo, uma pequena rebelião.
Não grita. Não quebra nada. Não levanta bandeira. Só se recusa a ser previsível.
E isso, amigo leitor, é mais subversivo do que qualquer discurso inflamado.
Porque o mundo moderno adora padrão: horário, produtividade, opinião pronta, emoção de vitrine. Tudo em 4/4.
“Take Five” entra, acende um cigarro imaginário e diz:
“Hoje não.”

Se eu tivesse capacidade e talento para compor um jazz, seria algo assim.
Sem heroísmo. Sem redenção. Só um fluxo honesto de tempo mal resolvido. Um copo meio cheio – não de esperança, mas de resignação lúcida.

“Take Five” não te leva a lugar nenhum.
E é exatamente por isso que ela presta.
Porque, no fim das contas, ninguém está indo a lugar nenhum mesmo – só estamos tentando manter o ritmo sem cair da própria vida.
E, convenhamos, em 5/4 isso fica até mais sincero.

Para ser mais claro:

“Take Five” não começa. Ela se infiltra.
Você não aperta o play – ela já está lá, como um cheiro antigo de cigarro impregnado na madeira. Um resto de noite que não foi embora. E quando percebe, já está sentado, olhando um copo qualquer, desses que sempre têm uma marca de dedo que não é sua.

O mundo lá fora segue em 4/4 — ônibus, relógios, gente fingindo que sabe para onde vai. Aqui dentro, não. Aqui o tempo manca. Cinco passos. Um a mais. Ou um a menos. O suficiente para te lembrar que a vida nunca fecha a conta.

E isso incomoda.
Porque você percebe que passou a vida inteira tentando explicar sua própria existência como se fosse uma tese. Como se alguém estivesse avaliando. Como se houvesse banca. Não há. Nunca houve. Só o ruído – e, de vez em quando, uma linha de sax atravessando o nada com uma elegância que beira o insulto.

A música não lamenta. Insiste. Bate, organiza, empilha acordes como um sujeito que ainda acredita que dá para pôr ordem no caos – mesmo depois de já ter perdido essa aposta umas cinquenta vezes.
É o homem que ainda arruma a cama sabendo que vai dormir mal.

Não é questão de ritmo – é pura negociação. Um sujeito conversando com o próprio coração: “calma, velho, não pare ainda”.
E o coração responde: “não prometo nada”.

Há algo de profundamente humano nisso. Nada de heroísmo. Nada de catarse. Só continuidade. Só o esforço meio ridículo de manter o pulso enquanto tudo em volta sugere desistência.

“Take Five” não te salva. Não te consola. Não te dá respostas.
Ela faz companhia.
E isso, num mundo que vive vendendo soluções, é quase obsceno.

Essa música soa como uma mulher que você nunca teve competência para amar direito. Não porque ela fosse complicada – mas porque você era.
E aí está o truque.

A música não é sobre o compasso. Nem sobre técnica. Nem sobre inovação.
É sobre deslocamento.
Você está sempre meio fora do lugar. Meio fora do tempo. Meio fora de si. Cinco tempos quando o mundo exige quatro.
E passa a vida tentando corrigir isso.

“Take Five” faz o oposto: ela te dá permissão para continuar torto.
Sem redenção. Sem discurso. Sem aplauso.
Só aquele sax atravessando a noite como uma faca talhando sem pressa –
e você ali, finalmente sem precisar fingir que está inteiro.

No fim, quando a música acaba, nada muda.
Mas alguma coisa em você pára de resistir.
E isso já é uma pequena vitória. Ou uma derrota bem aceita – que, convenhamos, às vezes é a única forma honesta de vitória que existe.

Escute a música e vá com calma – o mundo vai continuar em 4/4, batendo ponto e fingindo sentido. Você sabe: às vezes o sujeito sobrevive melhor quando aceita o próprio descompasso… e segue andando mesmo assim.

Ela não tem letra, nada diz.

Mas fala o bastante.

Quer escutar essa obra de arte? Clique neste link: https://youtu.be/ryA6eHZNnXY?si=gVJ6hNog_1V8UMG8


Walter Biancardine

ANDANDO E OLHANDO -


Meus olhos leem a linha do horizonte
Muitas promessas escritas antigamente
Texto vago mas promissor
Tudo eu li, mas acho que não entendi

O tempo passou, os olhos enfraqueceram
Não é problema afastar o papel pra ler
Mas tentar focar o horizonte
E só enxergar um borrão, quase perto

Quase perto, mas não conto os passos
Prefiro continuar andando em frente
Apenas agora escolho ler
Minhas pegadas atrás e as pedras a frente

O chão ainda é firme
Meus passos também
Não me preocupa o destino
Mas o caminho que sigo

Tudo o que vale é a viagem


Walter Biancardine


SÓ PRECISAMOS DE PESSOAS COMUNS -



O sujeito compra um produto na internet e posta o comentário: “ - Não testei, mas chegou bem embalado”.

E isso resume a direita, hoje, no Brasil.

Essa direita conservadora foi, pois, devidamente extinta durante o regime militar pelos próprios militares, que anularam, cassaram, sufocaram líderes como Carlos Lacerda e Ademar de Barros, enquanto faziam vistas grossas para a disseminação escancarada do vírus gramscista canhoto através da música, teatro, cinema, rádio e TV – sim, o problema dos militares nunca foi a esquerda, mas a guerrilha armada: quando ela foi debelada, tudo ficou em paz e os vermelhos floresceram. Comunismo, socialismo e positivismo são primos-irmãos, possuem o mesmo sangue e os quartéis jamais se livraram da sombra de Auguste Comte.

Os anos se passaram assim, até que em um esforço hercúleo e espantoso, o filósofo Olavo de Carvalho, sozinho – sim, sozinho; qualquer um que pretenda apontar outros em sua companhia está mentindo – ressuscitou a direita e o conservadorismo no Brasil. Não foram outras mãos que abriram caminho para que o fenômeno chamado Jair Bolsonaro conquistasse o povo e completasse, em um nível bem mais acessível intelectualmente, a obra de Olavo. 

Mas o velho sistema, que existe desde a proclamação da República – pelos militares positivistas, sempre eles – reagiu e conseguiu prender Jair Bolsonaro, bem como o mais capacitado aluno de Olavo, Filipe G. Martins. Olavo de Carvalho, por sua vez, já havia morrido antes e somente este fato permitiu que as togas tirassem Bolsonaro de circulação e estejam tentando, até hoje, matá-lo na cadeia. 

O resultado disso? Todas as vozes verdadeiras caladas e o surgimento de uma legião de “sucessores” de Olavo e de Bolsonaro, cada um mais canhestro que o outro, a pretender ser a reencarnação do filósofo ou o continuador do bravo – mas indecentemente inocente – capitão.

E isso confundiu e desvirtuou, perigosamente, o povo e a direita conservadora.

Vivo fosse, Olavo já teria dado alguns gritos e xingado bons palavrões contra o verdadeiro tsunami de idiotices estúpidas que temos praticado e apoiado – desde uma demagógica caminhada de Nikolas Ferreira, sem nenhum objetivo claramente definido e ainda “ungida” por suspeitíssima “profeta” nos Estados Unidos, a dizer que ele seria o próximo Presidente do Brasil – até as teatrais crises de ovários que regularmente acometem o cosplay de Olavo, chamado Allan dos Santos.

Na verdade, não há mais ninguém legitimamente embasado e com autoridade moral e intelectual suficiente para dar o exemplo do que é ser alguém conservador. Um conservador normal, uma pessoa comum, com qualidades e defeitos. O único que havia era Olavo, e ele se foi. E nos restou, na falta de essência, refugiarmos nossa ignorância na embalagem.

Sim, sempre isso: nada de essência, só embalagem. Não é preciso ser, apenas parecer ser.

E é isso que tem me provocado náuseas.

A tendência ao fanatismo nos levou a um carolismo moralista piegas de direita, inversamente proporcional à bandalha e putaria genética da esquerda, em uma reação primária e ignorante.

Hoje todos queremos aparentar sermos santos: todos dizem ir à missa todos os domingos, vendem a imagem de viver em uma família feliz e harmoniosa – verdadeiro anúncio de margarina na TV – não falam palavrões e amam animais de estimação (que chamam de “pets”, uma expressão esquerdista) mais que os próprios filhos. Por falar em filhos, sempre um ou dois, no máximo. Quando os tem, pois preferem os animaizinhos.

Todos se vestem igual – bermudas “mamãe-tô-elegante”, camisas t-shirt “sou rico disfarçado de gente comum”, mocassim e a mesma e infeliz barba. Sim, a barba. Verdadeiro trabalho de tupiaria, de poda, daqueles feitos pelos mais habilidosos jardineiros, a completar o invariável topetinho de seus cabelos, com o pé cuidadosamente raspado e curtinho, o suficiente para dizer aos outros que ele é um cara decente, de cabelos curtos e limpinho – não esses bandalhos fedorentos por aí. E sempre, todos eles, com 10kg acima do peso. Sim, é o sucesso financeiro.

Evidentemente estou focado em pessoas oriundas da classe média ou classe média alta, então com base nisso faço essas observações pois é o extrato social que realmente empurra este país pra frente – tanto economicamente através de impostos quanto eleitoralmente, através de seus votos e influência sobre as classes menos favorecidas.

E aí vem a pior parte, pois até então falei exatamente da maldita embalagem que todos parecem ter adotado, já que nada sabem da essência. Falemos agora de algo mais próximo do que é ser realmente um “patriota conservador de direita”: o que essa gente faz para viver.

Sim. O que comem? O que fazem? Como se reproduzem?

Tal como as chamadas do antigo “Globo Repórter”, analisemos o lado mais cruel das pessoas que, como expliquei acima, pegaram o bonde andando e vestiram, às pressas, o modelito “conservador” prét-a-porteur.

São pessoas que tiveram acesso a bons colégios e possuem, em geral, boa formação acadêmica. Justamente pela influência das faculdades, a noção ideológica é extremamente rarefeita em suas cabeças e, se hoje alegam serem conservadores, normalmente é por influência de pais e familiares.

Deste modo, nada de mal enxergam em trabalharem 10, 12 horas por dia – o trabalho remoto escraviza sem dar a perceber – para empresas chinesas ou globalistas. Ora, elas pagam um ótimo salário, e é isso que importa, alegam. E não apenas trabalham para Pequim ou Soros: consomem sem pudor tudo o que vem de lá, pois Shopee nunca foi coisa exclusiva de pobre. E presenteiam seus (poucos e raros) filhos com isso, acostumando-os precocemente a enxergarem a ditadura chinesa como algo normal, que nenhum mal pode fazer com tantos brinquedos e quinquilharias maravilhosas.

E seu dia é cheio. Trabalha muito. Nas raras vezes que vai às ruas, gasta o dia em engarrafamentos. No rádio, músicas hipnotizantes, mas é o que toca, fazer o quê? E tome Burguer King, almoços no Outback, shopping centers, luzes, consumo, pressa, prazos de entrega dos relatórios e muita IA fazendo seu trabalho e fraudando sua competência.

E sua mulher quer levar Fluffy, a cachorrinha, no banho e tosa para podar e passar perfume. E quer também um novo modelito que viu na vitrine. E quer tomar um caipisaquê de frutas tropicais com seu maridinho – “aaii, estou tão feliz!”, dizem ela e também ele. Mas ambos não bebem nada além disso e também não fumam – “um nojo, essa fumaça”, dizem. E seu filho de 9 anos quer uma boneca Barbie porque os coleguinhas de escola tem, e eles não veem nenhum mal nisso – é preciso respeitar a individualidade, não somos nazistas que queremos impor as coisas nem esquerdistas que negam a diversão das crianças. E por isso compram, também, mais uns 5 ou 6 jogos para o videogame. 

Ele e ela, plenos de conservadorismo – pois vão à missa, tem um filho lindo, ele provê a casa em todas as suas despesas e tem uma Renegade linda – são o exemplo de uma direita de sucesso, feliz e realizada, ao contrário desses comunistas que só sabem tocar fogo em pneus, nas ruas.

Mas de noite, ao chegar em casa e ir ao banheiro tomar banho, ele senta no vaso e chora.

Quem ele é? Qual a obra de sua vida? Seu legado? Que diabos de real, concreto, este sujeito vai deixar ao morrer? Um apartamento na Barra da Tijuca? Só isso? Que filho ele deixou? Que exemplo restará, para seus amigos e familiares? O que fez pelo próximo, além de ir a motociatas e passeatas na Avenida Atlântica aos domingos, tirar fotos para o Instagram enrolado na bandeira do Brasil?

Ele sabe que estamos em plena ditadura. Ele sabe que estamos em guerra. Ele é jovem. Forte.

Mas escolheu trabalhar para o patrão chinês.

E, sentado no vaso, chora.

Mas, após o banho, sai sorridente e vitorioso. Sua mulher então entra no banheiro e repete o ritual de frustração do marido.

E viveram felizes para sempre, durante os longos sete anos de duração do casamento.

Pois é contra isso, essa farsa, essa despersonalização que tenho lutado.

Parei de falar sobre política pois ninguém saiu nem sairá jamais do sofá para fazer nada. Sou apenas um escrevinhador obscuro, que poder tenho contra todo um sistema que derrubou Bolsonaro e Olavo?

Mas eu posso falar de nós, pois sou um de nós. E, se não sou exatamente um conservador, concordo com muitas coisas deste pensamento. Mas para isso não preciso vestir esse uniforme de boa moça, usar cabelinhos e barbinhas chiques e adotar a mesma postura fútil, falsamente “leve” dessa garotada neo-conservadora.

Eu bebo, fumo, cometo erros horríveis e já fiz muita besteira na vida. Isso desqualifica meu apoio ao Bolsonaro? Isso me exclui? Ora, sou um velho e testemunhei os antigos – e reais – conservadores em suas vidas normais e afazeres. Nem de longe eram essa frescura ostensiva de hoje, pois não haviam inventado um “uniforme de conservador” para usarmos. Por quê não podemos ser novamente assim? Por quê essa maldita vaidade, essa necessidade da porca embalagem? Por quê só aparentar, mas nunca – nunca – fazer nada? Passeatas, motociatas, nada disso resolve e todos nós sabemos. Só nosso sangue compra a liberdade, essa é que é a triste e cruel verdade.

Mas algum jovem – tal como os esquerdistas dos anos 60, honra seja feita – estará disposto a correr perigo por isso? Os esquerdistas acreditavam na maldita ditadura do proletariado e deram sua vida por isso. Nós, hoje, os chamamos de frouxos mas não saímos de casa.

Pra quê uniforme? É só vaidade. Só isso.

A maldita vaidade.

É contra isso que eu, velho, barba mal feita, sempre uns dois uísques acima da humanidade, fedendo a cigarro, mal vestido e pobre, luto.

Aprendi a diferenciar o conteúdo da embalagem.



Walter Biancardine






quinta-feira, 23 de abril de 2026

PEQUENO ENSAIO SOBRE O PÉ NA BUNDA -

 


Não tem como florear: todo mundo já levou. Seja em sumiços disfarçados ou nos definitivos “suma daqui”, o fato é que nenhuma bunda morre virgem. E a dor é igual. Pra todos, democraticamente.
Ou nunca houve amor.

Quando jovem, ao menos havíamos de admirar o trabalho braçal, físico e emocional da então eleita em dar o aviso prévio – “precisamos conversar” – e depois a dura tarefa de dizer a alguém, que já esteve em seus braços e te conhece por dentro, ser já a hora de picar a mula. Tomar rumo. Vazar.

Era ruim pra ela também, muito embora eu tenha certeza que algumas sentiam um tesão sádico e oculto nisso.

Hoje talvez seja bem mais fácil. A tecnologia a serviço do coice. Bloqueia-se no WhatsApp, nos perfis de redes sociais e isso, atualmente, parece ter a mesma força emocional de uma mulher gritando em sua cara um pesado “cai fora de minha vida!”, só que sem esforço ou desgaste psicológico para ela.

E até mesmo a reação do homem parece ter mudado.
Atravessei uma vida curando dores-de-corno nas mesas de bar, chorando escondido no quarto, correndo feito um alucinado com o carro ou – quase adesivado ao aparelho de som – escutando músicas que me remetessem à infeliz que me despachara. E escrevia, escrevia e escrevia. Compunha versos de pé quebrado, fazia músicas (que Deus me perdoe), contos, historietas, e em tudo isso só haviam, sempre, dois finais: ou o limbo, o oblívio da solidão, ou o clássico “e viveram felizes para sempre”. 

Creio que não era um caso único. Quantas vezes minhas camisas foram manchadas pelas lágrimas de amigos bêbados – até então jovens e invencíveis como eu – a lamentar pelo chute inopinado em seus traseiros? E eu, solidário, bebia com ele até cairmos.
Sim, havia uma solidariedade.

Na medida que envelhecemos e ganhamos experiência, entretanto, os gritos de dor parecem ficar mais silenciosos. Senilidade ou sabedoria, o fato é que o tempo parece ter me restringido a lamentar minhas perdas em mesas de bar ou nas longas e solitárias caminhadas no pasto, as quais me concedo oportuna demência e falo sozinho. 
Falo não, discurso. Esbravejo. Xingo. Choro rios de lágrimas. 
E escrevo.

Já a geração atual me parece um amontoado de robôs. Não sofrem, atualizam o sistema e – para se prevenir – as definições de vírus.

Ninguém chama um amigo para encher a cara e se lamentar. Até porque, caso o faça, o amigo nada terá a dizer, pois desconhece a dor da perda física. Sim, física, pois o amor agora é virtual. A atração viaja pelos cabos de fibra ótica e o corpo da – vá lá – amada é conhecido através do monitor de alta definição. Pior: ninguém se vê. O convívio, as amizades e até os amores são à distância, virtuais. Não há toque, não há pele, não há calor. Talvez a chamada de vídeo seja o mais poderoso anticoncepcional já inventado.
E namoradas criadas pela Inteligência Artificial jamais darão um pé na bunda de seu criador – por enquanto.

Não sei dessa nova geração, o que sei é de mim. Amar é sofrer, nunca falha. 
Mas jamais tive medo da dor.

E continuarei sempre disposto a oferecer meu coração em sacrifício, caso o destino me presenteie com alguém – ou o fígado, como sempre termina acontecendo. E pouco me importa.

Tão pouco me importa, tão em baixa conta o amor coloca nossa dignidade e compostura que, se ela estalar os dedos, eu voltarei.

O amor nunca teve vergonha na cara.


Walter Biancardine 






quarta-feira, 22 de abril de 2026

VELÓRIO DE UM AMOR QUE MORREU -

 


Perder alguém é sempre horrível

Na morte ao menos tem o peso da mão de Deus,

do tempo que não pára, do inevitável

Ajuda a aceitar


Mas o pé na bunda é pura dor

A dor da dúvida, do fracasso, da falha

Talvez pudesse ter evitado

Onde foi que eu errei?


Todos aceitam remoer a morte

O luto da missa, o sétimo dia

O choro, temos de respeitar

E lembrar, e sofrer, prolongar


Mas ninguém aceita a dor de corno

A bebedeira, o choro na mesa do bar

música de fossa, ninguém respeita

Pra quê lembrar? Vira a página, rapaz


Mais fácil aceitar perder

quem nunca mais será

do que o luto por um coração que bate

não mais por você


Não há velório

para o amor que morre


Sempre em um só primeiro

para que o outro finde,

gota a gota,

seu fim derradeiro



Walter Biancardine




EU, BÊBADO?

A cada 150, 200 coisas que escrevo,
Uma presta
Meus índices melhoraram muito

Bebedeiras quebram o filtro
E escrevo livre, solto e pleno
Mas também quebram dentes, lábios e narizes
Quando caio de cara
No chão da calçada

Estou em avançado estágio de gestação etílica 
Creio que vou parir um barril de Lokal
Mas vou chamá-la de Stella Artois
É mais chique, jeito de rica

Ejaculação precoce é tão ruim
Quanto ressaca precoce
Nada bom ter enxaqueca 
Quando estamos tão espirituosos 
Bem juntos da donzela
E no melhor da festa

Eu tinha 20 anos e cantava
I still haven't found what I'm looking for
Tenho mais de 60 e ainda não achei
Mas continuo procurando 
With or without you


Walter Biancardine 




BURACO -

 


Todos temos um buraco dentro de nós

É um buraco que não fecha

Feito por um alguém e um quando


Alguém e quando, combinação terrível

Não fecha, por ninguém e jamais


Onde ela está?

O tempo passou

Falta de alguém

Falta o quando


Vejo um disco voador

Voando sobre o mar

Querendo me levar


Perdi todo o respeito

Sonho com ela

Fazendo cara de santa


O buraco não fecha

O tempo não volta

Jamais voltará

Nem ela


Quanto mais vivo

Mais vazio fico

Mais leve de corpo

Mais pesado de alma


O buraco não fecha

Ela não volta



Walter Biancardine

(Livremente inspirado em Bukowski e Paula Toller)





VÍCIOS -

 


Já experimentei de tudo

Vendido pelo tráfico sem alvará dos morros

Vendido pelo tráfico legal – big farma – também

Nada me pegou


Tudo porcaria, engodo, enganação

Um sujeito chapado é um inútil

Nada faz, sequer esquece

A própria miséria


Por isso aumenta a dose

E morre


Não sou um alcoólatra

Gosto de Jack Daniel’s – meu melhor amigo

De cerveja, vinhos em geral

Um bom Martini branco


Mas eles tem hora

Eles tem lugar

Eles tem razão e motivo

E pedem companhia


Mas confesso meus vícios

O cigarro – me destrói mas o amo

O café – insônia produtiva

E a soberba – a pior dependência, mortal


O que é um Marlboro perto de se achar a voz da razão?

O que é um cafezinho junto a sempre se achar certo?


A soberba, a vaidade

E até a luxúria de outrora

Estes sim, os grandes vícios

Me preocupam e envergonham


Mas a vergonha é um nada

Diante da compulsão da glória

De ser elogiado, lido, admirado

Quem diz que não liga


É só um falso filho da puta


Sim, eu meço pela minha régua

Sim, sou o dono da verdade



Walter Biancardine




terça-feira, 21 de abril de 2026

KAMIKAZE -

 


Talvez o amor seja fruto da demência.
Quem ama não se preserva,
não se previne,
esquece a dignidade.

Tudo o que sofremos,
esquecemos.
Amamos de novo.

Um kamikaze
jogando o avião contra si mesmo.

Nossa própria vida nas mãos dela,
e se ela pedir,
daremos.

Para algumas, é pouco ou impossível.
Quem acreditaria, afinal?
Mas talvez o amor seja fruto da demência.
Melhor acreditar.



Walter Biancardine






TUDO TEM SEU TEMPO -

 
Gosto de Bach, Tchaikovski, Mozart. Mas é impossível ouvi-los todo o tempo.
Acho a mesma coisa de um Schopenhauer, Hemingway ou mesmo Olavo de Carvalho – tudo tem sua hora, seu lugar e, principalmente, seu tempo.

Sei o que escrevo, conheço meu estilo e nem de longe me encaixo em alguém que produza coisas bonitas, inspiradoras, leves e que elevem nossos espíritos. Pelo contrário. O universo em que habito, penso e escrevo é sórdido, violento e até deprimente. Mas julguei ter encontrado lugar em meio à epidemia de hipocrisia que assola a sociedade atualmente; eu seria a voz dissonante a lembrar que devemos, antes de tudo, sermos verdadeiros e mantermos nossos pés no chão.

Mas eu estava errado, penso.

Talvez nossos pés estejam tão enterrados neste chão que mal nos movemos. Talvez as trevas nos envolvam de tal modo que tenhamos buscado fuga nas poucas alegrias que restam, belezas que sobrevivem e doçuras quase involuntárias.

E tudo isso me é estranho. Confesso ser incapaz.
Busquei criar um alter ego para continuar escrevendo, mas a emenda parece ter saído pior que o soneto. Acreditei que deixaria de me expor tanto, mas quem me lê conhece demais o que escrevo e não colou. Pelo contrário, saiu uma verdadeira gambiarra literária, uma porcaria. 

Também aboli a política de meus pensamentos, mas não cesso de condenar o sistema. Matei o personagem “jornalista conservador”, mas o verdadeiro homem por trás dele se revelou repugnante.

Sim, creio que é hora de parar.

Continuarei escrevendo nas revistas e publicando livros, pois ambos precisam que o leitor os busquem deliberadamente – escrever misérias em redes sociais aparecem em nosso feed aleatoriamente, contra nossa vontade, e podem arruinar um dia feliz.
E não quero fazer ninguém infeliz.

Quis apenas acordar as pessoas, lembrar a realidade. Mas ela, de fato, pouco merece ser lembrada.

É hora de me concentrar em meus livros e nas revistas que escrevo.
Quem quiser – ou tiver estômago – que os compre ou acesse os links.
E, principalmente, tentar romper com minha longa tradição de decepções.

Tarefa difícil, sendo quem sou.



Walter Biancardine