quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O AMANHÃ NUNCA CHEGOU -

 

Tantas vezes prometi a mim mesmo que amanhã seria outro dia,
um novo ar, sangue a pulsar, decidido a ganhar.
Mas só vontade não basta, os ares não sustentam, o sangue a pingar.

Deixava minha cama sem saber o que fazer, olhar no espelho e chorar,
depois rir a lembrar que ontem era igual, mas o amanhã acabou.
Veio o novo dia, permanece a agonia e não sei onde vou.

Prometi ao amor que seria diferente, nunca mais insistente,
e tudo isso no amanhã, o melhor dia dessa vida poente.
Mas nem na vida ou no amor, o amanhã nunca chegou.

Eu iria melhorar, voce iria se alegrar,
Mas o amanhã nunca chegou.

Sento, espero, sonho e tolero o que sou,
Melhor mentir, acreditar no amanhã,
Mas o amanhã nunca chegou.

Já fui jovem, hoje sou velho,
e o amanhã nunca chegou.


Walter Biancardine 



terça-feira, 6 de janeiro de 2026

MÃOS


Onde ponho minhas mãos
Que não se queimem de medo,
Que não deixe os anéis 
Para salvar os dedos?

Onde ponho minhas mãos 
Que não sangrem o que toquei,
Não esmaguem o que agarrei?

Onde ponho minhas mãos 
Que não pareça sem ter onde usá-las,
Que não seja para dá-las

Em adeus a quem se foi?


Walter Biancardine



A ESTUPIDEZ HUMANA -



A burrice é o mais democrático dos defeitos, atingindo a todos independentemente de raça, credo, nacionalidade ou escolha sexual.

Veja por exemplo o povo dos EUA, que construiu a maior potência que este planeta já viu: suas mulheres urbanas, na faixa dos 20/30 anos e com boas colocações no mercado de trabalho corporativo - portanto o discernimento deveria ser item obrigatório - elegeram para a cidade de Nova Yorque um prefeito muçulmano.

Estas mulheres lutam contra o patriarcado, mas o Islã é patriarcal até a raiz dos cabelos - e das barbas.

Estas mulheres eram recém nascidas ou crianças quando muçulmanos lançaram aviões contra as Torres Gêmeas e mataram mais de 4000 habitantes da mesma cidade que elas moram - e nada viram de errado em colocar outro muçulmano após um deles matar 4000 vizinhos seus.

E tudo isso acontece na maior potência do planeta.

Quem sou eu para condenar o anencéfalo que segue a cartilha esquerdista?

Quem sou eu para criticar o gado de corte que segue cegamente os milhares de flautistas de Hamelin da direita, que encantam seus seguidores repetindo as opiniões de seus próprios inscritos ou vendendo cursinhos, livrinhos chupados de outros ou outras enganações?

Quem sou eu para apontar o dedo para os infames "coachs", que nos ensinam tudo - desde andar de cabeça erguida e sermos quem nunca quisemos ser, até coisas básicas como o sentido correto do papel higiênico ao limpar a bunda? E pagamos por isso!

Quem sou eu para condenar quem não tem vida própria e corre atrás das opiniões alheias para formar a sua?

Não sou ninguém e nem tenho nenhuma moral para isso, pois quem não tem onde cair morto é por sua idêntica burrice em jamais ter conseguido prover a si próprio.

Apenas dou graças a Deus de estar já no fim desta terrível viagem.


Walter Biancardine



segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O QUE SE QUER É DINHEIRO -


O sujeito faz uma página nas redes sociais dizendo que está fornecendo informação confiável; que naquele site somente a verdade tem lugar e que os valores que você busca estão todos ali, à sua disposição. Leia, leia e leia!

Ótimo, o cidadão faz sucesso e seu perfil lotou.

Qual é a providência seguinte? Fazer um Clube de Assinantes, um Sócio Premium ou qualquer outra palhaçada que pareça importante e faça de você uma pessoa exclusiva, que terá informações exclusivas, comentários exclusivos e bastidores exclusivos. É só pagar.

Mas...e o resto dos mortais, que não querem ou podem pagar?

Estes ficam com as sobras, com as migalhas que caíram da mesa...que, se você pensar bem, certamente eram as mesmas migalhas que ele oferecia antes de seu clube VIP, e que serão iguais às que ele cobra aos trouxas - pagam para ter o mesmo, apenas com palavras diferentes e gestos teatrais.

Assinatura? Clube de Assinantes? Área VIP?

O mais refinado conto do vigário, onde idiotas pagam por algo que não custou um centavo ao pilantra que o oferece.

Pense bem antes de assinar qualquer coisa.


Walter Biancardine



A MAIS FÁCIL DAS MULHERES -


A todos aceita,
A todos se impõe;
Não faz distinções 
Se homem bonito
Ou mulher de ladrões;

Ela deseja, ela quer
E sempre vem buscar,
Pobres, ricos, bons 
Ou maus;

Santos e pecadores,
Milionários ou perdedores,
Pretos ou brancos,
Agiotas e devedores;

Ela não falha, sempre vem,
Insaciável, aparece quando convém;
Cedo ou tarde, mal ou bem;

Dela ninguém foge;
A mais democrática, 
A puta inevitável, 
Sem azar ou sorte;

Ela atende
Pelo nome de Morte.


Walter Biancardine




CORRA -


Você pode correr o quanto quiser,
Deus pode até perdoar
Mas a vida não vai.

Você pode correr,
Pode mentir, pode beber;

Siga dançando, bata palmas;
Aumente o volume,
Não escute sua alma;

Você pode correr o quanto quiser,
Deus pode até perdoar
Mas a vida não vai.


Walter Biancardine


NOVO ANO, NOVO EU - OU É O VERDADEIRO?


Escrevi recentemente que "não tenho estofo d'alma para preencher os requisitos morais do conservadorismo do Instagram" e, muito menos, dos fariseus do templo das redes sociais.

Eles são perfeitos, santos, imaculados, felizes - e se não estão próximos do céu por sua piedade, certamente estarão pela idade, eis que a direita é a ala geriátrica dos militantes políticos.

Mas os conservadores do Instagram e os Fariseus do Facebook só falam para a bolha - tal qual acusam a esquerda - pregam para doutrinados e mantém cativo um público de anciãos, incapazes que são em cativar audiências jovens.

Eu, ao contrário deles, sou apenas um cara que escreve para manter a sanidade mental. Matei o personagem "jornalista", que tantas desgraças me causou e roubava minha liberdade de ser o que sou; mudei meu perfil e voltei a ser o velho Walter de sempre: absolutamente livre - sim, LIVRE, ouviram? - dependente químico de alguns momentos de solidão e incapaz de me decepcionar com ninguém, já que nada espero do ser humano em geral - esta maravilha capaz de ser divino e mesquinho em um só dia.

Fiz questão de frisar a palavra "livre" pelo fato de ser um atributo que pouquíssimas pessoas alcançam. Não sou prisioneiro de um circunspecto personagem, construído para angariar seguidores e me tornar um "influencer". Não sou prisioneiro de ideologias ou pensamentos políticos - já que um conservador de Instagram jamais declararia, de maneira tão descarada, seu amor por uma mulher: ele seria casto, comedido e puro - e, sequer, aprisionei-me em minha fé católica, pois os pensamentos e desejos impuros que povoam minha mente não são espantados: pelo contrário, eu os busco ao lembrar de quem amo. Para piorar, sou um apreciador explícito do bom whisky Jack Daniel's e considero uma eventual bebedeira como a janela que permite a passagem do sol, nunca da hipocrisia.

Sou um escritor. Tenho seis surtos (livros) publicados mas vendas porcas, pois me recuso a fazer propaganda, uma questão de vergonha. Tenho ensaios filosóficos escritos e publicados, um histórico como aluno de Olavo de Carvalho (que inclusive compartilhou coisas minhas), escrevo para três revistas (uma delas, européia), antecedentes em rádios, jornais e TV's e uma cultura que já desmontou e humilhou teses de mestrado e relatórios de doutorado, mas percebi que tudo isso era mesquinharia e pura vaidade; não passa de torpe sentença, prisão e morte de minha alma. E da alma de qualquer um que ceda à vaidade, o pecado predileto do demônio.

Assim, tudo varri para baixo do tapete, me sobrando apenas o ato de escrever livros - doravante apenas romances - e minha liberdade plena e absoluta de viver sendo quem sou, pouco me lixar para o que pensam de mim e de amar a mulher mais maravilhosa que existe - sim, minha onça do Pantanal, e tamanha é a liberdade com que a amo que o faço sem esperar que me ame de volta. Alguém pode apontar um sentimento mais sincero e descaradamente transcendente?

Não tenho onde cair morto, portanto ninguém teria qualquer despeito material sobre mim. Mas a vida me ensinou que existe a "inveja da alma", que é quando uma pessoa se adesiva a você e se torna um organismo em eterno processo de osmose de sua personalidade, gostos, tiques, prazeres, qualidades e até defeitos - tal pessoa está em um processo auto inflingido de despersonalização e em busca de um personagem melhor, pois percebeu que o anterior já não faz mais tanto sucesso.

E o que penso de tais pessoas? Pouco se me dá. A verdade é que jamais as dei a mesma importância que aparentam dar a mim e, por isso, nenhum espaço ocupam em meus pensamentos. Se neste momento os cito, bem como as demais vicissitudes expostas acima, isso se deve a uma satisfação de final de ano, devida aos amigos que me seguem nesta rede e que certamente sentiram as modificações que fiz em meu perfil.

Sim, tudo mudou, mas não se trata de uma nova pessoa: apenas o verdadeiro homem - poço de defeitos e poça de qualidades - está de volta, para o melhor ou pior.

Como disse meu parceiro e alma gêmea Charles Bukowski, "prefiro que me odeiem pelo que sou a me amarem pelo que finjo ser".

Prazer, amigos! Meu nome é Walter e desejo um Feliz 2026 para vocês!


Walter Biancardine



REINICIANDO AO REVEILLON -


Não será um novo dia,
De um novo tempo
Que começou. 

É só uma noite,
Renovando o contrato
Entre você e as esperanças. 

Todos fingem, comemoram,
E tudo passa, tudo muda?
Não, não é assim.

Nada há que seja novo
Sob o sol que nos queima;
É um miserável reboot.

Um restart do cérebro, 
Reiniciando sua fé 
E toda a sanidade possível. 

É mais uma vida,
Nova chance que você ganhou,
No X-Box da existência. 

Mas um dia será game over
E verá que nada mudou;
Traga meu Jack sem gelo, por favor.


Walter Biancardine



sábado, 27 de dezembro de 2025

MÜNZENBERG: ENRIQUECEU COM A ESQUERDA E INSPIROU GRAMSCI –



Raros são os militantes, ideólogos ou mesmo intelectuais das redes sociais que conhecem – ou mesmo já ouviram falar – de Wilhelm Münzenberg (14 de agosto de 1889 – junho de 1940), ativista e editor comunista alemão que, antecedendo Antônio Gramsci, inventou a propaganda e métodos de controle mental comunista que perduram, eficazmente, até os dias de hoje.

Neste artigo, vamos fazer o que os acadêmicos raramente conseguem – pegar dois sujeitos aparentemente distintos e mostrar por que, no fundo, são frutos da mesma árvore política e psicológica.

Antonio Gramsci e Willi Münzenberg, à primeira vista, parecem viver em planos distintos: um, um teórico preso pelo fascismo, escrevendo sobre hegemonia e superestrutura; o outro, um apóstolo da propaganda comunista internacional, que construiu impérios midiáticos e organizacionais para a III Internacional. Mas se mergulharmos no âmago de suas carreiras – na luta pelo poder cultural e pela transformação revolucionária da sociedade – as semelhanças brilham como aço polido, sob a luz da razão.

1) Revolução não só como ato político, mas como guerra pela mente e pelo senso comum

Gramsci entendeu que o poder não se conquista apenas com exércitos, barricadas e insurreições – hegemonia cultural é a chave: a classe dominante não manda porque simplesmente manda; ela domina porque molda o senso comum, as instituições, a educação, a moral popular. Gramsci transformou o marxismo tradicional, que via o Estado apenas como máquina coercitiva, numa teoria de domínio pela cultura e pela ideia, um bloco hegemônico que une força e consentimento.

Münzenberg, por sua vez, não fez teoria abstrata; ele praticou o que Gramsci só formulou no cárcere. Tal qual um misto de Assis Chateaubriand germânico com a atual esquerda mundial, ele construiu verdadeiros impérios de mídia e organizações de fachada (frentes) – jornais, revistas, fundos, solidariedade internacional, filmes, campanhas de conscientização – com um objetivo claro: influenciar mentalidades, estruturar alianças e converter o mundo ao projeto comunista. Ele era, com todas as letras, um estrategista da luta pelo controle simbólico e cultural, antes mesmo dos intelectuais compreenderem isso como conceito.

Do ponto de vista gramsciano, o que Münzenberg fez é exatamente hegemonia em ato – não no nível abstrato dos Cadernos, mas no chão duro da prática política. Ele não escreveu tratados sobre hegemonia; ele criou redes que moldaram mentalidades, idolatraram causas, e forjaram consensos em massa.

2) Intelectual e militante: a fusão insuportável para os adversários

Gramsci foi perseguido pelo fascismo não apenas por ser comunista, mas porque sua obra revela a intimidade entre teoria e política – um intelectual que não se contenta em interpretar o mundo, mas quer transformá-lo. Este cidadão pensou Marx com Machado de Assis e Maquiavel, viu o trabalho ideológico por trás de cada movimento social e traduziu isso em estratégia revolucionária.

Já Münzenberg, ao contrário, abominava a pura teorização. Ele vivia no tablóide, no jornal, no panfleto, no filme – nas ruas da Europa e da América. Mas isso não o livra de uma função íntima à teoria gramsciana: ele era um intelectual prático, um produtor de sentido, o tipo de sujeito que Gramsci diria ser parte essencial da construção de uma nova ordem cultural.

Os dois – cada um no seu hemisfério – são testemunhas de que a guerra pelo poder é, antes de tudo, uma guerra pelo sentido e pelo controle da narrativa.

3) Organização, massa e o novo “Partido” (ou rede)

Gramsci inovou ao chamar o Partido de “moderno Príncipe”: uma instância que não age apenas como coesão burocrática, mas como centro de produção de cultura, moral e vontade coletiva.
Münzenberg operacionalizou essa ideia antes que fosse formalizada: ele fez do seu vasto aparato de jornais, filmes e frentes um núcleo ativo de direção política capaz de mobilizar milhões, muito além de células partidárias clássicas – e nesta observação não vai nenhuma referência desairosa ao controle total da mídia brasileira pela esquerda do Foro de São Paulo. Ele agiu no terreno que Gramsci definiu como essencial: sociedade civil e cultura popular – não limitando a política à mera relação com o Estado, mas por meio de redes que moldam opinião, sentimento e linguagem social.

Essa noção de “partido ampliado” – um organismo que se infiltra na cultura, não apenas na máquina estatal – é um ponto onde as trajetórias de Gramsci e Münzenberg se fundem como dois rios que correm para o mesmo mar.

4) Internacionalismo versus nacionalismo: dois caminhos para o mesmo objetivo

Gramsci escreveu de dentro da prisão italiana, pensando a revolução como um processo social complexo que precisava ganhar o mundo das ideias; ele não vivia o cosmopolitismo prático, mas compreendia estrategicamente que o marxismo só triunfa se dominar a cultura em cada contexto nacional.

Münzenberg via isso com os olhos abertos no campo global – ele era um agente direto da Internacional Comunista e acreditava que o socialismo precisava de solidariedade transnacional, mobilização planetária e imprensa internacional. Ele operou com frentes que iam de alívio a soviéticos famintos até campanhas contra o fascismo e o colonialismo. Se Gramsci formulou a estratégia, Münzenberg a implementou no mundo concreto.

5) O terreno comum: cultura como campo de batalha

O que une Gramsci e Münzenberg é muito simples e brutal: eles sabiam que a luta não era só pelo Estado ou pela fábrica, mas pela cultura, pelo sentido, pela narrativa – pelo que as pessoas acreditam ser natural, justo e verdadeiro, quase uma ideologização do bom senso, tal qual o positivismo fez aqui no Brasil.

Gramsci disse que o poder é integrado por coerção e consentimento; Münzenberg viveu isso, construindo consentimento em larga escala, combinando jornalismo, propaganda, solidariedade, arte, e narrativa política. E, quanto mais eles fizeram isso, mais deixaram claro que nenhuma revolução – ou contra-revolução – vence sem ganhar o campo simbólico da sociedade.
Conclusão

Gramsci é teoria pura de hegemonia; Münzenberg é prática pura de construção de hegemonia.
Gramsci pensa a revolução como guerrilha cultural; Münzenberg atua como general dessa guerrilha nas trincheiras da mídia e movimento.

O que os dois têm em comum não é simplesmente o marxismo, mas a crença radical de que o mundo político se conquista pela mente, antes de qualquer outra coisa.

Este artigo não é resenha, não é fichamento, não é aquele mingau “neutro” que tenta agradar a banca. É um cru diagnóstico de guerra cultural, que é exatamente onde Gramsci e Münzenberg se encontram – e onde muita gente finge não ver nada.

Assim, seguimos adiante.

O próximo passo segue em três direções: linha do tempo comparativa, mostrando como Münzenberg já fazia, na prática, aquilo que Gramsci só pôde formular teoricamente no cárcere – o que desmonta muita leitura ingênua.

As fraturas internas: onde Gramsci é mais sofisticado e onde Münzenberg escorrega no cinismo instrumental; e onde Münzenberg é eficaz e Gramsci, perigosamente idealista.

Atualização contemporânea: como esse modelo Gramsci-Münzenberg foi herdado pela esquerda pós-1968, pelas ONGs, pela mídia “humanitária”, pelo ativismo identitário e pelo jornalismo militante – inclusive no Brasil.

Comecemos pelo primeiro eixo: a linha do tempo comparativa – quando a prática precede a teoria.

Aqui está o ponto que desmonta noventa por cento das leituras acadêmicas: Münzenberg antecede Gramsci no terreno real da guerra cultural. Enquanto Gramsci ainda militava no Partido Comunista Italiano e só mais tarde, já preso, amadurecia sua reflexão sobre hegemonia, sociedade civil e consenso, Münzenberg já havia entendido – intuitiva e operacionalmente – que a revolução moderna não se vence com fuzis, mas com imagens, narrativas, causas morais e comoção emocional organizada.

Münzenberg começa sua atuação decisiva logo após a Revolução Russa, nos anos 1920. Ele cria jornais ilustrados, campanhas humanitárias, frentes culturais “apartidárias”, redes de intelectuais, artistas e jornalistas simpáticos ao comunismo – muitos deles sem jamais se declararem comunistas. Eis o ponto-chave: ele percebe que o militante explícito assusta; o humanista indignado convence. Isso é uma verdadeira benção para a hegemonia.

Gramsci, por sua vez, só formulará com precisão, nos Cadernos do Cárcere, a ideia de que a dominação moderna se exerce menos pela força direta e mais pela ocupação do senso comum, pela lenta pedagogia cultural que transforma ideias históricas em “evidências naturais”. Em termos cronológicos, portanto, Münzenberg faz primeiro, Gramsci entende depois.

Isso não diminui Gramsci; ao contrário, o engrandece. Ele é o cirurgião que explica o funcionamento do órgão que Münzenberg já vinha usando como arma. Mas o dado histórico é incômodo: a esquerda venceu culturalmente antes mesmo de saber explicar direito como o fez. Münzenberg é o laboratório vivo do gramscismo antes do nome.

Passemos ao segundo eixo: as fraturas internas – onde cada um falha, e por quê.

Gramsci é sofisticado, profundo, quase genial. Mas paga um preço: subestima o cinismo do poder real. Seu modelo de hegemonia ainda guarda uma esperança pedagógica – a ideia de que uma nova cultura produziria um novo homem, mais consciente, mais elevado, mais racional. Aqui ele ainda é herdeiro do iluminismo marxista, mesmo quando o critica. Há nele uma confiança excessiva de que a hegemonia pode ser moralmente superior, não apenas eficaz.

Münzenberg não sofre dessa ingenuidade. Ele entende cedo que a verdade é secundária, que o decisivo é a eficácia simbólica. Não importa se a causa é justa em si; importa se ela mobiliza afetos, gera culpa, cria adesão emocional, constrange o adversário. Aqui está sua força – e sua podridão.

E é exatamente aí que Münzenberg se perde. Seu modelo exige mentira sistemática, manipulação contínua e instrumentalização absoluta de pessoas e tragédias. Ele cria o protótipo do intelectual “útil”, mas descartável. Não por acaso, termina isolado, perseguido e eliminado pelo próprio sistema que ajudou a erguer. O método funciona, mas devora seus operadores – como todo demônio eficiente.

Em resumo:
– Gramsci pensa melhor do que o mundo real permite.
– Münzenberg opera melhor do que sua própria alma suporta, mesmo tendo se tornado um burguês milionário, objetivo último de todo esquerdista.

Os dois revelam, cada um à sua maneira, que a hegemonia cultural é eficaz, mas moralmente corrosiva – sobretudo quando desligada de qualquer noção de verdade objetiva.

Chegamos ao terceiro eixo: a atualização contemporânea – onde o cadáver ainda anda, e fede.
Aqui a coisa fica desconfortável, porque deixa de ser história e vira espelho.

O modelo Gramsci-Münzenberg não morreu; ele se institucionalizou. Pós-1968, a esquerda abandona de vez a tomada violenta do poder e investe tudo na cultura, na linguagem, na mídia, na educação, no entretenimento e nas causas morais difusas. Direitos humanos, ambientalismo, identitarismo, jornalismo “engajado”, ONGs, coletivos artísticos, universidades – tudo isso funciona como frentes ampliadas, exatamente no espírito münzenberguiano (perdoem), com verniz gramsciano.

O militante de hoje não carrega foice nem martelo; carrega indignação seletiva, vocabulário moralizante e uma aura de superioridade ética. Ele não diz “sou comunista”; diz “sou do bem”. Münzenberg sorriria no túmulo. Gramsci faria anotações.

No Brasil, então, o caso é quase didático. A hegemonia cultural foi construída não pelo debate aberto, mas pela ocupação lenta e persistente de redações, departamentos universitários, editoras, escolas, produtoras culturais e tribunais simbólicos da opinião pública. Quem controla a narrativa não precisa ganhar eleição – ganha o imaginário, e o resto vem por inércia ou constrangimento.

E aqui vai a conclusão última e óbvia, sem anestesia: quem não entendeu Gramsci e Münzenberg, não entendeu por que a direita perde mesmo quando vence.

Gramsci fornece o mapa.
Münzenberg testa o terreno.
A esquerda aprende.
A direita, até hoje, finge que é coincidência.



Walter Biancardine
Suzana Souza (Su Su)



quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NANA NATAL -

 


Pai do céu, 

Pai Noel,

Protege em seus braços 

Quem tanta dor já sofreu;

Livrai do mal que viveu,

Soltai esses laços, 

Derramai o seu mel.


Traga um presente,

Nos dê sorridente,

Em seu amor que não cobra;

Acolhe no colo,

Raízes no solo,

E a vida desdobra

Nessa noite tão quente.


E se Noel não existe

O sonho insiste,

Pois o céu nos abriga;

Ressona em meu peito,

O mal é desfeito,

O amor já nos liga

E Deus nos assiste.


Walter Biancardine 




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

NATAL COM UM AMIGO -


Nunca fui referência para ninguém; toda a minha vida sempre foi estranha e contraditória e mesmo tantos anos frequentando redes sociais - os quais acabaram por situar-me como um "conservador" aos olhos alheios - jamais conseguiram aprisionar meu monstro interior em rótulos, embalagens e definições, as quais apenas tornam todo o universo que habita a alma humana em um porco e simplório estereótipo.

Onde um conservador - dos atuais, daqueles que postam no Instagram e estão a apenas um degrau abaixo da santidade do padre Pio de Pietrelcina - se embebedaria até cair desmaiado, em casa? Onde um legítimo guardião da moral e dos bons costumes espiaria, sedento, a bunda de sua linda amada em qualquer descuido que ela desse, mesmo não sendo ainda casado com ela? Em que hipótese apocalíptica este conservador - bastião da correção de atitudes - jamais teria oferecido uma "merreca" pro guarda liberar seu carro com IPVA atrasado?

Sim, esta coisa imunda, abominável, falha e quase inviável - também chamada de "ser humano médio" - sou eu, e por isso o cotidiano hipócrita da "direita conservadora" (essa, a do Instagram) tem me enojado e forçado a conclusão de que a mesma é apenas uma esquerda com sinal trocado.

Se a esquerda tem papagaios que apenas repetem slogans e palavras de ordem, os "conservadores de Instagram" são capazes de repetir artigos, textos ou até videos inteiros, como fossem de sua autoria. Repetem ad nauseam temas que já passaram, se detém em factóides que são, claramente, "false flags" - a sandália Hawaiana é um deles, pois enquanto todos repetiam opiniões alheias, ninguém comentou a sobretaxa de 30% de imposto em bebidas alcoólicas (o "Imposto do Pecado", aprovado pelos deputados Federais) ou a nova lei que invalida a CNH de devedores.

E então chega o Natal, data que a vida já se encarregou - com soberba competência - de retirar todo o significado para mim e transformou a Noite Feliz em um enorme e empoeirado galpão de lembranças inúteis. Olho para o que fiz, no inevitável balanço de fim de ano, e descubro que passei uma vida lutando contra o inimigo errado: soubesse eu o que sei hoje e jamais teria desperdiçado tanto tempo lutando contra ideologias, quando o maior problema é a falta de caráter dominante.
E me sento no sofá.

Quis o bom Deus que eu tivesse ao menos um amigo fiel, o bom e velho Jack, e com ele me consolasse de tais desvios do destino.

Sim, Jack - o Daniel's - é um bom sujeito: me dá a liberdade de falar o que sequer sabia que poderia, me deixa à vontade para me perder em galanteios chorosos pela amada que não me quer, me faz esquecer uma lenda chamada dinheiro - sim, em minha vida é lenda - e me dá a coragem necessária para dizer um amplo, sonoro e corajoso "dane-se" para todas as minhas dívidas, minhas lutas inglórias, minhas asneiras olímpicas e toda a ampla coleção de equívocos que me tornaram isso que sou: alguém que chamam de "conservador" mas não passa de imundo pecador.

Sim, pois não tenho estofo d'alma para preencher os requisitos morais do conservadorismo do Instagram.

Resta-me eu, o amigo Jack e uma boa ressaca no dia 25.

Feliz Natal a todos!


Walter Biancardine


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

ME ENTERRE SEM PERMISSÃO -



Não deixe flores em minha tumba,

Não traga coral nem carpideira imunda, 

Sem discurso de amigo ou mesmo oração, 

Só me deixe na terra que me fez.


Não sou a soma de suas rezas,

Não sou nem o tipo que tu prezas, 

Segui na estrada fechando a mão, 

Sem perguntar ao fazer outra vez.


Não peça licença para me enterrar,

Não encomende minha alma de novo,

Fiz as pazes com a ferrugem e o pecado,

Sem roupas melhores para o homem que fui.


Sem verdades na lápide, nem última olhada,

Só deixe o silêncio me puxar,

Não deixei uma última edição, 

Me enterre sem permissão. 


A cova não pergunta quem trai, 

Nem se importa com dívidas, 

Sete palmos abaixo, nenhum favor me deve,

Ela só guarda o que o tempo vai apagar.


Me enterre sem permissão, sem padre ou contrição, 

Me xingue de nomes ou cuspa o meu,

Mas não finja que começo de novo,

Sem mãos postas ou palavras bonitas.


Ganhei o direito ao bem e ao mal,

Não é nenhuma superstição, 

Apenas me enterre

Sem esperar permissão.


Walter Biancardine



segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

BERCEUSE POUR NANA -


Nana neném, meu bem,
o mundo é rude - eu sei -
mas nada te alcança além
do abraço que te dei.

Nana, neném e flor leve,
que a noite não te assombra;
se algum temor se atreve,
eu o calo antes da sombra.

Dorme sem peso, enfim,
que eu guardo o que te falta;
se o mal vier contra ti,
em mim se sobressalta.

Dorme, amor meu, Nana assim,
tranquila, mansa, serena;
pois tudo em mim diz por mim
que te amar é a minha pena -
e a minha alegria também.


Walter Biancardine


domingo, 7 de dezembro de 2025

NÃO ME IMPORTO MAIS


Me importava com o que diziam,

Escondi meus demônios, usei máscaras,

Interpretei um papel

Mas hoje mostro coração e trevas


Não quero aplausos ou paz,

Vim para quebrar, não para agradar,

O mundo não ama o que o sol mostra

Já não me importo mais


Já não me importo mais,

Largo o caminho, deixo bater,

Não peço, não imploro,

Só não desisto, só não minto


Que você peça, que você reze,

Nada adianta, não vou mudar,

Porque isso é quem sou

Já não me importo mais


Perdi tempo em tentar ser,

Perdi amores tentando,

Mas agora durmo à noite

Já não me importo mais


Já não me importo mais,

Deixo o passado queimar onde está,

Não planejo, não reescrevo,

Só a fumaça e um copo gelado


Diga do meu frio, me chame de cruel,

Não tenho professor ou provas,

Deixei de ser um garoto,

Já não me importo mais


Se a paz vier em correntes,

Que venha o peso, que venha o fogo

E a bola de ferro,

Já não me importo mais


Hoje sei quem sou,

Sem redenção ou carinhos,

Só a verdade na poeira da estrada,

A tempestade que arde


Você é calma e eu a fúria,

Você é doce, eu nunca nasci,

Mantenha suas regras, as suas vergonhas,

Já não me importo mais.


Walter Biancardine


NOTA: Apesar de quase autobiográfica, esta letra foi inspirada em uma canção Blues, postada no canal Titan Chord



sábado, 22 de novembro de 2025

DESVIVENDO BOLSONARO -


Entendam: toda e qualquer manifestação contra a pornográfica atitude do psicopata Alexandre "22" de Moraes, que quer matar Jair Bolsonaro e executa seus planos na frente de todos, é dirigida aos ainda jovens, aos que estão no auge de sua saúde física e mental e dispõem de braços e pernas vigorosos, pois de nada vai adiantar fazermos passeatas pacíficas - com muitas fotos para o Instagram e levando crianças e cachorrinhos para depois irmos à churrascaria - quando está evidente que a única linguagem entendida pelo psicopata é a mesma que ele utiliza: a dor, o sofrimento físico e mental, e é isso que deve ser inflingido ao mesmo.

Não se acovarde atrás da desculpa de "precisamos pressionar o Congresso" pois, se o mesmo quisesse, já teria feito algo bem mais contundente: a deposição do Presidente da casa e, logo após, de meia dúzia de Ministros do STF. Alegar que eles tem "rabos presos na Corte" também é desculpa, pois seria suficiente votar leis extinguindo o foro privilegiado - e se nada fazem, é por conveniência e amor ao dinheiro.

Estamos todos presos, hipnotizados pela dinâmica de um ditador psicopata que se vale do estado de choque em que os poucos conscientes se encontram para estuprá-los com 22 centímetros de desaforos, violações, deboches e arbítrios diariamente, pouco se importando com retaliações externas - ele confia muito mais em sua turma, que inclui George Soros, Cartel de Los Soles, Foro de São Paulo, FARC e o tráfico mundial de drogas (sustentáculo da Nova Ordem Mundial) do que teme quaisquer atitudes de um Presidente que ele sabe ser temporário: Donald Trump.

E as nossas outrora amadas e respeitadas Forças Armadas - Braço Forte, "Mão Amiga" - é um remédio que, além de inerte e apenas agravador do problema, já tem seu Alto Comando devidamente comprado e bem pago pela ditadura comuno-narco-globalista que nos escraviza.

A solução - distante, vaga, hipotética - é a nossa juventude, eu repito. Estamos em guerra, trata-se de aberrante estado de legítima defesa contra assassinos de Brasília e que somente através de suor, testosterona e sacrifício poderemos ter alguma chance de sobrevivermos, como país e como seres humanos com filhos para criar.

Nada se pode oferecer aos jovens, além das palavras de Winston Churchill, diante da igualmente doentia ação de Hitler: apenas "Sangue, Suor e Lágrimas".

Você que é jovem, salve seu país. Salve sua família. Salve a si mesmo.



Walter Biancardine



sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O FEIJÃO E O SONHO DE JUNG -


Aos que insistem em me acompanhar e ler os desvairios que escrevo, faço o convite: sente-se, pegue um café, acenda o cigarro da desistência temporária e deixe-me falar dessa mania antiga do ser humano – mais especificamente, este que vos escreve – de procurar sentido nas engrenagens invisíveis do mundo e, sempre e sempre, acabar tropeçando nelas. Carl Jung chamou isso de sincronicidade; eu chamo de tapas metafísicos que a vida dá quando percebe que estou distraído demais com minhas próprias ruínas.

Jung via coincidências significativas tal como janelas rachadas do inconsciente, onde a realidade lá fora resolve combinar com a cena interna aqui dentro. Um passarinho que bate no vidro no exato momento em que você decide abandonar alguém ou um amigo – para os que ainda os tem – que liga no instante em que você está prestes a jogar tudo no lixo. Seriam pequenos recados que o universo deixa cair, como quem solta um bilhete amassado no chão de um bar.

Os arquétipos entram aí como velhos fantasmas familiares, aqueles tipos universais que moram no porão da alma. O herói, o velho sábio, a mãe terrível, o inimigo invejoso – não importa o país ou o século, eles estão sempre vivos, esperando uma brecha para se manifestarem. E quando se manifestam, fazem isso com uma elegância sombria que só as sombras bem treinadas possuem. Podemos ver uma cena banal, mas ela parece repetir uma história que já vivemos em outra época, com outros rostos. Pois é, a vida parece adorar brincar de eco.

O problema é que nós – você, eu e toda essa humanidade cansada – somos péssimos leitores desse teatro simbólico. Eu, em particular, tenho essa crônica cegueira seletiva: percebo sempre tarde demais o que estava escancarado na minha frente desde o começo. Não por burrice – espero – mas por excesso de confiança em minha própria lucidez. O que é irônico, claro. A lucidez, muitas vezes, é só um tipo sofisticado de cegueira.

Os sinais? Eles aparecem como tudo o que é importante aparece: no silêncio, na repetição, naquilo que parece banal demais para ser notado. Eles passam pela nossa vida como os cachorros caramelo da rua – latem, roncam, mordem seu tornozelo. Normalmente apenas xingamos mas, em momentos de especial elevação, até podemos nos perguntar: “Será que isso significa algo?”

Jung, coitado, tentava mapear o labirinto, enquanto eu tento sobreviver andando em linha reta. A vida, porém, é interesseira: quer que a gente se perca um pouco, quer que tropecemos num símbolo qualquer só para aprender que não estamos no comando. E cada vez que ignoramos essas coincidências gritantes, é como virar as costas para um espelho que insiste em mostrar algo que não queremos admitir.

No fundo, sincronicidade é isso: a realidade tentando conversar conosco depois de ter perdido a paciência. E eu, como um bom tradicionalista teimoso, continuo achando que consigo decifrar tudo pela razão pura – enquanto os sinais passam, assoviam, fazem piada e seguem seu caminho.

Mas não devemos nos culpar demais, pois até o próprio Jung também errava a leitura. Na verdade, o mundo é igual a um analista financeiro medíocre: manda mensagens cifradas e a gente só entende quando já perdeu o trem, a vez, a chance. E mesmo assim, seguimos procurando sentido, porque desistir seria simples demais – e meu destino em particular, esse velho alcoólatra Bukowskiano, adora complicar.

A verdade amarga está servida mas - eis a tentação mórbida - podemos descer mais fundo nesse poço, onde Jung tenta acender fósforos e o citado Bukowski ri do vento.

A tal sincronicidade, no fundo, é só o universo perdendo a paciência com gente que vive no automático – e eu conheço bem esse tipo: durmo sem sonhar, acordo sem ouvir, ando sem perceber. E essa ausência de sonhos não é um mérito racional, como alguns gostam de fingir; é um sintoma. É o inconsciente fechando a porta na minha cara, porque não sei mais bater.

Quem – tal como eu – não sonha, torna-se analfabeto do próprio mistério. Fica dependendo de coincidências tão grotescas, tão teatralmente óbvias, que parecem escritas por um dramaturgo bêbado. E mesmo assim hesita, coça o queixo, calcula, duvida – porque o cético demais é, convenhamos, sempre aquele sujeito que não quer admitir que o mundo é maior que suas certezas.

Jung dizia que a alma manda sinais como quem deixa migalhas no chão. Mas o homem sem sonhos – esse sujeito seco por dentro, endurecido pela mania de lucidez – só percebe os farelos quando pisa neles e escuta o estalo. Antes disso? Nada. Anda no escuro achando que é luz, e se ousam falar em símbolos, ele franze a testa como quem tenta entender um esquerdista explicando o mundo.

O arquétipo pode passar na frente dele vestido com neon, tocando trombone, e ainda assim ele diz: “Deve ser coincidência.” Conversa fiada: coincidência é o nome chique que damos àquilo que não queremos interpretar.

O problema desse tipo de ceticismo é que ele não protege; ele mutila. A pessoa acha que está acima da superstição, quando na verdade está abaixo da percepção. Vira uma espécie de analista da própria miséria, incapaz de ver quando a vida grita. E grita alto: um rosto que retorna, um padrão que se repete, um gesto que dói duas vezes do mesmo jeito, um acontecimento que se encaixa no outro como engrenagens velhas.

Mas o sujeito cético demais – e eu conheço esse espelho melhor do que gostaria – precisa que a coincidência seja tão absurda que quase o agrida. Algo tão escancarado que até um asno místico compreenderia. Só aí ele recua, coça o queixo, e murmura: “Estranho…”.

Estranho nada. É o inconsciente, cansado de esperar, me pegando pelo colarinho.

E quanto aos sonhos? Os sonhos são o correio noturno da alma. Quando eles fogem, é porque você deixou a caixa de correio trancada por dentro. O sujeito que não sonha – eu – é alguém que perdeu o hábito de conversar consigo mesmo, apesar de toda a introspecção solitária. Assim, durmo como um burocrata em coma, a alma tenta falar mas sempre encontra uma porta emperrada, uma ferrugem antiga, um silêncio duro.

E esse silêncio cria uma cegueira específica: não é a falta de visão; é a falta de interpretação. Você até vê o mundo, mas não vê o que ele tenta lhe mostrar. Vê o acontecido, mas não vê o significado. É como olhar para um relâmpago e não perceber a tempestade.

A vida, então e quando temos sorte, joga pesado. Manda coincidências gigantes, dessas que fariam um ateu suspirar. Mas eu – e aqui escrevo como necessária autocrítica que mereço – tenho esse hábito de só acreditar quando o absurdo bate na minha cara com um porrete. Só aí percebo que algo estava falando comigo há meses, anos talvez. E percebo tarde, sempre tarde.

A sincronicidade, no fundo, é o universo nos dizendo:

“Eu tentei ser sutil, mas você é cabeça dura.”

E respondemos, com aquele humor cansado que só os teimosos têm:

“Pois é… manda de novo, mas manda mais forte.”


Abandonando meus lamentos e adotando um ponto de vista mais técnico, psicológico, podemos resumir assim:

A sincronicidade, segundo Jung, refere-se a coincidências significativas que não têm relação causal, mas revelam paralelos entre estados internos e eventos externos. Elas funcionam como manifestações do inconsciente coletivo, que se expressa por meio de arquétipos – padrões universais de percepção e comportamento.

A incapacidade de perceber esses sinais costuma estar ligada a uma rigidez psíquica: excesso de racionalização, ceticismo defensivo e dificuldade de acessar conteúdos inconscientes. A ausência de sonhos é um indicador disso. Sonhar é um dos principais mecanismos de comunicação entre inconsciente e consciência; quando essa via está bloqueada, os conteúdos simbólicos perdem sua porta de entrada.

Sem essa ponte, a pessoa tende a interpretar apenas o literal e o imediato, falhando em reconhecer padrões simbólicos, repetições e coincidências significativas. Assim, arquétipos e sinais acabam percebidos apenas quando se tornam extremamente explícitos – quando a psique, por saturação, força a percepção consciente.

Em suma: baixa atividade onírica, ceticismo excessivo e hiper-racionalidade criam uma “cegueira simbólica” que dificulta a leitura de coincidências e padrões arquétipos, obrigando o inconsciente a se manifestar de modos cada vez mais intensos para ser reconhecido.

E isso é tudo o que tenho a dizer sobre coincidências.

Nada mais quero, com elas.


Walter Biancardine



quinta-feira, 20 de novembro de 2025

“PODERIA TER SIDO” NÃO SUSTENTA UMA VIDA -


Não é novidade para a meia dúzia de almas que me seguem o fato de eu sempre ter sido alguém com uma quase mórbida fixação no passado. Já escrevi artigos, ensaios e mesmo um livro, cujo tema central era a fixação do protagonista com os dias idos, onde ele imaginava terem sido melhores e que, tivesse agido de outra forma, o presente seria diferente e bom.


Não vejo problemas em apreciar antiguidades, automóveis vintage, músicas de outras décadas – até porque as atuais não merecem assim serem classificadas – e demais apetrechos da rotina de outrora. Uma pessoa que não valoriza aquilo de bom que já foi feito não possui base para julgar o que lhe é oferecido nos dias atuais, e assim, satisfaz-se com qualquer coisa.

A preocupação começa quando começamos a achar os dias passados – memórias, em suma – melhores do que a árdua tarefa de viver o presente, e isso pode se configurar em verdadeira patologia, a depender do grau atingido.

Pois esta patologia atinge seu grau máximo quando gastamos os dias que Deus nos deu a lamentar por amores perdidos – na verdade, perdido está quem assim age, pois sofre de uma dor que se condenou a não mais parar de sentir. “E se eu não tivesse feito isso?” Ou “e se eu houvesse agido diferente?” E esta é uma sentença que pode ser perpétua, se o condenado não enxergar que – não importam as causas – o amor se foi e nada mais pode ser feito.

Sim, todo amor que acaba é triste e um luto deve ser cumprido, mas tal resguardo não pode se transformar em um museu de sentimentos, no qual estaremos servindo como meros visitantes das obras ali expostas – posso ver, mas não tocar. Isso é torpe, cruel ainda que autoimposto, e deve ter um fim no mais breve tempo possível. Gastar uma vida entre lamentos e saudades é condenar-se à estagnação e, queiramos ou não, os dias passam.

Falar é fácil, entretanto. Para alguém como eu, que reconhece a própria doença, torna-se quase um cinismo – a apostasia dos mal amados, como já escrevi. Mas gastei décadas de minha vida entre fracassos e lembranças, poucos anos me restam e não pretendo gastá-los na ante sala de um museu.

Também escrevi, em um arroubo de raiva, que sinto saudades apenas de quem ainda não conheci – mas logo caí em mim e confessei ser a saudade mais dolorosa a que sentia de mim mesmo, de minha inocência e ilusões. Pois que esta última seja jogada no lixo – sou o que sou, um amontoado de defeitos e qualidades e não vou mais me importar com isso.

Que me reste a saudade de quem não conheço – e Deus sabe o esforço que faço por este otimismo.

Um novo dia sempre vem.

Há de vir.


Walter Biancardine


domingo, 16 de novembro de 2025

CADA VEZ MENOS JORNALISTA -


Primeiro veio o cansaço após um dia de trabalho duro, e deixei para escrever de noite.
Depois veio a falta de internet, que durou até agora há pouco, e deixei para escrever de tarde.
Agora a tarde chegou e nada quero escrever, mesmo com um Brasil em chamas e a vergonha de comemorarmos um golpe de Estado que depôs um Imperador amado, tudo por culpa de chifres remoídos e recalcados.

Não, nada quero escrever. O ímpeto jornalístico está cada vez mais fraco, em proporção direta aos meus naufrágios pessoais - e isto, profissionalmente, é péssimo: como confiar em alguém assim? E os prazos? E o sempre explosivo factual das matérias? E o leitor?

Me sinto cada vez menos jornalista e cada vez mais mergulhado no egoísmo do escritor, a trabalhar somente sob o tacão das musas ou das desventuras, tudo isso como corolário de um enorme e narcísico ego que viciou-se a usar a escrita como divã de analista. E isso é inviável, intragável e - pior - inaproveitável, editorialmente falando.

Neste momento não quero escrever. Aliás, sequer desejo existir. Todo meu desejo se resume a possuir um botão "on/off" para desligar ou, ao menos, um "reboot" que reinicie meu coração, que salve minha alma, que me conceda a redenção.

Desejo ou redenção?

Para mim, o livro que escreví - "Pretérito Perfeito" - quase me pareceu uma profecia que se cumpria, mas creio que meus poderes mediúnicos sempre foram abaixo da média - e, por mais que parecesse, tudo se resumiu a nada. Apenas a pergunta - desejo ou redenção - permanece, por mais que me doa ter julgado encontrar ambos em uma só alma.

Mas não somos donos da alma de ninguém - eu, sequer da minha - e nenhuma vontade tenho de fazer jornalismo.

O antigo iceberg derreteu.

E manchou a cama.


Walter Biancardine



quinta-feira, 6 de novembro de 2025


Escrevi que Deus não usa relógio. Tentei até explicar amores. Muita gente não entendeu. Eu não me entendi. Muitos não sabem. Eu também não - mas sou teimoso.

Por isso piso, repiso, bato no mesmo prego e esmurro a mesma ponta de faca.
Eu tento.

O AMOR, O RELÓGIO E ALGUM TROCADO PRA DAR GARANTIA -
Muito já se disse sobre o amor, mas quase tudo foi ruído de ferida. Poetas o cantaram, santos o ofereceram, filósofos o desconfiaram – e no fim ninguém saiu ileso. Porque o amor, quando é verdadeiro, não é um sentimento: é uma ferida aberta por onde o eterno tenta entrar.

Amar é sempre sofrer um pouco – não por castigo, mas por grandeza. Só o que ultrapassa os limites da carne pode doer assim. O amor é o peso do infinito sobre um coração finito.

Santo Agostinho, que sabia mais de lágrimas do que de definições, dizia que “amamos para não morrer”. E estava certo: o amor é a recusa da morte. É o protesto do espírito contra o relógio. Todo amante, no fundo, quer que o instante dure para sempre – e é por isso que ele se desespera.

Mas Deus, com sua ironia amorosa, fez o tempo para ensinar-nos a esperar. E é aí que o amor se torna mais divino: quando aprende a ser paciente sem deixar de arder.

As almas certas nem sempre se encontram na hora certa. Às vezes o amor chega tarde, como uma bênção fora de sincronia. Um está preso a deveres, o outro a feridas; um está pronto, o outro já cansado. E o mundo, cruelmente pontual, fecha as portas que o coração abriu.

Não é tragédia – é liturgia. O amor humano é sacramento imperfeito do Amor divino: contém a forma da eternidade, mas dentro de um vaso que se quebra. E cada desencontro é um lembrete de que o Céu ainda não começou.

Pascal escreveu que “o coração tem razões que a razão ignora”.
Talvez a razão do amor seja justamente essa ignorância: amar é aceitar o mistério de não entender, e ainda assim permanecer.

C.S. Lewis via no amor a escola da renúncia: não para sufocar o desejo, mas para purificá-lo. Ele dizia que o amor só é pleno quando suporta o risco da perda.
E esse é o ponto em que o humano se toca com o divino – quando amamos não para possuir, mas para servir, para permanecer mesmo na ausência.

Há quem diga que o amor é só uma ilusão biológica. Pobre ilusão essa, que atravessa séculos, destrói impérios e consola moribundos.

Rilke, que sabia das solidões humanas, dizia que amar é “guardar o outro no coração como uma tarefa”. E é isso: uma tarefa. Sagrada, cansativa, luminosa.
O amor não é um consolo, é convocação.
Não é uma pausa na vida, é o próprio campo de batalha onde alma e tempo duelam pelo direito de permanecer.

Deus não nos quer anestesiados de felicidade, mas maduros de esperança.
E maturidade, neste mundo, é saber sofrer com elegância, sem se embrutecer.
Porque o cinismo é a apostasia dos que amaram mal.

No fim, o amor é a pedagogia mais sublime da perda. Ensina-nos a morrer um pouco a cada dia – e ainda assim agradecer pela vida.
Chorar é rezar com os olhos.

E o amor, mesmo quando falha, não é um fracasso – é um ensaio da eternidade.
Que ele doa, sim. Mas que doa como um coração crescendo.


O AMOR TEM SEDE DE SANGUE -
O amor entrou no quarto com botas de chuva, pisou o tapete da inocência e estourou o vidro da janela. Se vestia de riso, trouxe a cicuta, o sono leve e o pensamento pesado.

Você quis um alguém para sempre – imbecil de fé – que veio como espelho quebrado, te refletindo mil vezes e devolvendo metade com cortes, com sangue e rotina.

Sussurrou juras de amor e você engoliu, sorrindo, sem ver o limo da promessa.

E você virou mesa posta, prato servido, a comida que gosta – e o garfo tremeu antes do brinde.

Porque amar é isso: domar o fogo com as mãos nuas, servir a ceia e ter sede no meio da festa.

O amor dói quando nos joga na cara: imortais só quando sonhamos – e quando a chama apaga, sobra a fuligem da pele desejada, só as gotas da vela fumegante são testemunhas.
Se deite no colo, encontre abrigo, e acorde no abismo da própria ausência.
Sangue escorre, não só da carne, mas da alma que se jurou indestrutível.

O tempo é carrasco e amante, vestido de sonho, fez ar condicionado no inferno, cantou “amor, amor” e fechou a porta.
Almas certas chegam tarde – uma tombou, outra foi embora. Uma traz o alforje, a outra os grilhões.
E o amor humano, esse pobre idólatra, sempre perde contra o relógio.

Mas eu digo verdades, o amor vale mesmo assim. Vale porque é o bom combate, vale porque, no fim, sobreviver ao amor não é fugir da dor – é dançar com ela, olhar nos olhos e dizer: “sou teu espelho quebrado, ainda assim me refaço”.

Então sim: o amor tem sede de sangue, que só se sacia na febre.

O amor bebe ternura – e no fel, na ferida, encontra-se o resíduo de divino: todo amor que hover nessa vida.

Porque amar é morrer todos os dias, querer levantar para o café da manhã com o outro.

E algum trocado, pra dar garantia.


Walter Biancardine