Tenho lutado uma batalha inglória contra o desânimo, contra a sensação de mentir para mim mesmo e insistir em não enxergar que agora é tarde – não há mais lugar para mim, a vida está lotada e seguiu em frente.
Não há como me comparar a um jovem brilhante, verdadeiramente portador de um dom e grande promessa em sua vocação: tal jovem terá, ao mínimo, mais uns 40 anos de produtividade e ascensão profissional, encantando a todos por sua precoce perspicácia e eficiência.
Um velho não deslumbra ninguém. Não há dom, mas experiência. Não há brilho, apenas o mínimo que se poderia esperar dele. Não nos faz transcender, mas nos deprime em sua decrepitude física e lembrança da morte iminente. Para piorar, nos obriga a perdoar eventuais esquecimentos e a sublimar as inúmeras rugas – físicas e espirituais – indisfarçáveis em suas produções, cada vez mais esparsas.
Mas teimo em mentir para mim mesmo, fingindo acreditar que submeter-me a um ritmo alucinado de trabalho – ao menos para meus 60 anos – escrevendo para duas revistas ao mesmo tempo e sem nada receber por isso – estará “abrindo portas para que alguma oportunidade apareça”.
Sim, nada recebo e trabalho de graça. Mas creio, piamente, que me abrirá portas para alguma oportunidade. Apenas desconheço quais chances estariam disponíveis para quem já não tem mais o viço da juventude ou, sequer, o dom dado por Deus. Ao contrário dos jovens talentosos, velhos como eu não são promessas, mas lembranças.
Bati em muitas portas; em algumas até ouvi elogios, mas não há quem se arrisque a pagar salários a um velho – curto prazo de vida útil e, pior, sem nenhum dom.
Mesmo os três livros que venho escrevendo, destes quase tenho desistido. Embrenhar-me em ensaios filosóficos sobre determinismo e livre arbítrio, a influência das ideologias sobre o estilo cotidiano ou mesmo uma introspectiva análise sobre solidão e transcendência pouco ou nada me dizem, neste momento.
Diante das pífias vendas de meus livros anteriores ou as nenhumas repercussões de meus artigos, a mera lógica aponta que ninguém está realmente interessado naquilo que um velho, desconhecido e apenas mediano autor tem a dizer. Sinto-me tentado a voltar à ficção, criar histórias sem a exaustão intelectual que teses filosóficas me provocam e, nelas, desaguar todo o velho hábito de escrever que ainda tenho – útil ferramenta que me ocupa os dias e esconde a solidão.
Sim, a solidão. Não basta apenas pensar-me um inútil, é impossível esquecer que sou um excluído: sem amigos, sem família, sem trabalho, sem colegas, sem vizinhos – pois moro no meio do mato – e sem, sequer, ter onde cair morto pois a casinha em que vivo me é emprestada pelo favor da única alma que ainda me enxerga ocupando um lugar no espaço.
Isolado do mundo profissional, desaparecido do mundo pessoal e sem um tostão no bolso, considero-me um cadáver, que insiste em vagar pelo mundo dos vivos mentindo para si mesmo, e fazendo de conta que o cheiro de sua putrefação não é notado por ninguém.
Vivo de lembranças e esperanças, o tempo presente a idade me tirou.
Mas não se preocupem com tais momentos de tristeza, pois amanhã estarei melhor e escrevendo novos artigos gratuitos.
Sabe lá se alguém os "lê e abre uma porta" para mim?
Sim, na velhice a mentira é terapêutica.
Walter Biancardine
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