terça-feira, 9 de junho de 2026

BUNDAS, SEMPRE BUNDAS -

 


Gosto de whisky Jack Daniel’s. Eventualmente o cito em meus escritos. O mesmo se dá com uma boa cerveja em dias quentes, mas logo começam a me achar alcoólatra.

Já tomei bebedeiras homéricas. Hoje concluí que a bebida nada apaga. Apenas nos tira o filtro e faz a dor ficar mais aguda e as certezas mais ferinas.

Quanto aos vícios, experimentei de tudo e nada me pegou. Apenas o cigarro permanece, e já não sei se dele tenho uma dependência física, química ou a pior delas: a emocional.

O julgamento dos outros é forte.

Na verdade, há tempos convivo com o que pensam de mim.
Mas faço o que quero. As conclusões tiradas pelos outros são problemas deles, não meus.

Fosse eu enumerar meus rótulos, a melhor saída seria deixar o país. Eu seria um alcoólatra, chapado, vagabundo profissional e, para completar, tarado em bundas.

Sim, bundas.

A rotina de minha vida é a de pessoas indo embora. São amores desfeitos, amizades rompidas, brigas decorrentes de gente que confunde favor com servidão.
E quem vai sempre está de costas para mim.

A única coisa que lembro ao pensar em meu círculo de convivência são bundas.
Bundas indo embora com mágoas.
Outras bundas com raiva.
Outras ainda com a certeza de que sou um ingrato.

Bundas.
Sempre bundas.

Fosse eu alguém carismático e cercado de gente, lembraria de rostos.
Como estão indo embora, só vejo bundas.

Depois de um tempo, os julgamentos e as despedidas começaram a parecer a mesma coisa.

Olho para mim hoje e vejo um escritor, poeta, desenhista, artista plástico, jornalista, analista político, ensaísta, cantor, guitarrista, baixista, piloto de avião, motociclista, motorista de caminhão e, ultimamente, andarilho de beira de estrada.

Disso tudo só permaneceram a escrita e as longas caminhadas.
Todas aquelas bundas, indo embora, me transformaram num andarilho.

E que escreve. 

Até sobre bundas.



Walter Biancardine





segunda-feira, 8 de junho de 2026

QUARTA CAMADA -

 


Alguns escritores e poetas 
são parasitas deprimidos,
que vivem na quarta camada 
da personalidade

Gastam os dias chupando vidas alheias
e lamentando a própria.

O resultado são rimas de silício
sangrando pernas
em realismo travestido

e lágrimas
ao tentar levantar da cama 
de manhã.

Eu sou um deles.


Walter Biancardine 


QUALQUER COISA

 

Uma página de poesias andou postando "recomendações sutis" sobre o uso eventual de "palavras de baixo calão" em alguns poemas. 

Isso é o fim da picada. Não é defesa da pornografia, mas da palavra exata. Usar "nádegas" onde o poema pede "bunda" o enfraquece tanto quanto dizer "atendente genital" no lugar de "puta".

Poesia não é questão de educação, mas de expressão - dentro dos óbvios limites do bom senso.
Mas se todos tivéssemos bom senso, não seria preciso religiões.

E por isso fiz o poema abaixo, para responder seus administradores:

QUALQUER COISA -
a poesia pode falar
de qualquer coisa
desde que não seja
qualquer coisa

rimem tempestades
desde que não chova
escrevam sobre flores
mas não sobre o adubo

sobre o amor
mas não sobre a cama

sobre a vida
mas não sobre o aluguel
sobre a alma
mas não sobre o corpo

admirem o biquíni
esqueçam o cu


Walter Biancardine



A CONDIÇÃO HUMANA (e Outras Formas de Falar de Mim Mesmo) -

 


ela foi embora às dez

às onze eu já era poeta

à meia-noite

um especialista em sofrimento humano


às duas da manhã

estava procurando moedas

para comprar outra cerveja


falava

da solidão do homem moderno

mas conferia as curtidas

a cada três minutos


o abismo existencial

era o algoritmo


escrevi 14 páginas

sobre a morte

e 15

sobre minha própria biografia


jurei buscar a verdade

mas aceitaria aplausos

em qualquer moeda


quando publiquei o poema

ninguém comentou


foi a pior tragédia

que já aconteceu

com a humanidade



Walter Biancardine



domingo, 7 de junho de 2026

MAIORES QUE A VIDA

 


tem gente que é imune à educação
impermeável a gentilezas
vacinados contra o bom trato

estão sempre com um ar assim
meio bravos e se achando
importantes demais

jamais perderiam tempo
dando um bom dia
o pior é que os conheço

leio suas caras como ficha corrida
ou um currículo porco e pobre

nunca são nada
mas querem parecer muito
apenas me contenho
da vontade irresistível
de gritar que são pobres

pois esta é a pior ofensa
chame de tudo e até de ladrão
mas nunca de pobres
em suas ignorâncias
acham que o gentil é serviçal
ou vai pedir alguma coisa

pois eu pediria gentilmente
e com toda a educação
que fossem sem demora
todas e todos

tomar no cu


Walter Biancardine 


APENAS EU?

 


não sou só eu
que tenho de dizer
eu te amo

não sou só eu
que tenho de mostrar
meu amor a você

não sou só eu
que preciso entender
as portas que você fecha
os fantasmas que não me conta

ninguém ama sozinho
abraçando uma estátua
quero ouvir de volta
quero carinhos também

o amor não é santo
eu amo você
pelo que você é
mas também 
pelo que me dá


Walter Biancardine


HOJE NÃO IMPORTA -

 


coisa estranha acontece
às vezes depois de um almoço e cerveja
a comida não foi demais nem de menos
medida certa
e a bebida me elevou à alegria apenas

me sinto plácido
como que dono de uma situação
calmo e tranquilo
cabeça vazia e nada penso
um privilégio

os rosnados da vida
não fazem efeito e rio deles
as preocupações
bem sei não as resolverei hoje
então são inúteis

não sei se é um nirvana alcoólico
iluminação etílica
ou bem-aventurança gastronômica
mas nada mais me importa
ou desejo neste minuto

me sinto um indivíduo
ocupando um lugar no espaço
merecendo respeito
e metade dos problemas
são pela falta dele

sinto o grande poder
de dizer foda-se
então o problema não é mais meu
é de quem tentava me corroer
vingança passiva e agressiva

hoje comi e bebi
nem demais e nem de menos
e fiquei assim
o dinheiro da semana entrou
e disse alegremente ao mundo

que hoje nada importa



Walter Biancardine 



AMANSANDO O MAR -

 

criado em beira de praia
água salgada nas veias
misturada à gasolina e óleo diesel
com barulho de velas ao vento

nos barcos que naveguei
tive bons mares
bons ventos
calmarias

no porto estou seguro
mas não fui feito pra isso

há mares a navegar
quando faz água no casco
e adernamos
é navegar ou afundar

e vieram as tempestades
a pior que vivi
varreu o convés
levou a todos

e fiquei à deriva
só eu e o barco

mar bravio é o terror
só quem o enfrentou 
sabe o fundo do cavado
e a vertigem da crista

os ventos levam tudo
esperanças e juízo
sopram o desespero

mas ela veio
andando sobre as águas
ninfa das águas
com olhos de poder

sobre o mar
sobre os ventos
sobre mim
e meu coração

o mar acalmou
nuvens sumiram
estrelas brilharam

ela sentou comigo
ao meu lado no leme
e me deu a direção

ela é sextante na alma
bússola no coração
e mapa no corpo
que decorei

iara ou sereia ou ninfa
como saber
mas me tomou
e me deu finalmente

meu porto seguro
com seus olhos
que ninguém tem

me trouxe águas doces
e um mar manso
como um pantanal



Walter Biancardine




sábado, 6 de junho de 2026

CANETA AZUL

 


penso em versos
na sublime poesia
de "Caneta Azul, Azul Caneta"
e um troço se agita em mim

logo me acalmo
pois vem à lembrança
que o mundo já acabou

não foram guerras
bombas ou doenças
mas uma telinha 
de celular

matou neurônios
extiguiu sinapses
fez um tuíte ser longo demais

e complexo demais

no vazio da terra
desabitada pela inteligência
viscejou "Caneta Azul"

inevitável



Walter Biancardine




REPROVADO -

 


não há ponto ou vírgula
ou exclamação
quem entende sabe o ritmo
e até a entonação
não preciso dizer

quem entende vê aleijado
capenga e perneta
mas sabe que lindo fosse
nada diria verdadeiro
de mim

uma coisa é a crônica
que contamos as coisas de ontem
outra é a poesia
pra chorar os desastres da alma
ou os encantos de amor

a primeira tem data
todo mundo sabe e comenta
a segunda é sempre
passado e presente e futuro
todos sentiram e pode doer

eu escrevo e você lê
mas não pense que me conhece
não é um diário mas sim inventário
de emoções em biografia
romanceada ou enfeitada

porque filho feio não tem pai
e se escrevo toda minha merda de vida
sem nenhum retoque ou emenda
não seria seu lugar um livro
mas o divã de analista

quem escreve 
entrega seu sangue ao leitor
mas nunca e nunca

o exame de DNA


Os fracassados, mancos, capengas e poetas fornecem material muito mais interessante do que os vencedores profissionais. 
Os vencedores costumam esconder tudo mas os derrotados deixam rastros.



Walter Biancardine



OCUPADO


 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

PENA DE VIDA

 


vontade de ir embora

mas não tenho pra onde

vontade de recomeçar

mas não tenho como

nem com o quê


vontade de sumir

mas lá já tá ocupado

vontade de acordar

e só ter sido um pesadelo

mas nunca mais dormi


farto de tudo

não me suporto

nem um segundo a mais


o passado me irrita

o futuro exaspera

o presente me enoja


não há quando

onde

como

ou porquê


só há essa prisão

pelos crimes

da minha existência

o atrevimento

de existir


condenado à solitária

perpétua


uns dias me desespero

noutros, fico apático

ainda reajo


isso é péssimo

tenho de parar


que Deus tenha piedade

e me conceda

parar


de tudo




Walter Biancardine




KEEP WALKING -

 


Na beira do precipício
um gole de Johnnie Walker

E penso seriamente
em seguir seu conselho

O importante
é dar um passo à frente


Walter Biancardine 



DINAMITE


passamos uma vida sendo pedra

então chega um amor
dinamita a rocha
reduz tudo a escombros
e pó

junta água
nos torna barro
e molda nossos sentimentos
na forma do seu amor

depois pergunta,
na cara de pau:

"o que aconteceu com você?"


Walter Biancardine 


AQUELES DIAS -

 


existem dias que estamos mesquinhos
acordamos nos vales, nos abismos
tudo o que queremos é companhia

a gentileza pede algo em troca
o favor espera pagamento
o sorriso cobra outro
ou ao menos conversas

o mundo parece imenso
e eu, uma formiga
formiga do job
oferecendo companhia

mas em volta só o vento
e uma multidão de fantasmas
que povoam o deserto
e fazem ele mais vazio

gosto de sol e gosto de chuva
do deserto e amigos em volta

e comigo no nada
quero todos os contrários
ao mesmo tempo, em agonia

solidão enobrece
ou enlouquece

nos faz sermos tolos
por 1,99 na beira da rua
implorando atenção
que só vem no desprezo

resultado é a raiva
não do mundo – ele é isso

mas de mim e minha burrice
que me fez um prostituto 
pago com atenção
em cheques pré-datados

“semana que vem conversamos”



Walter Biancardine 



quinta-feira, 4 de junho de 2026

FEBRE

 


a febre tem o estranho costume
de acender lâmpadas em quartos vazios

não importa quantos livros na estante
números salvos no telefone
sorrisos em fotografias

bastam trinta e oito graus
e pele ardendo
para descobrir a verdade

a cabeça pesa
o cobertor pesa
a casa inteira pesa

e o sujeito percebe 
há doenças
que doem menos nos ossos
que nos espaços entre os móveis

a febre só pede
um café
mão na testa,
um colo dizendo
"vai passar"

mas a porta continua fechada
a cozinha continua distante
e a chaleira não se oferece
pra ferver sozinha

a noite cresce
o relógio recusa os minutos
o termômetro sobe em deboche

o homem na cama
escuta só o próprio coração
cumprindo expediente

a solidão da febre é só dela

não a dos abandonados
nem a dos viúvos
nem a dos exilados

é precisar de colo
num mundo que não liga

a cidade continua funcionando
ônibus passam
padarias abrem
casais discutem
crianças nascem
alguém é promovido
outro perde o emprego
e nada diminui um só grau
no termômetro da madrugada

a febre segue queimando
como a última fatia de carne
esquecida na grelha 
depois da festa

já comeram
já foram embora
a brasa ainda vive

torra sozinha
estalando baixinho no escuro
até que não reste mais nada
além de fumaça

nem sempre a febre mostra doença

às vezes só diz
quem viria trazer um café

e quem não



Walter Biancardine



segunda-feira, 1 de junho de 2026

A ROTINA É CÍNICA -



se tenho uma noite horrível
me afundo em angústia
ou agonias transbordam
o dia amanhece igual

pessoas morrem ou nascem
demissões e pés na bunda
o ônibus continua lotado

gente se casa ou separa
descobrimos doenças
que vão nos sepultar
e porteiros lavam as calçadas

entendemos o sentido da vida
ou percebemos que nunca houve nenhum
mas a luz é cortada do mesmo jeito

varamos a noite em poesia
amores se tornam eternos
mas se acordarmos tarde
o pão acaba na padaria

escrevo tudo isso e percebo
o mundo não liga ou se importa
a rotina da vida é cínica

ela tem o desplante
de nunca mudar


Walter Biancardine




REPRISE -

 


alguns dias parecem filmes velhos

que já vi desde sempre

conheço os tipos, as cenas

sei como termina


alguém conta uma piada

que aprendi antes dele nascer

alguém dá uma risada escandalosa

que já previ acontecer


cenas antigas, intenções também

é castigo ler os rostos

como fossem manuais


mas pior são os dias

mal começados e sei o final

só não acerto a Loteria


ainda bem, não é rotina

normalmente nada sei

nem mesmo de mim

e só por isso sigo em frente


se não fosse, puxaria a cordinha

- moço, me deixa nesse ponto

trocar de canal termina em hospício



Walter Biancardine




sábado, 30 de maio de 2026

AS FICHAS ACABARAM -

 

Na Rua do Catete existe um orelhão, e só isso já seria notícia suficiente.

Numa época em que até a geladeira conversa com o celular e o sujeito recebe propaganda de remédio para hemorróidas cinco minutos depois de comentar o assunto no botequim, encontrar um orelhão em funcionamento é quase o mesmo que encontrar Lady Gaga cantando na Praça XV.

Azul desbotado, coberto por adesivos arrancados pela metade, anúncios de vereadores, encanadores desaparecidos e declarações de amor que não sobreviveram ao namoro. Um veterano de guerra esquecido no posto.

Ninguém usa o orelhão. Mas ele está lá, ostentando inscrições produzidas pela mais antiga academia literária do Rio de Janeiro: a caneta Pilot.

No casco sobrevivem relíquias arqueológicas. "Michelle. At. Hot. Motéis. Domicílio. Com aparelhos." Abaixo, alguém acrescentou: "Michelle me deve 50 reais." Mais embaixo: "Mentira. Ela pagou."

E, encerrando o debate acadêmico:
"Flamengo campeão."

O curioso é que ninguém sabe quem é Michelle, quais aparelhos ela possuía ou qual a relação disso tudo com o Flamengo. Mas a história ficou registrada para as futuras gerações.

Também havia declarações de amor: "Márcia eu te amo." Logo abaixo: "Márcia eu te odeio." Mais abaixo ainda: "Márcia volte." E por último: "Márcia não precisa voltar." Acompanhando a cronologia daqueles rabiscos era possível assistir ao namoro inteiro sem precisar pagar ingresso.

O orelhão permanece. Firme. Inútil. Respeitável.
Como certas pessoas.

Foi por causa dele que comecei a reparar no velho. Aparecia quase todos os dias.
Magro, cabelo branco, camisa de mangas curtas sempre bem passada, caneta Bic enfiada no bolso e um jornal dobrado debaixo do braço. Entrava na padaria, tomava café, lia as manchetes, observava a rua pela vitrine e depois saía para caminhar sem aparente destino.

Às vezes parava diante do orelhão. Não telefonava. Não mexia em nada. Ficava apenas olhando. Como quem visita um túmulo.

Durante semanas imaginei que fossem velhos amigos.
O homem e o orelhão. Companheiros de alguma época em que ainda se telefonava para as pessoas em vez de enviar figurinhas animadas desejando bom dia.

À primeira vista, o velho e o orelhão formavam uma dupla natural. Os dois tinham sido muito requisitados no passado. Os dois já tinham conectado pessoas. Os dois passavam a maior parte do tempo sem tocar. E ambos davam a impressão de que a prefeitura ainda não os removeu porque ninguém sabia exatamente qual formulário preencher.

Até que um dia puxei conversa. Bastou mencionar o orelhão. Os olhos dele acenderam.
- Usei muito aquilo.

Assenti. Era uma frase óbvia para alguém da idade dele.

Mas ele continuou.
- Ali recebi a notícia do nascimento da minha filha.

Apontou.
- Ali soube que meu pai tinha morrido.

Apontou outra vez.
- E foi dali que liguei para minha mulher quando resolvi pedir desculpas por uma besteira que eu tinha feito.

Olhou para o chão.
- Ela aceitou.

Ficamos alguns segundos em silêncio. O trânsito passava rugindo ao redor. Motocicletas, ônibus, buzinas, entregadores correndo atrás do relógio. O velho e o orelhão pareciam pertencer a outro século. Talvez pertencessem mesmo.
- Sua esposa está bem? – perguntei.

Ele sorriu daquele jeito que os velhos sorriem quando a resposta dói.
- Morreu faz seis anos.

Depois levantou os ombros como quem comenta a previsão do tempo.

Porque os velhos aprendem uma arte que os jovens desconhecem: carregar tragédias sem fazer propaganda delas.

Conversamos mais um pouco. Descobri que a filha morava longe. Os antigos amigos haviam morrido, adoecido ou simplesmente desaparecido. Alguns sumiram sem o trabalho de morrer. Coisa muito comum.

Há amizades que terminam porque alguém mudou de bairro. Outras porque alguém trocou de emprego. Outras porque um dos dois comprou uma esteira ergométrica e passou a falar sobre qualidade de vida.
São fatalidades da existência.

Quando nos despedimos, ele ficou parado mais uma vez diante do orelhão. Foi então que entendi. Não era o orelhão que ele visitava. Era o passado.

Aquele casco azul era apenas uma porta enferrujada para um mundo onde ainda havia gente esperando suas ligações.

Voltei para casa pensando nisso.
Dias depois passei novamente pela rua. O velho estava lá. O orelhão também. Os dois imóveis. Os dois esquecidos. Os dois sobrevivendo ao próprio desaparecimento.

O curioso é que ninguém presta atenção em velhos nem em orelhões.
Até que desaparecem.

Aí surgem imediatamente especialistas explicando sua importância histórica.

O Rio produz muitos especialistas póstumos.



Walter Biancardine 






sexta-feira, 29 de maio de 2026

UM REAL -

 


Era um botequim na Rua do Catete, perto da estação do Metrô.
Local de grande movimento, gente sempre entrando e saindo pra comprar cigarros, refrigerantes, comer um salgado, tomar cerveja – enfim, tudo o que compõe a rotina carioca típica.

Zé Jorge era um frequentador assíduo. Negão, quase batendo nos dois metros de altura e com um par de braços que lembravam as colunas da ponte Rio-Niterói, por lá se deixava ficar depois de seu expediente de encanador em uma obra próxima, rodeado de cervejas e tira-gostos. Foi quando viu um cliente entrar vestindo um terno da Ducal, amarrotado, segurando uma pasta 007 e pedindo um café.

O homem levantou a xícara do pires e ia levá-la à boca quando viu uma moeda de um real sobre o balcão. Disfarçadamente, deslizou a mão por cima do dinheiro. Percebeu que não se movia. Fingiu que limpava o balcão, terminou o café e já ia embora quando Zé Jorge perguntou, gaiato:
- Essa moeda é de sua pessoa?

Sem graça, o homem respondeu:
- Nada, deve ser desse português aí atrás do balcão…
E sumiu no mundo, apressado.

Logo depois entrou um rapaz jovem, de rabo de cavalo e barba de lenhador vegano. Pediu um energético e viu a moeda. Mudou de ideia: cancelou o energético e pediu um café. E com a colherinha que veio junto, ele tentou descolar a moeda do balcão. Seu Almeida, o português dono do boteco, só olhava de longe e fazia uma careta. Os amigos mais próximos sabiam que aquilo era um sorriso.

O rapaz tentou, mudou de posição, olhou a moeda de perto e, por fim, decretou com suprema sabedoria:
- Isso é Super Bonder!

Zé Jorge apenas resmungou, de seu canto:
- Olha que pode fazer falta pra sua pessoa…

Dessa vez o botequim inteiro riu.

Lá pelas quatro da tarde, entretanto, apareceu a suntuosa.
Michelaine andava lá pelos seus dezoito ou dezenove anos e era babá no Flamengo. Possuía uma dessas belezas que fazem homem esquecer senha de banco, aniversário de casamento e até o nome da própria mãe. 

Pediu um refrigerante e viu a moeda. Seus olhos brilharam.

Sem pestanejar, meteu a unha por debaixo da moeda para levá-la, mas a Super Bonder cumpriu seu papel e a pobre quebrou a unha, recém feita:
- Ai! Que droga, lamentou ela.

Zé Jorge, já tonto por acompanhar tantas curvas do corpo da suntuosa, condoeu-se: pegou uma outra moeda de um real que tinha em seu bolso e a colocou, discretamente, sob seu braço apoiado no balcão. E aproxegou-se, galante e solícito:
- A sua pessoa não fique triste… olha, que tal tentar com essa outra aqui? – e apontou a moeda que acabara de colocar.

Michelaine olhou meio desconfiada, mas tentou. E conseguiu, sorrindo radiosa.

Zé Jorge não perdeu tempo:
- Não é todo dia que a sua pessoa enriquece desse jeito! Vamos comemorar num lugar bacana, que eu conheço?

A suntuosa concordou.

No dia seguinte a pobre teve de faltar o serviço, se recuperando em banhos de assento.

Mas ganhou um real.



Walter Biancardine


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