Olho o relógio. Meio dia e vinte e quatro. Eu seria capaz de jurar serem mais de 14h.
Acordo agora ainda noite. O dia amanhece em minutos. Fica longo.
Em poucas horas perdi a conta de quantos cumprimentos parei para dar. Em um local tão isolado, difícil entender como conheço tanta gente.
O motorista do ônibus. A dona da banca de jornal que me vende cigarros. Fora o resto todo que anda por aqui, mais perto. Vizinhos, se é que posso chamar assim.
E tem os cavalos. Revi o meu Baião, à distância. Meu amigo boiadeiro, seu Jó, não trabalha mais na fazenda aqui ao lado.
Ele deixava Baião comigo e me dava queijos, frescos, lá produzidos.
Sem condução e sem queijo.
Mas tenho agora um trio de cães, no lugar do sr. Wilson: TDAH, Cara Larga e Piranha, três cadelas que por aqui habitam e conversam comigo, na falta de orelhas e garrafas disponíveis.
Me dei conta de que, aqui, conheço tudo e todos. Me dei conta que o Rio de Janeiro que me doía o coração era apenas uma lembrança. Mais de um quarto de século se passou e o que eu sentia falta - pessoas, lugares e objetos - morreram, foram demolidos ou tiveram o lixo como destino - não necessariamente nesta ordem. Minhas saudades se resumiam a lembranças.
E eu, burro, não enxerguei isso.
Apenas ainda não entendi como me enraizei tão rápido aqui na roça.
Mas sei que tem algo a ver com a amplidão, com horizontes infinitos, silêncio absoluto e animais como amigos sinceros.
Apenas preciso conciliar isso com eventuais visitas aos meus amigos Carlos Bara e Ricardo Preto.
Sem eles, as bebedeiras não fazem sentido.
Sim, ando devagar porque já tive pressa.
Walter Biancardine
