Ou nunca houve amor.
Quando jovem, ao menos havíamos de admirar o trabalho braçal, físico e emocional da então eleita em dar o aviso prévio – “precisamos conversar” – e depois a dura tarefa de dizer a alguém, que já esteve em seus braços e te conhece por dentro, ser já a hora de picar a mula. Tomar rumo. Vazar.
Era ruim pra ela também, muito embora eu tenha certeza que algumas sentiam um tesão sádico e oculto nisso.
Hoje talvez seja bem mais fácil. A tecnologia a serviço do coice. Bloqueia-se no WhatsApp, nos perfis de redes sociais e isso, atualmente, parece ter a mesma força emocional de uma mulher gritando em sua cara um pesado “cai fora de minha vida!”, só que sem esforço ou desgaste psicológico para ela.
E até mesmo a reação do homem parece ter mudado.
Atravessei uma vida curando dores-de-corno nas mesas de bar, chorando escondido no quarto, correndo feito um alucinado com o carro ou – quase adesivado ao aparelho de som – escutando músicas que me remetessem à infeliz que me despachara. E escrevia, escrevia e escrevia. Compunha versos de pé quebrado, fazia músicas (que Deus me perdoe), contos, historietas, e em tudo isso só haviam, sempre, dois finais: ou o limbo, o oblívio da solidão, ou o clássico “e viveram felizes para sempre”.
Creio que não era um caso único. Quantas vezes minhas camisas foram manchadas pelas lágrimas de amigos bêbados – até então jovens e invencíveis como eu – a lamentar pelo chute inopinado em seus traseiros? E eu, solidário, bebia com ele até cairmos.
Sim, havia uma solidariedade.
Na medida que envelhecemos e ganhamos experiência, entretanto, os gritos de dor parecem ficar mais silenciosos. Senilidade ou sabedoria, o fato é que o tempo parece ter me restringido a lamentar minhas perdas em mesas de bar ou nas longas e solitárias caminhadas no pasto, as quais me concedo oportuna demência e falo sozinho.
Falo não, discurso. Esbravejo. Xingo. Choro rios de lágrimas.
E escrevo.
Já a geração atual me parece um amontoado de robôs. Não sofrem, atualizam o sistema e – para se prevenir – as definições de vírus.
Ninguém chama um amigo para encher a cara e se lamentar. Até porque, caso o faça, o amigo nada terá a dizer, pois desconhece a dor da perda física. Sim, física, pois o amor agora é virtual. A atração viaja pelos cabos de fibra ótica e o corpo da – vá lá – amada é conhecido através do monitor de alta definição. Pior: ninguém se vê. O convívio, as amizades e até os amores são à distância, virtuais. Não há toque, não há pele, não há calor. Talvez a chamada de vídeo seja o mais poderoso anticoncepcional já inventado.
E namoradas criadas pela Inteligência Artificial jamais darão um pé na bunda de seu criador – por enquanto.
Não sei dessa nova geração, o que sei é de mim. Amar é sofrer, nunca falha.
Mas jamais tive medo da dor.
E continuarei sempre disposto a oferecer meu coração em sacrifício, caso o destino me presenteie com alguém – ou o fígado, como sempre termina acontecendo. E pouco me importa.
Tão pouco me importa, tão em baixa conta o amor coloca nossa dignidade e compostura que, se ela estalar os dedos, eu voltarei.
O amor nunca teve vergonha na cara.
Walter Biancardine











