quarta-feira, 4 de novembro de 2026

MUNDO EM TREVAS


Pesadelo distópico. Sensação lisérgica.
Enorme catástrofe nuclear global e invasão do território brasileiro por forças chinesas, muçulmanas e russas, com a conivência do nosso governo.

Vou ao meu bom vizinho, amigo mesmo, e me valho dessa amizade pra traí-lo: o agrido seriamente, roubo suas armas e seu carro.
Meu filho é homem feito, sabe o que fazer e sua mãe só tem a ele como homem em quem confiar sua vida. Deixo-o no Rio de Janeiro e que Deus o ajude.
Me ponho em marcha para o Pantanal - lá vive minha amada. Ela só tem a mim.

Preocupações com gasolina e pedágio não são necessárias. A escopeta roubada resolve.
Cada posto, um assalto: gasolina, comida e qualquer coisa que eu possa trocar no escambo. 
Cada pedágio, é roletar a cancela. A Polícia Rodoviária há muito sumiu.
Não há polícia, exército, forças de defesa.
É o povo entregue à própria sorte.
A civilização ruiu e me sinto um Mad Max do asilo de idosos.
Mas é o jeito. E a estrada segue.

Olho constantemente os céus. Nenhuma aviação inimiga por enquanto.
Vigio a estrada, pois grupos de traidores aliados às forças inimigas podem surgir.
E surgem.

Mas são brasileiros, pensam como brasileiros e sabem que sou brasileiro. Jamais esperariam uma sucessão de tiros de escopeta por sobre seus carros e suas posições.
Assustados, não revidaram nem perseguiram.
Sigo em frente com a lembrança que preciso de um carro mais potente.

Divisa de Estado, troca de fuso horário e também de carro, pois vejo um senhor abrindo seu velho Opala para sair correndo.
O abordo armado. Vejo que é dos bons, seis cilindros.
Sim, um covarde e simples assalto.
Transfiro minhas coisas e levo seu carro, deixando as chaves do meu para que ele possa sumir dali também.
Ele me xinga e dou toda a razão.

Não conseguia falar com minha amada, pois não havia mais internet. Mas tínhamos já um plano, e eu só esperava que ela o cumprisse.
Pela manhã cheguei à sua casa, e ela me abraçou.
A embarquei no carro, junto com o pequeno menino dela, e sumimos dali.
O único rumo em mente: cruzar a fronteira e alcançar a Argentina.
De todos os países do cone sul, seria o único perfeitamente alinhado ao único exército que poderia intervir ao nosso favor - as Forças Armadas dos EUA.

Cruzamos a fronteira por estradas de terra. Argentinos não são tão trouxas quanto nossa rivalidade pensa.
E finalmente alcançamos o outro lado.

Não foi surpresa ao encontrarmos diversos acampamentos de brasileiros refugiados, sob as vistas grossas do Exército Argentino.
Haviam rádios AM e Ondas Curtas - um crime que ninguém reclamou no Brasil, a abolição das frequências de rádio AM não foi à toa.
Caso pensado, crime premeditado de governos traidores.

E por esses rádios tivemos as mais terríveis notícias.
Sistemas de abastecimento de água e toda a rede elétrica mundial praticamente desligadas.
Estações de rádio operando com baterias solares.
Internet nem pensar.
Abastecimento de víveres?
Ao menos tínhamos comida e água estocadas e, que me perdoem os defensores do verde, boas armas e boa pontaria.

As notícias davam conta que a Argentina seria a base de forças norteamericanas para a retomada do território brasileiro, enquanto grupos de resistência dos países europeus se uniam, em uma carnificina que despovoaria metade da população mundial durante quase cinco anos.
Cinco anos de sangue, mortes e devastação.

Meia década depois a guerra acabava.
O Brasil estava livre, mas não sem um número absurdo de mortes.
Lìderes brasileiros enforcados em praça pública por um povo em fúria.
Cidades inteiramente destruídas.
Brasília se fora. Uma bomba. Uma única bomba aniquilara toda a cidade.
Mas a mulher que amo estava segura e ao meu lado.

E acordei suado, quase em pânico, mas feliz.
Era tudo um sonho. Um terrível pesadelo.
Quase uma viagem lisérgica.

Mas quem eu amo sobreviveu.
E sorri pra mim.
Me oferece um café.

E só então noto que estou em uma barraca militar.





Walter Biancardine




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