quarta-feira, 2 de abril de 2025

IMITAÇÃO, ATRASO E HORROR À VERDADE: UMA PAUSA PARA PENSAR -

 


Afirmar um deus único é confessar intolerância e aderir, quer se queira quer não, ao ideal teocrático. No plano mais geral, as doutrinas da Unidade pertencem ao mesmo espírito: mesmo quando utilizam ideias anti-religiosas, seguem o esquema formal da teocracia, se reduzem mesmo a uma teocracia secularizada. O proselitismo tirou grande partido dos sistemas "retrógrados", dos quais só rejeitou o conteúdo e as crenças, para melhor adotar o arcabouço lógico, a forma abstrata.”
(Emil Cioran)
O texto acima, uma proposição do filósofo romeno Emil Cioran, afirma que a crença em um deus único, longe de ser apenas uma questão teológica, carrega consigo uma estrutura de pensamento que conduz à intolerância e à teocracia. A ideia central é que qualquer doutrina que afirme uma única verdade absoluta (seja religiosa ou não) acaba seguindo um modelo autoritário semelhante ao da teocracia, ainda que de maneira secularizada.

Além disso, ele argumenta que os movimentos religiosos ou ideológicos frequentemente rejeitam somente os conteúdos tradicionais das crenças antigas, mas mantêm intacta sua estrutura lógica e sua tendência ao dogmatismo. Isso implica que mesmo os sistemas, supostamente laicos e “modernos” – ideologias – podem reproduzir idênticos mecanismos de dominação e intolerância das religiões monoteístas, que dizem superar.

Em resumo, o texto faz uma crítica às doutrinas de "Unidade" – tanto religiosas quanto seculares – por, segundo ele, perpetuarem uma lógica teocrática e autoritária, ainda que sob disfarces diferentes.


Trazendo razão ao atormentado Cioran -

O argumento apresentado contra o monoteísmo se baseia em uma confusão conceitual entre a unidade da verdade e a imposição autoritária. Defender um Deus único não significa aderir automaticamente à intolerância ou à teocracia, mas sim reconhecer uma ordem objetiva da realidade. Se há um Criador, há uma verdade última, e negar isso em nome de uma suposta pluralidade absoluta leva não à liberdade, mas descamba no relativismo total e, ironicamente, no caos intelectual e moral.

A acusação de que toda afirmação de unidade culmina em tirania ignora a distinção fundamental entre “verdade” e “poder”.


Verdade -

O cristianismo, e em especial a tradição católica, não impõe a fé pela força, mas a propõe pela razão (vide Santo Tomás de Aquino e tantos outros Doutores da Igreja) e pela revelação. A Igreja sempre distinguiu entre a ordem espiritual e a ordem temporal, reconhecendo a autonomia do poder civil. A própria história do Ocidente testemunha que as sociedades que mais floresceram em liberdade, ciência e cultura foram aquelas enraizadas no cristianismo, justamente porque compreenderam que a unidade da verdade não anula a essência da consciência individual.


Poder -

Afirmar que sistemas seculares herdaram a "forma lógica" da teocracia erra apenas no fato de atribuir ao cristianismo uma culpa que pertence, na verdade, ao espírito revolucionário moderno – o “plágio” descarado de Karl Marx por sua vez, pode e deve ser citado, justificando parte do título deste artigo, “Imitação e Atraso”.

Foram os sistemas ideológicos modernos – comunismo, fascismo e outros totalitarismos – que secularizaram um messianismo político, eliminando Deus para colocar no lugar o Estado ou o partido, sempre encarnados na figura de um único e todo-poderoso Líder. A fé católica sempre afirmou que a salvação não vem de um poder terreno, mas de Deus e, neste momento, cabe pequena digressão sobre a prova evidente desta imitação: o “culto à personalidade” dos sistemas comunistas e socialistas.


O culto à personalidade -

Nada mais é do que o velho espetáculo autoritário, em que um líder político é elevado à condição de figura messiânica, infalível, quase divina. Ele não apenas governa, mas se torna um símbolo absoluto da pátria, do partido e do futuro glorioso da revolução. A propaganda estatal o transforma em uma entidade acima do bem e do mal, incensada pela mídia oficial, pela educação doutrinária e pela cultura estatalizada. O resultado? Uma população doutrinada a venerar um indivíduo, como se ele fosse a encarnação do próprio destino nacional.

Essa prática foi emblemática em regimes como o de Stalin na União Soviética, Mao Tsé-Tung na China, Kim Il-Sung na Coreia do Norte, Fidel Castro em Cuba, entre outros. Fotos do líder em cada esquina, discursos eternos em rede nacional, crianças recitando suas máximas como orações, intelectuais bajulando suas "grandes obras" e qualquer crítica sendo tratada como traição. Não é à toa que a figura do "grande líder" é cercada por mitos absurdos: Stalin como gênio supremo da estratégia, Mao como sábio celestial e Kim Jong-il como “o cara que acertava hole-in-one” no golfe, toda vez que jogava. Sim, acreditem.

Na prática, esse culto serve a dois propósitos principais:

  1. Justificar a ditadura – Se o líder é um ser excepcional, quem poderia contestá-lo? A oposição é automaticamente inimiga do povo.

  2. Eliminar qualquer senso crítico – Se a verdade vem do líder, questioná-lo é questionar a própria realidade.

Os sistemas comunistas e socialistas se apoiam nesse mecanismo porque, sem ele, suas promessas utópicas desmoronam rapidamente. Quando a economia falha, a liberdade desaparece e o povo começa a perceber que a igualdade prometida nunca chega, a única saída do regime é criar um ídolo infalível para mascarar o desastre. Afinal, se o chefe é perfeito, qualquer problema só pode ser culpa de sabotadores, imperialistas ou traidores internos.

O culto à personalidade é um sintoma clássico do autoritarismo, não importa o rótulo ideológico. O comunismo, no entanto, o transformou em arte, usando-o como principal anestesia para manter o povo hipnotizado e submisso.


O “horror à verdade” -

Rejeitar a unidade em nome de um suposto pluralismo absoluto é abrir caminho para um mundo onde nenhuma verdade pode ser sustentada, e onde qualquer imposição – mesmo a do relativismo – se torna tirânica. Impossível ao homem de juízo temer a unidade da verdade mas deve, antes, celebrá-la, pois nela se encontra a harmonia da razão, da ordem e da liberdade autêntica.

A obsessão em rejeitar a verdade ou o absoluto origina-se de várias raízes, mas todas convergem para um problema essencial: a tentativa de libertar o pensamento de qualquer amarra, ainda que ao custo da própria razão.

Primeiro, há a rebeldia contra a tradição: desde Descartes, passando pelos empiristas e culminando nos pós-modernos, há um esforço constante para demolir qualquer estrutura conceitual herdada. O absoluto, sendo o sustentáculo das grandes civilizações e religiões, torna-se o alvo preferencial. E por quê? Porque admitir verdades universais significa reconhecer que há, sim, limites para a subjetividade humana; que existem princípios que não dependem da moda intelectual do momento e, para muitos, isso é intolerável.

Depois, há a influência do relativismo e do historicismo. Nietzsche, Heidegger e Foucault são as vedetes, verdadeiras “celebrities” dessa vertente, que encara a verdade como um produto histórico, um discurso de poder, uma construção social. É a velha máxima: “quem controla a verdade, controla o mundo”. Se a verdade não passa de um jogo de linguagem, então nada é fixo, tudo pode ser moldado conforme interesses de época. É uma maneira astuta de justificar ideologias sem precisar lidar com critérios objetivos – e certamente o amigo leitor já fez suas devidas analogias.

E, claro, não podemos ignorar a simples covardia intelectual. A verdade absoluta exige compromisso, esforço e até sacrifício. É muito mais fácil se refugiar no relativismo confortável, onde tudo é interpretável, tudo é fluido, nada precisa ser levado às últimas consequências. Assim, a academia moderna virou um grande baile de máscaras, onde cada um dança conforme a música da subjetividade, evitando o peso das grandes questões e, obviamente, seu compromisso com as mesmas.

Mas eis o problema: a verdade pode ser negada, contestada, relativizada, mas nunca extinta. O real se impõe. Pode-se passar séculos desconstruindo conceitos, mas, no fim das contas, a gravidade continua puxando para baixo, o tempo continua passando e os imbecis, coletivos ou não, continuam tropeçando na própria inconsistência. E desta sina o velho Emil não escapou.


Quem é, afinal, Emil Cioran?

O atormentado romeno é um daqueles pensadores que fascinam e, ao mesmo tempo, incomodam qualquer um que tenha uma visão de mundo sólida e bem enraizada, especialmente sob a ótica cristã e conservadora. Sua filosofia é marcada por um niilismo quase fanático (!), um desencanto absoluto com a existência e uma recusa categórica em aceitar qualquer sentido para a vida. Ele não apenas duvida, mas debocha de qualquer esperança, de qualquer fé, de qualquer estrutura que forneça ao homem um chão firme para pisar.

Ora, para um cristão, o que pode haver de mais contrário à verdade do que essa exaltação da desesperança? Cioran é um adversário direto da esperança cristã, da crença na redenção e da noção de Providência divina. Se para o cristianismo o sofrimento tem um propósito e pode ser santificado, para Cioran o sofrimento é um fardo inútil, um peso absurdo que nos foi lançado sem motivo. Ele despreza a cruz e vê na existência um erro, um acaso infeliz. Seu pessimismo radical o aproxima de Schopenhauer, meu parceiro alemão, mas sem a nobreza estética do germânico — Cioran é ácido, cínico e deliberadamente corrosivo.

Do ponto de vista conservador, há um problema ainda maior: Cioran não apenas rejeita a fé, mas também despreza qualquer tradição, qualquer laço com o passado que ofereça identidade e continuidade ao homem. Considero que seu pensamento seja um verdadeiro veneno para qualquer sociedade que deseje se manter de pé, porque, no fundo, ele prega um ceticismo absoluto, um desmoronamento de tudo o que mantém uma civilização unida. Se todo sentido é uma ilusão e toda convicção é um delírio, como pode uma cultura sobreviver? O conservadorismo se sustenta sobre a transmissão de valores e a fidelidade a princípios perenes, mas Cioran derrama ácido sulfúrico sobre qualquer pilar que se pretenda duradouro.

Ainda assim, há nele algo que não pode ser ignorado: a força de seu maldito estilo. Cioran não é um pensador sistemático, mas um infeliz mestre da aforística, um escritor de talento avassalador, para o mal ou para o bem – no caso, para o mal. Sua lucidez sombria fascina justamente porque toca em algo que todo homem experimenta em algum momento: a dúvida, o desencanto, o esgotamento espiritual. A leitura de Cioran pode servir como uma droga, alienando o pobre discípulo da realidade e conduzindo-o ao prazeiroso nada, justificador do fracasso pessoal de cada um, ou como exercício de imunização – uma espécie de vacina filosófica: ao contemplar o desespero em sua forma mais pura, o cristão pode reafirmar sua fé, e enxergar ainda mais claramente a necessidade de Deus e da graça.

Em suma, Cioran é um demolidor. Sua obra não constrói, apenas esfacela certezas. Para o cristão e o conservador, sua leitura deve ser feita com (muita) cautela, nunca como um guia, mas como um alerta. Ele nos mostra até onde pode chegar a alma que rejeita Deus e abandona qualquer laço com a transcendência.

No fim, Cioran não tem respostas — apenas um riso amargo diante do abismo.

Tal como muitos paisanos, nos dias atuais.



NOTA DO AUTOR: À título de correta mensuração de seus danos, cito alguns filósofos que foram, por ele, influenciados: Milan Kundera, Luiz Felipe Pondé, Fernando Savater – este último, objeto de recente artigo meu.



Walter Biancardine







terça-feira, 1 de abril de 2025

DOIS PONTOS -


1 – Se a Justiça está acima de todos os homens e instituições, quem a comanda certamente será algo como um vice-Deus – sim, porque alguém tem a palavra final na Justiça, e não é um grupo. A Justiça jamais poderá ser absoluta, e nossos destinos sempre estarão sujeitos às índoles alheias, tal como hoje. 

2 – Todo poder sempre é exercido por um só. Disfarçá-lo, diluí-lo como na democracia ou através de um "consenso" é apenas abrigar o verdadeiro poderoso das consequências de seus atos. Se está nas mãos de um só, que saibamos quem é, para que seja punido ou premiado, conforme seus feitos.

Com base em tais premissas, as quais creio serem por demais sonegadas, escondidas e abafadas para todos, analisemos:

O véu da Justiça, o fardo do Poder, destino e autoridade -

A estrutura da sociedade humana repousa sobre alicerces cimentados não só pela razão mas, também, pela tradição, instinto humano e necessidade de ordem. A partir da breve introdução que apresentei acima, duas verdades fundamentais emergem: a impossibilidade de uma Justiça absoluta e a inevitável centralização do poder. Essas constatações, ainda que incômodas para alguns idealistas ou para os eternos oportunistas, são a essência do realismo político e de uma prudência elementar.

A Justiça: mito ou instrumento?

A primeira proposição desafia um dos dogmas modernos: a crença em uma Justiça inatingível, impessoal e transcendente – os “Deuses do Olimpo”, como hoje vemos. A ilusão de que há uma entidade jurídica pura, acima dos homens, de suas misérias e paixões, é um delírio igualitário, um sonho utópico que não resiste à mínima análise histórica. O direito sempre foi, é e sempre será, uma manifestação da vontade de quem o exerce. E essa vontade, por sua vez, não é divina nem infalível, mas humana – demasiadamente humana, diria Nietzsche – sujeita a paixões, preconceitos e conveniências.

Aqueles que depositam sua fé em uma Justiça absoluta fazem-no por ignorância, desespero ou ingenuidade, esquecendo-se de que toda decisão judicial reflete, em última instância, a índole de quem julga – tal como nos “paredões” de um reality show, sabemos mais sobre quem assiste do que sobre quem participa do programa, tendo suas escolhas em vista. 

O código pode ser escrito com todas as tintas da imparcialidade, mas quem o aplica são homens, e os homens não são deuses – longe disso. A Justiça, portanto, não está acima da sociedade; está dentro dela, moldada por sua cultura, seus valores e – principalmente, como nos dias atuais – seus interesses.

Isso nos leva a um dilema central: se a Justiça não pode ser absoluta, tampouco pode ser neutra. Então, a quem serve? A resposta me parece clara: deveria servir à preservação da ordem e dos valores que sustentam a civilização, embora não seja o que hoje vemos. Se não há um critério transcendental para a Justiça (e o Estado é laico), resta-nos um critério histórico e moral: aquilo que garantiu a estabilidade ao longo do tempo deveria ser protegido, e aquilo que ameaça dissolver essa estabilidade deveria ser contido e, preferencialmente, banido.

O Poder: ilusão democrática e o regresso ao realismo -

A segunda proposição que apresentei desmonta outra ficção política moderna: a de que o poder pode ser verdadeiramente disperso. A democracia, o consenso e as supostas decisões coletivas não são mais do que disfarces para ocultar aquele que realmente governa. O poder, por sua própria natureza, é indivisível; pode ser ocultado, pode ser negociado, mas jamais desaparece ou se fraciona.

Ao longo da história, todas as civilizações compreenderam essa verdade: o rei, o imperador, o cônsul, o presidente — sempre há um, e um só. Mesmo sob sistemas que se apresentam como descentralizados, há um núcleo de comando, que obviamente tem um líder e conduz uma vontade decisiva, a impor rumos à sociedade. O perigo da ilusão democrática é que ela camufla essa liderança sob a névoa numérica – um “colegiado”, por exemplo – ou da burocracia e das instituições, tornando o governante invisível e, portanto, impune.

Melhor, então, que o poder seja reconhecido e personificado. Quando se sabe quem manda, pode-se responsabilizá-lo por suas ações, julgá-lo conforme seus méritos e, se necessário, removê-lo. O anonimato do comando — seja através de conselhos, comitês ou parlamentos — apenas permite que decisões desastrosas sejam tomadas sem que ninguém responda por elas.

Não devemos temer a autoridade. Pelo contrário, entendamos que ela é necessária e saudável, se e quando bem exercida. O verdadeiro problema não está no poder concentrado, mas no poder mascarado, livre para erros e abusos, sem maiores consequências.

Entre o realismo e a ilusão -

O que minha pequena introdução acima nos apresenta é uma visão realista da natureza humana e da organização social. A Justiça não é uma força etérea, pairando sobre os homens; ela é uma ferramenta do poder. E o poder é verbo, não é uma entidade difusa; ele sempre pertence a alguém. Reconhecer essas verdades é o primeiro passo para escapar das armadilhas ideológicas do mundo moderno, que prometem igualdade onde há hierarquia e liberdade onde há domínio.

Não nos iludamos com promessas de utopias jurídicas ou democracias perfeitas. Sabemos que a sociedade é feita de homens, e homens erram, manipulam, buscam vantagens. Portanto, melhor do que confiar em sistemas abstratos é reconhecer o jogo do poder como ele é e agir com prudência, sem ilusões.

Se há um soberano, que tenha rosto. Se há Justiça, que seja aplicada com consciência da sua limitação. 

E se há um destino, que este não seja entregue ao acaso, mas sim àqueles que têm a coragem de carregá-lo nos ombros.


Walter Biancardine 



segunda-feira, 31 de março de 2025

POR QUE A SUÍTE PARA VIOLONCELO Nº 1, EM SOL MAIOR?

 


Recentemente me vali desta obra, do grande Johann Sebastian Bach, como pano de fundo de um desajeitado voo poético e introspectivo, no qual também usei mares e navegações tormentosas a título de analogias com os últimos acontecimentos, em minha vida.

Talvez alguns recém-chegados não tenham entendido as razões do uso desta peça primorosa – certamente alguns acharam mesmo algo próximo a uma blasfêmia contra Bach – em meus queixumes, e por isso achei de bom tom oferecer algumas explicações.

Imaginei traçar algum paralelo entre os tempestuosos mares navegados por mim, nos últimos anos, e as reais borrascas enfrentadas pelos marinheiros – quase suicidas – de um ou dois séculos atrás; pode não ser justo mas soou-me poético. Do mesmo modo, emparelhei as batalhas navais com as devastadoras guerras pessoais e emocionais que travei, as quais custaram-me um número absurdo de baixas – a totalidade, para ser franco – e que redundaram no trágico “naufrágio” por mim vivido, nos últimos anos.

Completando, sendo eu alguém visceralmente “persona non grata” em quaisquer redações do país e já velho demais para outros trabalhos braçais – diante dos quais jamais me intimidei no passado – vejo-me hoje sem rumo, sem bússola, sem sextante, à deriva.

Isso posto, é hora do paciente leitor entender minha visão desta grande obra de Bach:


Trata-se de uma peça icônica do repertório do violoncelo solo, carregando um significado que transcende a mera técnica musical. Seu Prelúdio, talvez o movimento mais reconhecido, é uma meditação sonora pura, fluida, que há de evocar ao ouvinte tanto a complacente serenidade quanto uma grandiosa sensação de descoberta.

Bach construiu a obra com uma estrutura clara, baseada na dança, mas carregada de emoção e profundidade filosófica. Há uma sensação de ordem e, ao mesmo tempo, de improvisação controlada, como se fosse um monólogo interior. Ela tem um caráter luminoso e acolhedor, não busca assombrar com virtuosismo mas, isto sim, tocar algo essencial na alma humana. O Prelúdio, com sua progressão quase hipnótica, parece uma reflexão sobre o próprio fluxo do tempo – e o passar das horas, meu leitor haverá de saber, tem um peso significativo para mim.

Sua melodia ressoa profundamente porque é direta e acessível, mas nunca banal. Seu significado se molda ao ouvinte: pode ser contemplativa, melancólica, esperançosa ou solene; não é apenas um desafio à sensibilidade, mas também uma experiência espiritual, de maturidade cognitiva.

Mas, dirá o leitor, a explicação ainda parece vaga e sem apontar diretamente a algo compreensível para aqueles que não estão sob sua pele – e por isso é preciso situá-la em um contexto mais inteligível: alguém lembra do excelente filme “Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo”?

Pois bem: neste filme “Master and Commander: The Far Side of the World” (título original, 2003), a Suíte para Violoncelo Nº 1 de Bach aparece em um momento de introspecção e camaradagem entre o Capitão Jack Aubrey (Russell Crowe) e o cirurgião e naturalista Stephen Maturin (Paul Bettany). A cena em questão os mostra tocando juntos – Aubrey ao violino e Maturin ao violoncelo – num momento de pausa na tensão da guerra naval.

Os produtores do filme escolheram o Prelúdio da Suíte Nº 1 não apenas por questões estéticas mas, tal como os imitei, simbólicas:


* Refúgio da Guerra: A melodia fluida e introspectiva de Bach contrasta com o caos das batalhas navais. Representa um espaço de ordem, beleza e civilidade dentro do ambiente brutal da guerra.

* Profundidade dos Personagens: O filme estabelece Aubrey e Maturin como homens de cultura, apaixonados por música e ciência. Essa escolha reforça sua humanidade e seu vínculo intelectual.

* Tradição e Hierarquia: A música de Bach evoca um mundo de disciplina e estrutura, refletindo tanto a ordem militar da Marinha Real Britânica quanto a organização rígida da sociedade do século XIX.

* Oposição ao Destino: Em meio à incerteza da guerra, Bach sugere uma ordem maior, um eco de uma harmonia universal que os personagens tentam agarrar antes de serem arrastados de volta à realidade do conflito.

Assim, a Suíte para Violoncelo Nº 1 em “Master and Commander” funciona como um momento de respiro filosófico, um contraponto ao peso da guerra e uma lembrança de que, mesmo em meio ao caos, a beleza e a razão ainda têm seu lugar – diferentemente de meu devaneio poético, cujo teor dramático situa-se bem mais ao rés do chão e não produz nenhuma consequência ao mundo.

Ainda assim, ao protagonista da miséria reserva-se o compreensível direito de crer-se em meio a uma hecatombe apocalíptica global, e esta pretensão foi o principal motor de minha patética analogia musical.

De qualquer modo e para salvaguardar algum resquício de dignidade, creio poder afirmar ao menos vaga semelhança de alguns aspectos retratados pelo filme e minha existência – e apenas não invoco o testemunho de amigos e familiares porque os mesmos, infelizmente, são a totalidade das baixas na tripulação de minha vida.

Mas valeu a intenção e agradeço a paciência.



Walter Biancardine




NA TEMPESTADE, EM COMANDO -


Dias de ventos furiosos, ondas explodindo na proa em meio ao negrume do céu. Hora de rizar as velas e experimentar: não, a necessidade pede que se navegue em árvore seca, soltando a âncora de arrasto - um drogue pode assegurar que este comando doente e febril chegue a bom porto, eis que é hora de impor um rumo à esta interminável deriva na vida.

Adernado e cansado, nada mais resta em meu convés que não tenha sido varrido pelas ondas da vida. O porto seguro, entretanto, faz-se difícil de aproar, dada a cerração dos últimos dias. Não importa, pois mar calmo jamais fez bons marinheiros: porto bom é aquele em que atracamos, e eis-me nele.

Não aguardarei a bonança, pois nela não mais creio. Amarração segura, nave protegida, saio a verificar os danos e a perda é quase total, de gentes e coisas - mas não faz água nos porões e, mesmo em meio à névoa, posso navegar.

Navegar é preciso, viver não é preciso - não tenho, entretanto, bússola e sextante para nenhum dos dois. Mas a navegação segue, interminável Flying Dutchmann, pois os portos me são hostis.

Só eu, em minha nave, no vasto e infinito oceano a sonegar meu destino.

Meu navegar não é preciso. Meu viver não é preciso.

Sob o espírito de Bach, aponto a proa e sigo.


Walter Biancardine



domingo, 30 de março de 2025

NÃO HÁ COMO DES-EXISTIR -


Não sendo o pior nem o melhor dos homens e situando-me como um perfeito medíocre - ou seja, absolutamente dentro da média, mediano - custa-me compreender a "parasitagem" de alma, por mim sofrida ao longo de tantos anos, e só recentemente descoberta.

É compreensível e amplamente conhecida a cobiça alheia sobre nossas vitórias pessoais, bens, felicidades ou até eventual fortuna, ainda que as mesmas sejam temporárias ou, em alguns casos rasteiros, pura ostentação. Trata-se de querer o que o outro tem, e maiores considerações não são necessárias, eis que todos conhecem e já sofreram por isso.

O caso se agrava quando arrastamos um histórico familiar. Pior: mais que um histórico, carregamos o fardo de ter o mesmo nome do pai - e aí a coisa se complica.

Não posso e jamais farei a baixeza de "desconstruir" (perdoem a esquerdice) meu pai. Ele teve a vida dele, fez sua história, deixou quase uma lenda entre seus mais próximos na cidade, viveu uma existência cinematográfica - e eu apenas herdei seu nome, acrescido de um "Júnior". Mas ainda tem o que piorar.

Não satisfeito em carregar seu nome ("herdeiro do fardo", segundo meu pai), tive a petulância e ousadia - atrevimento exagerado - de construir minha própria história por aqui.

Se conheci e apertei a mão de Presidentes da República pela OEA ou vi o céu estrelado em pleno meio-dia na aviação de testes, isso pouco importa: foi no Rio de Janeiro, aparentemente em uma outra vida, vivida por um outro eu. O que parece despertar os apetites são os poucos sucessos que obtive por aqui, nestas salitradas e áridas terras, "melhores madrastas que mães", nossa conhecida Cabo Frio.

E conheci o lado mais negro, quase uma psicopatia, deste pecado capital: o desejo de alguns em parasitar sua alma, roubar seu ser, esvaziar seu conteúdo e vestir sua pele; ser você, incorporar você - o que você faz, gosta, vive, usa, bebe, fuma, ama, odeia, tudo enfim.

O quê pode provocar isso em alguém? Não sou um milionário, não sou algum artista - ou ao menos escritor - famoso; em matéria de beleza provoco apenas risos e minha conta bancária, além de anêmica, é hemorrágica. Que diabos eu fiz?

Suponho que todo meu pecado seja ser filho de quem sou, ter tido a família que um dia tive e vivido o que já viví - o "câncer da mídia", o "nazistinha de Alair", o homem que metade da cidade odeia e a outra metade sequer sabe quem é, mas que causou verdadeira tormenta política nos jornais, revistas, rádios e TV's por aqui, anos atrás.

Acrescente-se a isso o fato de minha personalidade, fronteiriça da anormalidade - um porco-espinho, dirão muitos - meus estranhos prazeres (motocicletas, aviões, carros, caminhões e graxa, muita graxa), vestuário mais inusitado ainda, além da maromba intelectual a que me submeti, impelido por excruciante solidão nos últimos anos; os livros, artigos, ensaios e teses que escrevo e uma vida amorosa que abalou as estruturas e psiques - de maneira velada - de muita gente boa à minha volta.

Nada de mais, o amigo poderá dizer e eu concordarei. Mas este conjunto de peculiariedades, ainda que não construa diante de nós um ídolo a ser admirado, perfaz uma pessoa com personalidade, conteúdo - se bom ou ruim, se cativante ou repugnante, é outro assunto. Mas, ao menos, tenho algo que uma grande maioria já abdicou: sou o que sou, faço o que faço, estou e sempre estive absolutamente cagando para o que pensam disso.

Apenas sempre tive o grande cuidado de jamais ferir ninguém à minha volta, com meu jeito "lemingue" de ser - nunca prejudiquei voluntariamente a terceiros, com meu estilo de vida, gostos, decisões e amores.

Mas os parasitas da alma, por absoluta falta de conteúdo original e pura ânsia de nos despejar da pele em que habitamos, não têm tal cuidado - e este é o momento em que se entregam.

Uns ambicionam nossa vida, aderem-se diuturnamente ao nosso lado e de lá só saem quando nosso mundo desaba - estes são os rasteiros, primários.

Outros, em silêncio solerte, sugam nossa seiva em um surdo processo mimético, silencioso, e tornam-se verdadeiras "fotocopiadoras" de nosso âmago, revelando-se apenas quando suas próprias vaidades não cabem mais em si. E só percebemos isso tarde demais, quando as balas perdidas já atingiram inocentes.

Que o amigo leitor não interprete tal desabafo como um acesso de soberba, pois bem sei o nada que sou e jamais esquecerei os anos de solidão, fome e desprezo que só muito recentemente escapei - e que não estou livre de voltar. Trata-se apenas, como disse, de um desabafo.

Há que se falar, expectorar, sofrer a hemoptise de um mal que andou me corroendo por dentro nos últimos dias e que me levou, bastante doente e profundamente decepcionado, à cama - e, confesso, jamais cheguei a tais extremos antes.

Mas eu precisava falar; hoje estou melhor e é o que faço.

E pretendo, se Deus permitir, desenvolver um pequeno ensaio filosófico sobre este tema, jamais tratado pelas luzidias cabeças iluministas que nos cercam: a inveja.

Mais que inveja: o parasitismo da alma.

E que o Pai me dê saúde.


Walter Biancardine

NOTA DO AUTOR:
O invejoso típico deseja o que você tem, e chega ao ponto de ofender-se caso receba um presente seu: entende este ato como "esmola".

Já os "vampiros da alma" desejam sua vida, ser você e viver o que você vive ou viveu; tomar seus amigos, sua história, sua personalidade.

Tal deformidade, quase patológica, chega ao ponto de roubar sua individualidade - a característica de ser humano único, inimitável e peculiar que todos temos, com qualidades e defeitos exclusivos.

Ao ser vitimado por tais tipos maléficos, você perde o que de mais íntimo possuía: o "ser você". Agora, estará condenado a ver uma cópia sua vivendo o que você viveria, desfrutando dos amigos que um dia você teve, encantando ou decepcionando pessoas com o charme ou aborrecimento que somente você poderia oferecer.

E, para isso, tais pessoas não se acanham em vitimar aqueles que estão à sua volta, por mais inocentes que sejam: se puderem deles servirem-se para seu mimetismo, assim o farão.

E tudo isso apenas porque, um dia, você decidiu aproximar-se de tais tipos.

Fica o alerta.

quinta-feira, 27 de março de 2025

SOBRE O ARTIGO DE ONTEM -


Alguns resmungos chegaram a mim sobre o artigo de ontem, onde expus minha frustração para com a passividade omissa do povo brasileiro e as cautelas excessivas de Jair Bolsonaro.

Os mais "intelectualizados" apontaram dedos priápicos contra mim, perguntando em ar de desafio: "Como então um conservador pode pregar o povo nas ruas, a revolução"?

E respondo que não prego nenhuma "revolução" - povo nas ruas sim, sacrifícios sim, enfrentamento sim, mas tudo isso deve ser visto sob a ótica da legítima defesa, pois vivemos em um absurdo estado de guerra, o ataque do governo contra o povo. Onde o "paraíso prometido"? Onde o "futuro melhor" em meus clamores? Não existem, trata-se apenas de defender nossa própria vida, expulsando tais criminosos do poder.

Outros, "constitucionalistas", agarram-se às limitações de nossa doentia Carta Magna - parlamentarista e socialista - excusando Bolsonaro de quaisquer culpas, pela impossíbilidade legal de agir.

Mas quem prega a reação dentro da lei? Quem, em sã consciência, acreditará que "dentro das 4 linhas" - território do inimigo STF - teremos alguma chance de sucesso? Pergunto: Moisés teria libertado os judeus do Egito, se seguisse as leis do Faraó?

E para acabar de broxar dedos priápicos e ostentações constitucionalistas, completo com a seguinte e vital pergunta: em nome de quem as leis são promulgadas? Em nome de quem o poder é concedido? Em nome de quem a autoridade exerce suas funções? Em nome do povo, ora bolas!

O povo é a instância última do poder; em seu nome e sob seu consentimento tudo é feito, o povo é o poder soberano e, vá lá, moderador.

Deste modo, se multidões em fúria agirem teoricamente fora da lei, o mesmo exerce seu poder soberano de "novação" dos termos do contrato, e resta àqueles a quem o povo delegou poderes, acatar.

Onde sou "revolucionário"? Onde prego ideologias? O que defendo é que salvemos nossas próprias vidas, e que este bando de "jóqueis da desgraça", parasitas da aflição alheia, cafetões do sensacionalismo - sim, estou falando com você, youtuber - procurem as migalhas restantes de suas dignidades e usem suas influências para o nosso bem.

Ou que vão, todos, à merda.

Tal como eu, ninguém sentirá falta.


Walter Biancardine



quarta-feira, 26 de março de 2025

IDEALISMO: A DOENÇA QUE PODE ME TIRAR DO COMBATE -

 


Não há outra forma de escrever este artigo que não seja em tom pessoal, pois uso a mim mesmo como personagem para, quem sabe, servir de espelho para mais alguns outros e poucos exauridos, como eu.

Desde o já longínquo ano de 1979 protestava eu contra a anistia, exigida pelo assim chamado “povo” – que se resumia a artistas esquerdistas coordenados pela ampla cobertura da Rede Globo – e tentava, inutilmente, publicar meus impropérios contra tal medida em jornais de bairro ou até como carta, dirigida às redações dos grandes jornais.

Obviamente eu não era ainda jornalista. Tratava-se apenas de um adolescente furioso que, na falta de mulheres dispostas a conceder atenções a um esquisitão, derivava suas frustrações na escrita de protestos inócuos. Mas, libido à parte, eu realmente acreditava naquilo que escrevia – e este foi o erro que me acompanharia por toda a vida: jamais ter escrito uma só linha a qual não cresse piamente, ainda que depois viesse a me arrepender.

Anos depois, já um profissional da escrita, mergulhei de corpo e alma na restauração dos antigos valores brasileiros, que teve como início o famoso protesto contra o aumento das passagens de ônibus – “Não é pelos 20 centavos!” - no governo Dilma Roussef, em 2013. E essa, talvez, tenha sido a eclosão da doença que pode me tirar da luta neste momento: como disse, jamais escrevi uma só linha que não acreditasse e, imbuído desta crença feroz (valores, princípios, norte moral), pus minha cara a tapa e mergulhei de cabeça na luta. Fui censurado, tive inúmeras contas extintas (Twitter, Telegram), YouTube excluiu 28 vídeos meus e desmonetizou-me por completo, impedindo inclusive que eu monetizasse minha página pessoal (também do Google), tive mesmo um artigo excluído de minha própria página (!) e fui amplamente xingado e odiado por conhecidos, desconhecidos, parentes, amigos ou não tão amigos assim. As portas do mercado de trabalho se fecharam para mim e fui reduzido a um “escrevinhador de artigos”, os quais são ainda publicados, graciosamente, apenas pela boa vontade e misericórdia de meus editores.

Ainda assim não abaixei a cabeça. Atravessei o pior pesadelo que um ser humano normal poderia imaginar – do dia para a noite me vi sem casa, sem emprego, sem família, sem parentes, sem amigos, sem mulher, sem raízes, referências, comida e teto. Gastei estes anos terríveis isolado no meio do mato, sofrendo privações e uma solidão absurda, em uma cabana concedida por favor e distante de qualquer alma viva, mas não desisti: escrevi livros, publiquei artigos, persisti na luta e meus ideais me mantiveram vivo.

Tive momentos de fraqueza, vacilos, desânimos mas sempre voltei, ainda que fosse para apanhar mais ainda ou para desencantar-me com a frouxidão daqueles em quem depositava minha maior esperança: povo e líderes.

Mas tudo tem um limite, um limite humano, psicológico, quase questão de vergonha na cara, e este parece estar em vias de chegar.

Em uma tentativa desesperada de postergar, ou enganar o inevitável, confesso que me desviei dos assuntos habituais e, ultimamente, andei publicando arremedos de ensaios filosóficos – coisa que jamais havia feito, por questões de consciência de minha ignorância. Mas era impossível enganar a sanha de poder da atual ditadura que, sem mais delongas, sempre nos presenteava com novos absurdos e ilegalidades, fazendo com que novamente eu obedecesse meus impulsos e voltasse aos eternos, incessantes (e inócuos) protestos em forma de artigos jornalísticos.

Quem tem o (mau) hábito de ler o que escrevo certamente está farto de aturar as inconveniências e impropérios que dirijo ao próprio leitor – batizado por mim de “povo inerme, preguiçoso, fútil, omisso e covarde” – e, igualmente, ao próprio Jair Bolsonaro, a quem atribuo idênticas deficiências. Cansei de escrever que “se Moisés obedecesse as ordens do Faraó, não teria libertado os judeus do Egito”, que eleições ou novas leis não derrubam ditaduras, ou mesmo que “não se luta contra demônios usando as armas de anjos”, mas o alcance do que escrevo não ultrapassa a eterna meia-dúzia de gatos pingados (e ofendidos) de sempre.

Do mesmo modo, sempre amaldiçoei as “passeatas de protestos”, as quais serviam apenas como um bom “programa de domingo” para as famílias, enroladas em bandeiras do Brasil, a tirar fotos para o Instagram e partir para a churrascaria comentando seu “patriotismo”, tão logo as mesmas terminassem. Onde o sangue? Onde a imposição do medo sobre nossos inimigos?

Alegar um “8 de janeiro” é estrondosa má-fé, pois duas garotas e três caras (está no vídeo do Didi Redpill), infiltrados pela ditadura, subiram em um pequeno palco e ordenaram – sim, é o termo e o gado, bovino, cumpriu – que todos se dirigissem ao Palácio, quando clamei por semanas que “jamais saíssem dos quartéis”. E deu no que deu.

Agora Bolsonaro é réu, logicamente será condenado, preso e talvez assassinado na cela. E isso também foi previsto, não somente por mim, mas por muitos. O que fizemos? Nada. O que estamos fazendo? Nada. O que faremos, inclusive se o pior acontecer? Nada.

O sistema não quer Lula nem Bolsonaro, e parece ter escolhido como última opção Tarcísio de Freitas, um bom homem mas militar – portanto positivista e, portanto, cego para o comunismo. Por outro lado temos Donald Trump e suas sanções, mas nada poderá fazer além disso. Ele é Presidente dos Estados Unidos, e não do mundo. E agora?

Agora resta-nos esperar o já sabido veredito, mas ainda falta esclarecer se Bolsonaro será preso imediatamente ou darão, ainda, alguns dias a ele – que certamente não serão usados para refugiar-se em nenhuma embaixada pois, como disse, a coragem não é seu maior atributo. “Mas ele disse que, se for preso, será morto! Isso não é coragem?”, perguntará o leitor. E eu respondo: auxiliado por um cardume de toupeiras (vá lá), cegas para o que é o verdadeiro comunismo, Bolsonaro igualmente não acredita nisso. Mal crê que será preso; morto já está na categoria de ficção – ele assim diz da garganta para fora.

Infelizmente, pouquíssimos brasileiros sabem o que é, na verdade, o comunismo – ou não o teriam aceito, ainda que “docemente constrangidos”. Trata-se de um bando de assassinos sociopatas, verdadeiros delinquentes cujo único objetivo é o poder, e para conquistá-lo e mantê-lo, farão o que for preciso: roubar, mentir, chantagear, sequestrar e, claro, matar. Alguém lembra de Celso Daniel e de tantos outros?

E logo após virão as manifestações de 6 de abril. Serão estrondosas? Talvez. Serão intimidadoras? Nunca, pois somos “conservadores, pacíficos e limpinhos”. E no dia 7, tudo voltará a ser como dantes, no quartel de Abrantes, aquele melancia.

Este é o ponto onde, acontecendo como eu prevejo, deverei me retirar da luta.

Escrevi recentemente que passei toda uma vida defendendo o que acredito, e o que os outros pensam disso é problema deles, não meu. Mas, maior que o cansaço físico de meus 61 anos, é o desalento. A absoluta falta de esperanças, a irritante semelhança de pensamentos com o insuportável Schoppenhauer e seu pessimismo doentio – que, sou forçado a admitir, não se trata de simples pessimismo: é experiência de vida, conhecimento das coisas e dos homens.

O círculo se fechou: parlamentares de oposição perderam seus mandatos ou foram presos, o próprio Bolsonaro assim o será e, de modo pior, sequer temos um norte moral e intelectual do infalível Olavo de Carvalho, morto que está. Restou-nos um bando de youtubers que, tal qual os chicos buarques da vida após o fim do governo militar, vivem hoje às custas do terror da ditadura: se um dia ela acabar, seus empregos acabam também – tal qual Chico.

Para piorar, temos um povo que mostra claramente que ainda tem muito a ser tomado pela ditadura: a cada feriado as estradas lotam; os preços sobem, em uma desesperadora escalada inflacionária, mas limitam-se a reclamar – e comprar, principalmente cerveja. A irritação contra cada novo arbítrio dura exatos 15 segundos, até que o próximo vídeo do TikTok entre, com bela morena a rebolar seus glúteos. E sequer a enfiada de 4 gols, tomada da Argentina no último jogo, teve o condão de despertar o brasileiro de sua letargia dopada. Tudo se resolve com um celular – a arma mortal que tínhamos nas mãos, mas a perdemos para um par de bundas, pacificadoras do povo e normalizadora do “estado democrático de direito”.

E contra isso não posso lutar. Não há como ajudar quem não quer ser ajudado – ou sequer reconhece que precisa ser – tanto Bolsonaro, inerme, quanto o povo, hipnotizado, dopado, em estado vegetativo. Tanto os assessores cegos do “mito” quanto os youtubers carreiristas, jóqueis da desgraça, que não sobreviveriam em um país normal.

Não é vergonha abandonar uma luta impossível de, sequer, perder com honra.

Aguardarei até o final de abril, ainda que seja em infantil esperança de retaliações externas, antes de retirar-me, e assim o farei após esta data: não mais Carta de Notícias, não mais ContraCultura, não mais artigos políticos em minha página pessoal ou em minhas redes sociais.

Me dedicarei exclusivamente à futilidades, memes, postagens automotivas, arqueológicas e, é claro, meus livros. Ninguém sentirá falta, e este é meu mais poderoso motor.

Todos tem um limite, espero que entendam.

Não vale mais a pena lutar. Não há por quem lutar.



Walter Biancardine



terça-feira, 25 de março de 2025

A FARSA DA MAIOR OBRA DE ENGENHARIA SOCIAL, A PIONEIRA QUE DEU CERTO: O COMBATE AO FUMO -


Taxas de mortalidade por câncer de pulmão nos Estados Unidos:

1970 – 28,4 mortes por 100.000 pessoas.
1990 – 41,4 por 100.000.
2010 – 45,1 mortes por 100.000 habitantes.
2020 – 31,3 mortes por 100.000 habitantes.
2021, 2022, 2023 e 2024 – Não disponíveis ainda.

Fonte: https://www.cancernetwork.com/view/overall-us-cancer-mortality-rate-falls-first-time?utm_source=chatgpt.com

A paranóia anti-tabagista se arrasta nos EUA desde o fim dos anos 80, sob a alegação (superdimensionada) de seus malefícios à saúde.

Longe de pretender apontar o cigarro como algo inofensivo, apenas trago fatos - do país que prima por estatísticas - que comprovam a enorme farsa, determinada pelo primeiro experimento de engenharia social do mundo e que, aparentemente, funcionou perfeitamente.

Tal e terrível ação abriu caminho não apenas para um severo controle dos hábitos da população - "coma margarina, ela abaixa o colesterol", entre outros - como, igualmente, para a progressiva desmasculinização do homem, pois o "ideal" masculino vendido até então pela indústria cultural consistia em um homem que:

- Fumasse;
- Dirigisse carros possantes e fumacentos;
- Com personalidade já formada e independente da sua mulher;
- Que as mesmas se deixassem conquistar por alguém "tão atraente";
- Que bebesse socialmente e usasse roupas sóbrias;
- Carnívoro;
- Determinado, seguro de si;
- Provedor de seu lar.

Hoje, após esta bem sucedida obra de engenharia social, a sociedade vê-se às voltas com homens que:

- Não fumam, pois é prejudicial à saúde (maconha não é considerada);
- Usa carros elétricos - verdadeiros "tablets" sobre rodas - e considera automóveis apenas como "condução", sem nenhum apelo emocional;
- Personalidade frágil e maleável aos desejos de sua mulher;
- Não paquera, pois é "assédio" - hoje ele é a donzela a ser conquistado;
- Bebe apenas energéticos com alguma bomba alcoólica, e usa roupas disformes e assexuadas;
- Vegano;
- Frágil emocionalmente e inseguro;
- Depende financeiramente da mulher.

A hipocrisia dos "escândalos" contra quem fuma, hoje em dia, nada mais é que a versão primeira dos mesmos "escândalos" contra quem não usava máscaras, há bem pouco tempo atrás - é tudo obra de engenharia social e, sim, você foi moldado.

Até quando você será um produto da mídia?


Walter Biancardine



quarta-feira, 19 de março de 2025

PESTE CHINESA: O QUE EU FALO NADA VALE -


Quando surgiu a Peste Chinesa e, logo após, as "vacinas", eu proibí em minha casa que a mesma fosse tomada. Do mesmo modo, jamais tranquei-me em casa na fatídica "quarentena" - ia trabalhar todos os dias, a pé. Por último, jamais usei álcool gel ou máscaras.


Sou algum cientista? Não.
Pesquisador? Não.
Médico? Não.

Apenas tenho um Q.I. de três dígitos o qual, para a raiva de muitos, dois deles são números pares. Pensemos:

Uma vacina normal leva mais de uma década, entre pesquisas, desenvolvimento e testes, para ser aprovada e aplicada em seres humanos - mas a da Peste Chinesa "apareceu" em pouco mais de seis meses, e o Governador de São Paulo, João Dória, assinou um contrato de fornecimento da mesma meses antes da pandemia ser declarada.

Uma quarentena pode ser eficiente para manter os doentes em casa, não contaminando os sãos. Por quê eu, em perfeita saúde, me trancaria em prisão domiciliar - sem sol, ar fresco e tudo o mais que, comprovadamente, mata eventuais vírus?

Jamais usei o álcool gel, um arremêdo com vaga lembrança alcoólica que nada esteriliza e, pior, ajuda a preservar e veicular os vírus, dada a composição de seu gel. Uma verdadeira fonte de contaminação.

Do mesmo modo, nunca pus a maldita máscara, pois não sou bandido e, além do mais, bastou imaginar-me do tamanho de um vírus a atravessar, alegremente, os enormes "portões" abertos formados pelo entrelaçamento dos fios do tecido, os quais nada filtram - nem odores, quanto mais microorganismos.

Fui chamado de negacionista, bolsonarista, fascista, nazista, taxista, malabarista, onanista, exibicionista e todos os outros "istas" que perfazem o único arsenal intelectual dos imbecis: a ofensa.

Pois agora a própria USP - ninho vermelho, uma das responsáveis pelo pânico geral instalado no país, declara candidamente que as máscaras "não funcionam"...

Por isso não mais abro minha boca. Se quiserem saber o que penso, leiam meus artigos.

Paciência tem limites.


Walter Biancardine


terça-feira, 18 de março de 2025

DITADURA DE CRISTAL -

 


Eduardo Bolsonaro declara-se exilado e perseguido pela ditadura nos EUA. No minuto seguinte, a PGR de Gonet, que manteve seu parecer sobre o passaporte do mesmo por 18 dias na gaveta, liberou um "contrário ao ato". Pior: dez segundos depois, o ditador Moraes manda arquivar o processo de apreensão do mesmo. Isso mostra que Jair Bolsonaro estava certo: basta um cabo e um soldado para metê-los, todos, na cadeia.

Tal vexame, prova explícita e flagrante de infantilidade, estupidez e burrice do Alto Comando Ditatorial do Brasil deixou claro, para quem quiser ver, a fragilidade da atual ditadura. É natural supor que os líderes absolutistas sejam sempre – além de gente “sangue ruim” – ao menos inteligentes e vivos o suficiente para se livrarem das inevitáveis reações contra seus desmandos. Mas a ditadura do cruel – e burro – Alexandre de Moraes mostrou suas limitações: ele, Paulo Gonet e até mesmo os cúmplices parlamentares da esquerda, que pediram (em claro desespero) a imediata aplicação de tornozeleiras eletrônicas em Jair Bolsonaro, para “evitar que ele se aproxime de embaixadas e (novidade) saia de Brasília” mostram, sem nenhum pudor, um punhado de cérebros em decomposição, irremediavelmente sequelados pelo fanatismo ideológico, perversões de nascença e, muitas vezes, por drogas.

O quê o asno careca, Moraes, pretende? Fazer tal qual criança arteira que, ao ouvir a aproximação dos pais em seu quarto, corre para esconder toda a bagunça embaixo da cama? Fingir que nada aconteceu?

Jair Bolsonaro nos disse, alguns poucos anos atrás: “Vocês não sabem como é fácil criar uma ditadura neste país”. Agora sabemos; realmente deve ser facílimo, considerando a inteligência de rodapé dos envolvidos em algo que, neste momento, mais se assemelha a uma farsa que a um verdadeiro reinado de terror – obviamente descontando-se as terríveis mortes e privações de inocentes.

Isso nos permite fazer uma sinistra mas necessária tábula rasa da fragilidade institucional em que vivemos: bastaria, segundo Bolsonaro, “um cabo e um soldado” para prender todo o STF. Alegariam ser inconstitucional, e que seja: também a inconstitucionalidade é a razão da prisão dos mesmos – e enquanto discute-se, que sejam mantidos devidamente enjaulados.

Do mesmo modo e descontando o arraigado sentimento de disciplina das Forças Armadas, igualmente seria facílima uma sublevação – motim, se quiserem – dos coronéis contra seus generais vendidos, assumindo o comando das tropas e encarcerando, de um só golpe, todo o lixo parlamentar e judiciário que por lá habita.

Por consequência, é possível deduzir os efeitos que uma massa humana produziria sobre tais covardes, na eventualidade de protestos mais sérios e sem a intenção exclusiva de deixar-se fotografar para o Instagram.

Eduardo Bolsonaro deixou a ditadura sem rumo. Possui um excelente relacionamento pessoal com o Presidente da maior potência do planeta e que, neste momento, está para divulgar seríssimas retaliações contra os violadores dos direitos humanos – do mesmo modo que já decretou cartéis de droga como “organizações terroristas”, e isso acua Moraes e seu PCC, bem como Flávio Dino e seu CV. A Lei Magnitski paira sobre os luzidios pescoços de suas excelências, enquanto debatem-se desesperadamente para salvar a própria pele.

O jovem Bolsonaro, entretanto e por mais decisiva que sejam seus atos neste momento, não pode fazer tudo sozinho: ele precisa de respaldo popular, apoio massivo da população, que deve ir às ruas com sangue nos olhos e faca nos dentes.

Agora sabemos que esta é uma ditadura de cristal: não racha, simplesmente esfarela-se.

E isto está em vias de acontecer, só depende de nós.


Walter Biancardine



segunda-feira, 17 de março de 2025

É HORA DE MUDANÇAS -

 


A partir deste 31 de março não mais estarei, diariamente, nas páginas da querida revista Carta de Notícias, bem como após o dia 30, domingo, igualmente será o início de uma nova fase no prestigiado site europeu ContraCultura: para ambas publicações, escreverei somente aos domingos e o amigo leitor se verá livre de meus impropérios diários, nas citadas revistas.

Tal mudança se deve à necessidade de buscar emprego – qualquer um, pois bem sei que, no Brasil, escrever é um luxo para diletantes ricos – e assim fazer frente às minhas despesas, por mínimas e quase ridículas que sejam.

Confesso que o salto dado – de morar de favor no meio do mato para alugar uma casa, comprar um carro e ter uma vida quase normal – pode ter parecido temerário, para muitos. Entretanto, em nenhum momento se tratou de ambição ou preocupações sociais: era, pura e simplesmente, um remédio radical para meu equilíbrio psíquico, sob grave ameaça. Miséria e solidão compulsória tem limites; após anos de privações atingi o meu e a oportunidade de deixar tal ilha de náufrago surgiu, através da assessoria nos trabalhos de agradável pós-doutoranda (pós-PhD), que bem me remunerou e permitiu-me a sanidade mental.

Tal contrato, entretanto, termina neste mesmo 31 de março. Assim sendo, é hora de voltar à vida real e roçar a barriga atrás de um balcão do comércio, sendo vigia noturno, repositor de supermercados ou o que for, pois bem sei de minhas deficiências acadêmicas – as quais, graças a Deus, jamais foram intelectuais e permitiram-me um aprendizado autônomo razoável – e contar com o sacrossanto salário, ao final do mês.

Sei que o trabalho rotineiro e seus horários não deixam muita folga para as aventuras do conhecimento, por isso – e por pura teimosia – combinei com meus pacientes editores a possibilidade de escrever somente aos finais de semana, pois é uma maneira de não me afastar totalmente do mundo da cultura e (creiam) emburrecer-me.

Se os últimos anos foram torturantes em termos de privações e de uma solidão atroz, por outro lado permitiu-me o privilégio de escrever seis livros, estudar, aprender e esculpir, no duro granito de minha ignorância, algo que nada ou ninguém poderá tirar-me: o saber, por mais rarefeito que seja.

Acrescento que hoje, aos sessenta e um anos de vida e tendo já desfrutado de todas as experiências e situações possíveis, pouco ambiciono e nenhuns projetos de glória pessoal ou prosperidade possuo. Tudo o que desejo é morar em um bairro comum, pagar minhas contas, ver seres humanos ao meu redor e, se possível, ler, estudar, aprender e escrever em meus momentos de folga, enquanto a lucidez permitir.

Dado os meus parcos gastos mensais – quase ridículos – não preciso de grandes salários para manter-me e esta é minha arma para tentar, o mais breve possível, conseguir trabalho. Assim, tomei tal decisão (ainda que obviamente motivada pelo fim do contrato) e é hora de seguir em frente.

Aos quatro ou cinco leitores que eventualmente sintam minha falta, lembro que todos os domingos estarei (ainda) nas páginas do Carta de Notícias e do chiquíssimo ContraCultura, com o brinde de eventuais postagens, como essa, em minha página pessoal.

Não é um adeus, é mais um “a gente se vê por aí”.


Walter Biancardine



quinta-feira, 13 de março de 2025

MAX WEBER: UM PALPITE -

 


Para desespero e total decepção dos meus poucos leitores, começo este artigo com uma ignomínia atroz: desde jovem admiro Weber. Ansiava por ele, ambicionava mesmo conseguir ter recursos suficientes para adquirir um par dos mesmos e colocá-los em meu carro – um belo e musculoso par de carburadores Weber 40, que me dariam mais uns 20 a 30 por cento de potência em meu combalido carro de estudante. Sim, reconheço, foi um trocadilho infame.

Somente anos mais tarde – devidamente ajuizado pelas pancadas da vida e determinado a sair da total e claustrofóbica escuridão da ignorância – é que tive a oportunidade de começar a rondar a obra deste distinto senhor, um pioneiro da sociologia, esquecendo-me das arruaças automobilísticas da juventude.

Na verdade, até hoje tenho um preconceito – leia-se “experiência de vida” – contra a sociologia e os sociólogos, eternamente um clube fechado de esquerdistas terminais, imunes a quaisquer tipos de terapia e sem possibilidade de evolução favorável do quadro clínico. Assim, vencendo a repugnância que tais assuntos inevitavelmente me despertam, pus-me a ler algumas de suas obras e – sempre fui assim – encontrei coisas boas e outras que, não posso evitar, deveria discordar ou discutir.

Um desses acasos da vida presenteou-me com a lembrança do texto abaixo, publicado alhures por alguém, o qual reproduzo para que o leitor – o qual conto com sua força de vontade – possa ler minhas análises, ao final do mesmo. Vamos a ele.



Max Weber -

Max Weber (1864–1920) foi um sociólogo, economista e filósofo alemão, considerado um dos fundadores da sociologia moderna. Ele teve uma grande influência no estudo da sociedade, da economia e da política, desenvolvendo conceitos que ainda são amplamente debatidos.

Principais ideias de Max Weber:

1° Ação Social: Weber definiu a sociologia como o estudo da ação social, ou seja, das ações humanas que têm significado dentro de um contexto social. Ele classificou as ações sociais em quatro tipos:

- Ação racional com relação a fins (baseada em objetivos específicos).

- Ação racional com relação a valores (guiada por princípios morais ou éticos).

- Ação afetiva (motivada por emoções).

- Ação tradicional (determinada por costumes ou hábitos).

2° Racionalização e Burocracia: Weber analisou como a sociedade moderna se organizava através da racionalização, levando ao desenvolvimento da burocracia. Para ele, a burocracia era a forma mais eficiente de administração, baseada em regras, hierarquia e impess0alidade, mas também poderia levar à “jaula de ferro” da racionalidade excessiva.

3° Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo: Em sua obra mais famosa, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber argumentou que a ética do trabalho protestante (especialmente do calvinismo) incentivou o desenvolvimento do capitalismo moderno, pois enfatizava o trabalho árduo, a disciplina e a acumulação de riquezas como sinais de bênção divina.

4° Dominação e Tipos de Autoridade: Weber identificou três tipos principais de dominação (autoridade):

- Autoridade tradicional: Baseada nos costumes e na tradição (ex.: monarquias). - Autoridade carismática: Baseada no carisma de um líder (ex.: líderes revolucionários).

- Autoridade legal-racional: Baseada em regras e leis impessoais (ex.: Estados modernos).

Max Weber ajudou a moldar o pensamento sociológico e contribuiu para o entendimento das sociedades modernas. Seu trabalho influencia áreas como administração, ciência política, economia e filosofia.



Segue a minha análise:

Contestando a Interpretação Sociológica de Max Weber -

A influência de Max Weber no pensamento sociológico é inegável, sendo ele uma das principais cabeças na análise das sociedades modernas. No entanto, uma abordagem um pouco mais conservadora e comedida pode – e deve – contestar algumas de suas premissas centrais, sobretudo quanto à excessiva racionalização da sociedade, o limitado papel da tradição que ele a lança e à interpretação errônea do capitalismo. Utilizando a própria obra de Weber como base, é possível apontar algumas limitações e incoerências em sua abordagem a qual, neste momento, ponho-me a fazê-la com muito gosto.

A questão da ação social e a subestimação da tradição -

Weber definiu a sociologia como o estudo da "ação social", classificando-a como racional em relação a fins, valores, ao afetivo e tradicional. Contudo, seu enquadramento da "ação tradicional" como algo quase mecânico – esqueçam os carburadores, por favor –, desprovido de racionalidade consciente, revela um viés verdadeiramente iluminista, que subestima a profundidade da tradição na constituição da ordem social. Filósofos conservadores como Edmund Burke e Michael Oakeshott (o conhecem?) argumentam que a tradição não é mera repetição de hábitos, mas sim um repositório de sabedoria entre as gerações, refletindo a experiência acumulada das civilizações.

A própria obra de Weber nos obriga a considerar como “curioso” o fato dele reconhecer o papel da tradição na autoridade (autoridade tradicional) mas, ao mesmo tempo, rebaixando-a à uma forma "menos evoluída" de estruturação social. Isso, obviamente, é um paradoxo: por um lado, Weber valoriza o papel da tradição no passado; por outro, sua própria abordagem sugere uma transição inevitável para as (suas) formas racionais de organização. O conservadorismo ao contrário – para não arrogar-me a pretensão de dizer “eu” – reconhece a tradição não como um estágio primeiro e transitório, mas como um elemento essencial para a estabilidade e continuidade da sociedade.

A "jaula de ferro" da racionalização e o abandono do espírito comunitário -

Weber descreveu a burocracia – sim, este inferno que vivemos hoje – como a forma mais eficiente de administração na modernidade, mas também alertou para os perigos da "jaula de ferro" da racionalidade excessiva, pois ele próprio provavelmente saberia onde tudo poderia desembocar. No entanto, sua análise falha ao não reconhecer que essa "racionalização" pode ser fruto de uma visão progressista, esquerdista mesmo, que busca dissolver os laços orgânicos da sociedade em prol de um modelo mecanicista de gestão impessoal (consulte “jurisfação”, teoria explicada pelo jurista brasileiro Miguel Reale) – que tal “O Poderoso Estado”?

A tradição conservadora, bem lembrando a palavra e representada por autores como T.S. Eliot e Russell Kirk, mostra que a vida social não pode ser reduzida a cálculos utilitários, pragmáticos, pois isso ignora os valores morais, religiosos e culturais que dão algum sentido à nossa miserável existência humana.

Se, como Weber sugere, a burocracia se tornou a forma predominante de organização social, hoje sabemos ser desnecessário questionar se esse fenômeno é de fato um avanço ou se representa uma verdadeira decadência, na medida em que substitui a autoridade natural e os laços comunitários por um sistema impessoal e desumanizante. Qualquer mentalidade de bom senso e razoavelmente conservadora proporá que as relações sociais devam ser baseadas na identidade histórica e nos valores compartilhados, e não nessa "racionalidade" abstrata, que muitas vezes desconsidera a realidade concreta da natureza humana.

A errônea interpretação do capitalismo e a religião -

Em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, Weber argumenta que a ética do trabalho protestante, especialmente calvinista, incentivou o desenvolvimento do capitalismo moderno. Embora essa tese tenha sido amplamente discutida e influente, ela também apresenta limitações ao negligenciar o papel do catolicismo medieval na formação das bases econômicas da Europa, bem como seu cuidadoso “esquecimento” que este mesmo “cisma” da Igreja preparou o terreno para calamidades como a Revolução Francesa, o Iluminismo e outros males.

Historiadores como Christopher Dawson e economistas como Joseph Schumpeter apontam que o desenvolvimento do capitalismo, na verdade, antecede o protestantismo e que a visão weberiana é apenas uma superestimação da influência de um aspecto específico da religião, em detrimento de um panorama mais amplo. É o óbvio que muitos se recusam a reconhecer.

Ademais, um olhar preventivamente conservador para o capitalismo reconhece que, enquanto a livre iniciativa e a propriedade privada são essenciais para a prosperidade, o sistema econômico deve sempre estar ancorado em valores morais, que preservem a coesão social e a dignidade humana. Weber, ao enfatizar a "racionalização" do capitalismo, parece sugerir que esse sistema é inevitavelmente destituído de influências morais e culturais profundas, tornando-o quase um “pai adotivo” do liberalismo – o qual, em minha ótica, jamais foi ideologia e resume-se a um pensamento econômico. A verdade é que o capitalismo deve ser moderado por princípios transcendentais, que garantam sua harmonia com a ordem natural e social, ou tudo será pura e sangrenta selvageria.

Ao fim da história-

Max Weber forneceu algumas contribuições valiosas para a compreensão da sociedade moderna, mas seu pensamento sempre deve ser questionado por uma abordagem conservadora, que valoriza a tradição, a organicidade das instituições e os fundamentos morais da ordem social. Sua tendência a enxergar a racionalização como um processo inevitável o leva a desconsiderar a importância da história e da cultura na estruturação da vida social.

Ao recuperarmos as críticas conservadoras a respeito da burocracia, da moralidade econômica e do papel da tradição, sempre teremos uma leitura mais equilibrada e crítica de sua obra.

É Weber em seu devido e justo tamanho.



Walter Biancardine